[ CAPÍTULO 1 — O AMULETO DA PAIXÃO
A manhã nasceu mansa em Lageado. O galo cantô três vez e o sol já despontava no horizonte, tingindo o céu de alaranjado. Na fazenda Santa Eulália, Barão Joaquim acordava cedo, como de costume. Era um homem de porte elegante, bigode bem aparado e um ar de tristeza disfarçada no olhar.
— Ô João! — gritou o Barão, encostado na varanda de madeira. — Cadê a lenha pra cozinha, minino?
João, o filho mais velho, apareceu coçando a cabeça e ajeitando o chapéu de palha.
— Tô indo, pai. Só fui dá um pulo lá na venda do Germânio pra comprá uns prego.
O Barão torceu o bigode.
— Ocê fica se embromano naquela venda, João… e as coisa aqui fica tudo largada! Esse galo já cantô faz hora!
Lena, a filha mais nova, surgiu rindo.
— Deixa o João, pai. Ele foi atrás dos prego… mas bem que passou na venda só pra dá uma olhada na Cristal.
João ficou vermelho.
— Num começa, Lena!
Naquele instante, chegou Matias, o vendedor de rosas da cidade.
— Bom dia, Barão Joaquim. Trouxe as rosas da semana.
O Barão suspirou.
— Bão, Matias… deixa ali na varanda. Rosas… só me lembra a Carmelita.
Lena fez uma cara de surpresa.
— De novo essa história, pai?
Barão Joaquim olhou pro horizonte.
— Um homem nunca esquece de quem marcou o coração…
Antes que a conversa se prolongasse, surgiu Sofia, a velha cigana, montada numa charrete toda enfeitada de fitas colorida.
— Bom dia, sinhô Barão — disse, com a voz rouca. — Vim lhe trazer um presente.
O Barão olhou desconfiado.
— E o que é que a senhora quer, dona Sofia?
Ela desceu da charrete, tirou do pescoço um cordão com um pingente dourado em formato de coração.
— Este é o Amuleto da Paixão. Vai ajudá ocê a encontrá três amores… um do passado, um do presente, e um que ainda há de chegá.
João riu.
— Cê num vai acreditá nisso, pai!
O Barão pegou o amuleto na mão.
— E quanto custa essa história?
— Nada. Só quero vê ocê feliz antes que a morte me leve.
O clima ficou pesado. Madalena, a cozinheira da fazenda, saiu à porta.
— Credo, cruz em cima! Que história é essa de morte, Sofia?
A cigana sorriu.
— O amor é coisa séria, Madalena.
E assim entregou o amuleto ao Barão.
Germânio, o invejoso dono da venda, apareceu passando na estrada.
— Isso é patacoada! Amuleto… só serve pra tirar dinheiro de trouxa.
O Barão ergueu o queixo.
— Melhor acreditá em magia do que viver de má vontade, Germânio.
A velha cigana montou na charrete e foi-se embora, deixando no ar o cheiro de alfazema.
Naquela noite, durante o jantar, o Barão ficou calado, mexendo no amuleto.
— Que foi, pai? — perguntou Lena.
— Tô lembrando da Carmelita… será que ela ainda vive?
Rita, a cartomante da cidade, apareceu de surpresa.
— Vim aqui porque senti um chamado — disse ela, entrando sem bater. — E o amuleto já começou a fazer efeito.
— Cê tá bêbada, Rita? — ralhou Madalena.
Rita sorriu.
— Alguém nesta casa vai receber uma visita inesperada.
E mal terminou de falar, ouviu-se um estampido. Um tiro.
— Mas que diabos! — gritou o Barão, levantando da cadeira.
Todos correram pra fora. Lá, na estrada, Felipe, amigo de João, estava caído com um ferimento no ombro.
— Pelo amor de Deus! Chamem o Dr. Rodrigo e também o Pastor Gilson! — gritou Madalena.
O Barão correu até o rapaz.
— Quem fez isso, minino?
Felipe, com a voz fraca:
— Foi… foi…
E desmaiou.
Ficou um Mistério no ar.
CAPÍTULO 2 — O TIRO E A CHEGADA DE CARMELITA
A noite em Lageado seguiu agitada depois do tiro que acertou Felipe. Na fazenda Santa Eulália, Madalena fazia compressa de água com erva-cidreira enquanto o Pastor Gilson fazia oração.
— Em nome de Nosso Senhor, afaste essa desgraça dessa casa! — dizia o Pastor, com a mão na testa de Felipe.
Felipe, já mais acordado, gemeu:
— Eu num vi direito, só ouvi o estalo e a dor.
Do outro lado da estrada, escondido no meio dos pés de eucalipto, Américo, um jovem magrelo e estabanado, tremia feito vara verde.
— Ô trem ruim! — murmurava ele, com a espingarda ainda na mão. — Só queria treiná pro campeonato de tiro-alvo do mês que vem… e acertei logo o Felipe!
Aos tropeços, largou a arma e saiu correndo pro mato.
No meio da confusão, ninguém deu falta de Américo. Só Germânio, que apareceu na fazenda pra bisbilhotar.
— Aposto que foi coisa de encomenda — cochichou pra Lena. — Ou o Germânio jura que não se chama Germânio!
Lena revirou os olhos.
— Ah, vá se enxergá, home!
A noite passou e o dia clareou. O Doutor Rodrigo, médico da cidade, chegou cedo na fazenda pra examiná Felipe.
— Ô moço teve sorte, viu? — disse o doutor, ajeitando os óculos. — O chumbo pegô de raspão. Seu anjo da guarda tava de plantão essa noite.
Felipe, ainda meio grogue, sorriu fraco.
— Num é que eu senti memo, dotô… parecia que tinha alguém me empurrando na hora.
Madalena fez o sinal da cruz.
— Deus é mais… E quem foi o cristão que deu esse tiro?
João coçou a cabeça.
— Tão dizeno que foi o Américo treinano no mato.
O doutor Rodrigo deu um sorriso.
— Esse rapaz num acerta nem porta de celeiro… ainda bem que foi de raspão.
De manhã cedo, a cidade amanheceu com um burburinho novo: Carmelita, a mulher que anos atrás foi paixão do Barão Joaquim, chegava à cidade.
— Mas num é que é ela memo? — disse Cristal, a artista sonhadora da cidade, espiando pela janela da venda.
Carmelita desceu da charrete. Cabelos castanhos volumosos, vestido florido e um sorriso que parava a cidade.
— Ô meu Deus… eita que a coisa vai engrossá — comentou Madalena, espiando da varanda.
Carmelita foi direto pra fazenda Riacho Bom, vizinha da fazenda do Barão.
— Vim tomá conta das terra que herdei do meu finado tio Ildefonso — contou ela pro Cláudio, o prefeito, que ficou babando.
— A cidade ficou mais bonita com ocê aqui, Carmelita.
Ela deu uma risada.
— Me poupe, Cláudio… ainda tem as mesma cantada de 30 ano atrás.
Enquanto isso, Germânio espalhava fofoca.
— Diz que Carmelita voltou só pra arrancá fortuna do Barão.
E o Barão? Passava a manhã inteira olhando o amuleto.
— Será que é ela… o amor do passado? — perguntava-se.
João, que num sabia de nada, mexia no celeiro.
— Ô pai, o Américo sumiu. Ninguém viu o dito-cujo desde ontem.
Madalena, com um bolo de fubá na mão:
— Sumiu porque sabe que vai pra cadeia! Um tiro desse… credo.
Cristal chegou ofegante.
— Disseram que viram Américo fugindo pelo mato!
Rita Cartomante apareceu de novo.
— O amuleto vai começá a revelá os segredos… e esse tiro foi só o começo.
Todos se entreolharam.
De repente, o Pastor Gilson chegou.
— Gente, o Felipe tá melhor, mas disse que viu de relance o Américo atrás da cerca.
E nessa hora, Germânio, rindo:
— Que pontaria desgraçada… acertá o Felipe tentando acertá lata!
CAPÍTULO 3 — CANTIGA DO PASSADO E FUGA NO MILHARAL
O sol começava a se deitar devagar no céu de Lageado, espalhando tons de laranja e rosa sobre o riacho que cortava as fazendas. Barão Joaquim, depois de uma manhã inquieta, decidiu cavalgar até o rio pra clarear as ideias. Levava no bolso o velho amuleto, que agora parecia mais quente do que nunca.
Chegando na beira d’água, ouviu uma voz feminina cantando baixinho, uma melodia antiga, dessas que a gente aprende de ouvido na infância e nunca esquece. Escondeu-se entre as árvores e avistou Carmelita, sentada na pedra, com os pés na água e os cabelos castanhos soltos, cantando pra si.
Carmelita (cantando): Que coisa boa, voltá pra cidade, Ouvi cantos dos pássaros, lembrá da mocidade, Do amor do passado que ainda mora em mim.
Joaquim não se conteve. Aproximou devagar e, com voz firme, completou o refrão:
Joaquim: Que coisa boa, voltá pro meu rincão, Reencontrá minha rosa, flor do meu coração.
Carmelita virou o rosto surpresa, mas logo sorriu. Os olhos brilharam.
— Num acredito, Joaquim… ocê ainda lembra dessa cantiga?
Ele sorriu, tirou uma rosa vermelha do bolso da camisa e lhe entregou.
— Sempre lembrei das suas rosas… e são sempre as mais cheirosas — disse ela, levando a flor ao nariz.
Joaquim ajeitou o chapéu.
— São como perfume do amor, Carmelita… e seu sorriso é o mesmo de antes. Mas, confesso, sua beleza tá ainda mais atraente.
Ela riu, tímida.
— Deixa de lero, Barão. Eu tô é com as ruga chegando.
— Se são ruga, eu quero um bocado dessas pra mim então — respondeu ele, e os dois riram juntos.
Enquanto isso, no milharal…
Américo corria feito alma penada. A espingarda já tinha ficado no mato desde a noite anterior. Atrás dele, vinham o Delegado Almir e os cabras Breno e Gaspar, montados a cavalo.
Américo, esbaforido: — Eu só queria treiná! Num era pra matá o Felipe! Ó minha pontaria miseráve…
Na cabeça dele, tinha certeza que tinha matado Felipe, e agora era foragido. O mato era alto, os milhos passavam dos dois metros.
Delegado Almir (gritando): — Para, Américo! Em nome da lei!
Breno: — O bicho corre mais que lebre!
Gaspar: — Vamo pegá ele, delegado!
Na beira do rio, onde o córrego fazia uma curva, Jenario — um pescador trambiqueiro da região — já esperava Américo com um barco de madeira, remo na mão.
Jenario: — Bora, home! Se num quisé virá isca de peixe.
Américo mergulhou dentro do barco.
— Toca pra frente, Jenario! Eu num posso virá comida de cadeia!
Jenario: — Eita, que cê tá mais suado que tampa de chaleira!
O barco deslizou no rio, enquanto os cavalos dos policiais não conseguiam atravessar o córrego largo.
Delegado Almir: — Deixa esse peste. Ele num vai longe. Nessa cidade, todo mundo conhece a fuça dele.
De volta ao rio, Joaquim e Carmelita caminhavam pela margem.
— Cê ficou mesmo bonita, Carmê.
— E ocê continua sem vergonha — disse ela, dando um leve tapa de brincadeira no ombro dele.
O amuleto no bolso de Joaquim parecia esquentar mais. E ele pensou: será que era ela? O amor que o amuleto veio me mostrar?
CAPÍTULO 4 — ENCONTROS escondido, INTERESSES
Na noite seguinte, o galpão sertanejo de Lageado fervia de conversa, moda de viola e cheiro de cachaça. Lá dentro, entre mesas de madeira rústica e lampiões pendurados, Barão Joaquim teve um encontro marcado com Dora, prima de Jenario.
Dora era uma morena vistosa, cabelos lisos e soltos, que balançavam a cada passo. Tinha fama na cidade de ser mais interesseira que peixeiro em dia de procissão. Sentou-se diante de Joaquim com um sorriso que mais parecia ensaiado.
— Cê tá bonito, Barão. Aposto que com aquela fortuna que dizem, ocê num tem do que reclamá da vida, né? — disse ela, sem rodeios.
Joaquim ajeitou o chapéu e olhou sério.
— Mulher, deixa eu lhe dizê uma coisa: num pergunte de minha fortuna. Quem entra na minha vida pelo bolso, sai dela pela porta dos fundo.
Levantou-se, ajeitou o casaco e completou:
— Fortuna nenhuma compra paz de espírito, Dora. E mulher assim… não é pra mim.
Saiu do galpão deixando Dora sozinha, bufando de raiva.
Enquanto isso, na cidade de Alfazem…
Américo, ainda foragido, tinha conseguido se esconder no meio das barracas de sem-terra, numa ocupação que havia na beira da estrada. Dormia em rede rasgada, se alimentava de angu e restinho de feijoada.
Américo (pensando): — Melhor aqui que na cadeia. Eu só queria treiná… num era pra acertá ninguém…
O medo de ser preso roía suas entranhas.
Na fazenda Santa Eulália …
Lena, filha de Joaquim, vivia suas aventuras. Às escondidas, se encontrava com Matias, o vendedor de rosas da feira.
— Num aguento mais só lhe vê de longe, Matias — sussurrava ela, encostada na árvore.
— Eu também, Leninha. Mas seu pai me corta em dois se souber disso.
Se beijavam, e o cheiro das rosas de Matias misturava-se ao perfume do mato.
No cafezal…
João, outro filho do Barão, vivia caso escondido com Rosa, filha do Delegado Almir. Entre os pés de café, a paixão fervia.
— Cê sabe que se meu pai descobre, nois tá lascado — dizia Rosa, de olhos arregalados.
— Mas quem manda no meu coração é ocê, Rosa. E o resto que se lasque — respondeu João, puxando-a pra perto.
Os dois riam e se amavam no meio dos cafezais, escondidos dos olhares alheios.
CAPÍTULO 5 — REVELAÇÕES NO JANTAR E DESTINOS CRUZADOS
A fazenda Santa Eulália ficou em alvoroço naquela noite. Dona Madalena mandou preparar um jantar caprichado, mesa grande, galinha com quiabo, arroz de forno e doce de abóbora com coco. Barão Joaquim queria reunir a família e os mais chegados.
Carmelita chegou mais cedo, perfumada e sorridente. A casa cheirava a madeira antiga e café recém-passado. Quando todos se sentaram, a conversa girava em torno de causos e risadas, até que Carmelita pigarreou.
— Joaquim… eu tenho um trem pra lhe contá, que há tempo carrego no peito.
Todos se calaram. Lena e João ficaram atentos. O silêncio era pesado.
— Lembra daquele caso que nós dois teve, Joaquim… há mais de vinte ano?
O Barão largou o talher.
— Uai… lembro sim, Carmelita. Como é que podia esquecê?
Ela respirou fundo.
— Pois bem… daquele nosso amor nasceu Felipe.
A casa quase veio abaixo. Lena arregalou os olhos e deu um gritinho.
— Eu num acredito! Eu sempre desconfiava… ele tem o jeito do pai!
João bateu a mão na mesa, rindo.
— Ô trem bão, agora tenho outro irmão! Melhor notícia do dia!
Barão Joaquim passou a mão no rosto, emocionado.
— Deus do céu… esse tempo todo, desde piqueno, esse menino perto de mim e eu num sabia. Por que num me contou antes, Carmelita?
— Num deu tempo, Joaquim… a vida nos separou, depois eu fiquei com medo. Me desculpa.
O velho Barão se levantou, andou até ela e deu-lhe um abraço apertado.
— O que importa é que agora eu sei… e ele é sangue meu. Sempre foi.
Nesse instante, Felipe entrou na sala sem entender a comoção.
— Uai, o que tá acontecendo aqui?
Lena correu e abraçou o irmão.
— Ocê é nosso irmão, Felipe! Filho do Barão!
Felipe arregalou os olhos.
— Eita mundo pequeno… e eu ralando na lida, sem saber que tinha sangue azul! — brincou.
Todos caíram na risada.
Enquanto isso, em Alfazem…
Américo montava sua própria barraca no acampamento. Virou líder dos sem-terra, organizava as redes, dividia comida e planejava resistência.
— Aqui ninguém mais passa fome nem medo — dizia ele aos companheiros.
Era respeitado, mas o medo de ser encontrado ainda rondava.
Na fazenda…
Lena começou a sentir enjoo forte. Saiu correndo pra varanda, Matias foi atrás.
— Leninha, ocê tá bem?
Ela assentiu, pálida.
— Matias… eu acho que tô de menino.
O rapaz ficou sem fala.
— De mim, Leninha?
Ela apertou a mão dele.
— Num foi do vento que veio não, Matias.
Ele respirou fundo e a abraçou.
— Pois então, vamo criá esse trem junto.
No cafezal…
Rosa também decidiu abrir o jogo com João.
— João… eu tô desconfiada de uma coisa.
— Que que foi, minha flor?
Ela abaixou os olhos.
— Eu tô grávida.
João ficou branco.
— Deus do céu… e é meu?
Ela levantou a cabeça.
— E de quem mais seria, João? Só ocê que mexe comigo.
Ele respirou fundo e segurou as mãos dela.
— Pois então nóis vai assumi. Eu num fujo não.
CAPÍTULO 6 Penúltimo Capítulo — DECISÕES, CONFRONTOS E DESTINOS SELADOS
O galpão sertanejo tava animado naquela noite. Barão Joaquim se encontrou com Madalena, moça bonita, sorriso doce e olhos de quem carregava segredos. Sentaram num canto afastado, perto da janela, onde a brisa da noite trazia cheiro de mato molhado.
— Madalena, ocê é uma mulher diferente… me faz bem — disse Joaquim.
Antes que ela respondesse, Germânio chegou de rompante, flor vermelha na mão.
— Num entendo ocê, mulher! Quer eu ou o Barão Joaquim? Decida logo!
Barão Joaquim levantou a mão.
— Madalena, fica com Germânio. Mulher que num sabe o que quer, eu dispenso. Minha vida já teve amor demais enrolado.
Germânio ficou sem graça, e Madalena baixou os olhos.
Foi quando Rita Cartomante apareceu, véu colorido e olhos misteriosos.
— Joaquim… ocê só terá um amor verdadeiro. Pode ser o do passado, que vale por três, ou um novo, que vale por quatro. Faça sua escolha e seja feliz.
Joaquim coçou o queixo.
— Vixe… cada hora um trem novo nesse coração véio.
Na cidade…
Sofia, a cigana, chegou montada num cavalo baio, mais bonita do que nunca, lenço vermelho, olhar penetrante. Os homens da rua principal até pararam pra olhar.
— Vim buscar o que é meu — disse ela.
Foi direto até o rancho, mandou chamar Joaquim por uma carta.
— Ocê sabe por que te dei aquele amuleto… pra ocê ser meu, de mais ninguém.
Joaquim respirou fundo.
— Sofia, amuleto nenhum resolve coração de homem. Eu já fiz minha escolha…
Tirou o amuleto do bolso e colocou na mão dela.
— Pode levá… meu coração já tem rumo.
Sofia fechou os olhos, sorriu triste.
— Então vou embora dessa cidade.
E se foi, deixando a praça em silêncio.
Na igreja…
Delegado Almir e o Barão organizaram o casamento de Rosa e João, e de Matias com Leninha. Pastor Gilson fez a celebração.
— Diante de Deus e dessa gente boa, eu declaro ocês casado e abençoado.
Palmas, risadas, chuva de arroz.
Na saída da cidade…
Américo, cabisbaixo, de mãos atadas, era levado preso do aeroporto.
— Só queria um amor e um pedaço de chão…
Atrás dele, Aline, a filha do fazendeiro Jorge, chorava.
— Te espero, meu amor, nem que for no inferno!
Américo sorriu, mesmo algemado.
— Ocê é doida, mas é minha.
CAPÍTULO 7 final — AMORES, VERDADES E UM FIM QUE VALE POR TRÊS
A manhã clareava quando Rita Cartomante apareceu na praça da cidade, trazendo uma carta antiga, amarelada pelo tempo.
— Barão Joaquim, ocê precisa vê isso — disse ela.
Joaquim pegou a carta com as mãos trêmulas. Era de Sofia, a cigana. No papel, ela contava tudo: Germânio e ela tinham tido um caso no passado, mas ele queria mais. Germânio tramava tomar a fazenda e a fortuna do Barão.
Sofia, arrependida, avisava que jamais faria parte de tal plano.
— Vixe, mãe do céu… — murmurou Joaquim.
Sem perder tempo, o Delegado Almir prendeu Germânio, que gritava feito alma penada.
— Eu só queria ser rico! — berrava, enquanto era levado.
Na praça, a vida seguia.
Felipe, com o coração aliviado, começou a namorar Cristal, a moça sonhadora. Ela tinha vencido o concurso de escultura com uma peça linda: um cavalo e dois casais apaixonados.
— Fiz pra nóis, Felipe — disse ela.
Ele sorriu.
— Eita mulher arretada!
No altar…
Barão Joaquim decidiu se casar de novo. Mas não seria com Sofia, nem com Madalena, nem com ninguém além dela… Carmelita.
O povoado todo se reuniu pra festa. Pastor Gilson levantou as mãos.
— Que esse casamento seja de alegria e amor eterno.
Palmas, fogos, música de viola.
Carmelita, sorrindo, disse no ouvido de Joaquim:
— Num tem amuleto nem mandinga que se compare ao amor de verdade.
Ele beijou a mão dela.
— Ocê é o amor da minha vida.
No meio da festança…
Américo, recém-liberto, apareceu com Aline, a filha do fazendeiro Jorge.
— Vim pedir desculpa, Felipe… — disse, estendendo a mão.
Felipe apertou.
— Que seja a última vez, cabra.
Américo riu.
— Pode deixar.
Leninha e Rosa, barrigudas, deram à luz no mesmo mês.
João e Matias não cabiam em si de alegria.
— É a maior bênção da vida — disse Matias.
João concordou.
— Que esses meninos cresçam na paz desse lugar.
E a cidade de Lageado se acalmou.
Rita Cartomante resumiu tudo na última reza:
— A vida te mostra muitos amores… mas às vezes, um único é quem faz a felicidade.
Barão Joaquim, já de chapéu na mão e olhar sereno, falou alto:
— E esse amor é ocê, Carmelita.

