[CAPÍTULO 1 - A CHEGADA DO FORASTEIRO
O calor em Juazeiro naquela manhã fazia o suor brotar da alma. A poeira vermelha subia a cada passo, como se o chão quisesse esconder os pecados da terra. Francisco caminhava devagar pela estrada de terra, chapéu de aba larga cobrindo o rosto, uma mochila de couro surrada nas costas. Chegava como quem não quer nada, mas trazia no peito um passado pesado feito chumbo.
— Esse danado vem de onde, hein? — cochichou Abigail, atrás da janela de sua venda, os olhos mais rápidos do que língua de sogra em dia de festa.
Dona Zinha, varrendo o terreiro da casa grande, levantou os olhos e viu o vulto se aproximar. Apertou o olhar. Não reconheceu. Mas sentiu.
Na varanda da casa, o coronel Vecatro bebia café forte, olho fixo na plantação que um dia fora de outro. Mariana, sentada ao seu lado, parecia uma sombra do que já fora. Vestido claro, cabelos trançados, mas os olhos… ah, os olhos gritavam.
— Vai, Mariana. Pega mais café, minha muie — ordenou o coronel, voz áspera como casca de mandacaru.
— Já vou, coroné — respondeu ela, num fio de voz. O sotaque arrastado escondia a alma presa. Mariana desceu os três degraus da varanda como quem carrega o mundo nas costas. Quando ergueu os olhos, cruzou com Francisco, que passava diante do portão.
Francisco parou.
Mariana parou.
O tempo... pareceu esquecer de andar.
— Dia quente, moça — disse ele, tirando o chapéu com gentileza.
— Aqui no sertão é sempre quente... mais tem calor que queima por dentro — soltou ela, quase sem querer, como se as palavras tivessem vida própria.
Francisco sorriu de lado. Continuou andando. Mas deixou um pedaço de si ali.
Nos fundos da casa, Zé Bento cerrava o punho contra a parede de barro.
— Eu te juro, Mariana... eu juro por tudo que é sagrado que eu te tiro das garra desse coroné miserável! Ele num é teu dono, ele nunca foi! Pegou tu à força, dizendo que só entregava as terra pros nosso pai se tu casasse com ele... mas eu sei, eu sei no teu olho que tu num quer isso! E num vai ser ele que vai decidí tua vida, não!
Na capela, padre Ari terminava a missa, mas sua mente vagava. Sabia que a paz em Juazeiro era frágil feito vidro.
Na delegacia, Josiane lustrava a estrela no peito e olhava o retrato antigo de Vecatro pendurado na parede. — Cê vai cair, velho diabo. Pode ser que não seja hoje, mas a tempestade vem.
Francisco chegou à venda e pediu um copo com água.
— Num é daqui, né? — perguntou Abigail, já puxando assunto.
— Sou de muitos cantos... e de canto nenhum — respondeu ele, enigmático.
Naquele mesmo instante, o céu abriu um trovão seco. E no sertão, trovão seco é prenúncio de mudança.
CAPÍTULO 2 – “GARRAFAS, SEGREDOS E SUSPIROS”
O sol ainda queimava alto no céu de Juazeiro quando Francisco entrou estava sentado na mesa da venda olhando o movimento na rua do bairro.O ambiente tinha cheiro de pinga forte, chão de cimento batido e paredes que escutavam mais verdades do que a própria igreja.
Derepente ele se levantou e se sentou no banco de madeira encostado no balcão. Abigail, com um sorriso maroto no canto da boca, já sabia o que ele queria.
— Me pega uma garrafa do alambique mais forte e ardente que você tem, Dona Abigail.
Ela riu, enxugando as mãos no avental florido antes de pegar uma garrafa de vidro grosso, cheia de um líquido amarelado que parecia conter o próprio fogo do sertão.
— Ahhh... então cê é dos meus, é? Gosta é de coisa que queima e faz o peito cantar!
Francisco pegou a garrafa, virou um gole generoso e fez uma careta seguida de um leve suspiro satisfeito.
— Sim... pra tirar o sabor amargo da vida. Às vezes gosto de ser livre, feito passarinho. Andando de cidade em cidade... conhecendo lugar novo. E em cada canto, deixo uma coisa: às vezes é um amor que ficou, noutras só uma alegriazinha de ter passado.
Abigail soltou uma risadinha travessa e se inclinou no balcão.
— Mariana que o diga... ixiii! Acho que falei demais, viu.
Francisco virou o rosto devagar, sem soltar o copo da mão. A expressão endureceu, mas os olhos ainda estavam curiosos.
— Quem é Mariana, hein dona?
Abigail ficou calada por um instante, como quem tentou rebobinar a própria língua. Depois deu um sorriso sem graça e tentou disfarçar.
— Ih, moço... Mariana é só uma moça daqui. Bonita, quieta... vive ali na casa do coroné Vecatro. Mas olha, não se mete com ela não. Aquilo ali é flor que nasceu em jardim cercado com arame farpado.
Francisco bebeu mais um gole. O nome Mariana martelou no peito como se já fizesse parte da memória dele.
Do outro lado da cidade, Mariana olhava pela janela do seu quarto. Sentia o vento passar e bater nas cortinas como se fosse um chamado. Sentia, sem saber por quê, que algo já tinha mudado. E que o forasteiro que passara na frente da casa não era apenas mais um...
Na varanda da casa, Coronel Vecatro afiava uma faca, concentrado, como quem prepara o destino de alguém.
E lá fora, no calor do sertão, as engrenagens invisíveis do destino já estavam em movimento.
CAPÍTULO 3 – “VALENTE POR AMÔ”
O sol ia se escondê devagarinho por detrás dos morro, tingindo o céu d’uma cor laranja-avermelhada, bonita de vê. No alpendre da casa de pau-a-pique, Tuca balançava na rede, pensamento avoado e coração inquieto. Pela janela aberta, ele mirava a imensidão do sertão como quem buscava coragem na paisagem.
Com a caneta na mão trêmula, ele passou os dedo na folha de papel como quem alisa o destino, e pôs-se a escrevê, murmurando cada palavra:
“VALENTE POR AMÔ”
Só tô tão valente assim porque é por tu.
Tô aqui, de mansinho, escrevinhando esse bilhete com o coração batendo feito zabumba em dia de festa. Tô armando tudo pra te tirar desse casarão, Mariana... nem que eu tenha que encarâ o coroné, jagunço, capanga e o inferno inteiro.
Teu olhar me dá força, moça. Meu amô é daqueles que num seca nem com três veraneio seguido.
Te espero. Porque sou teu valente apaixonado.
Assinado:
O Valente Apaixonado
Tuca passou a língua nos beiço, dobrou a carta com todo carinho do mundo e chamou com um assobio baixo "psiu":
— Ô Pitágoras! Vem cá, fio...
O menino apareceu correndo, magrelo, de chinela estourada e cabelo espetado de poeira.
— Diga, Seu Tuca!
— Vai até a janela dos fundo da casa do coroné... entrega isso aqui pra Mariana, mas sem ninguém vê, viu? E num diga que foi eu que mandei não, que é pra num botar a moça em perigo.
— Pode deixá, é segredo debaixo da minha língua — respondeu o garoto, metendo a carta por dentro da camisa e saindo liso como sabão molhado.
Minutos depois,Pitágoras alcançou a lateral da casa grande, se esgueirando por trás dos pés de mandacaru. Jogou uma pedrinha de leve na janela. Mariana apareceu com os olhos desconfiado. Ele levantou a carta e ela entendeu.
— É do valente — sussurrou o menino. — Ele manda dizê que vai te arrancá daí nem que o mundo caia.
Mariana pegou a folha do papel com a mão trêmula, olhou em volta e fechou a janela devagar, como quem guarda um milagre.
Lá do terreiro, o coroné Vecatro pitava um charuto, mas sentiu um arrepio no cangote. O vento soprava diferente naquele dia. E o sertão… o sertão nunca sopra à toa.
CAPÍTULO 4 – “ARMA DE CORAGEM E PROMESSA”
No meio do mato fechado, bem ali onde o vento assovia segredo entre as folhas, Genésio tava no terreiro de barro batido, encurvado sobre um pedaço de madeira bruta. Suas mãos calejadas moldavam uma coisa que ninguém mais saberia nomear direito. Era arma, mas era também obra de arte. Mistura de faca japonesa com punho de cangaceiro, afiada com lixa de tempo e raiva acumulada.
O velho Genésio era desses cabra que já tinha visto de tudo — de rinha de faca a dança de bala — e dizia que cada arma tinha um espírito, um motivo e um dono.
— Caba bom num escolhe arma por beleza não... escolhe por intenção — murmurava, enquanto passava o dedo no fio brilhante de uma lâmina de cabo entalhado.
Foi quando Tuca chegou, suado e com os olhos acesos de urgência.
— Ô Genésio... qual dessas aí é a melhor?
O velho levantou o olhar, por cima dos óculos rachado na lente direita, e coçou o queixo branco de poeira e barba.
— Isso depende, homi... depende é de como tu vai usá. Tem arma que é só pra assustá. Tem outra que serve pra calar mentira. Tem umas que só de olhá o cabra já bota o pé na estrada.
Genésio virou e puxou de debaixo do banco um facão de lâmina curva, cabo de couro de bode trançado.
— Essa aqui, ó... essa já botou muito valentão pra corrê só no tilintá. Dá nem tempo de vê o corte, de tão rápida.
Tuca pegou a arma nas mãos, sentiu o peso, o equilíbrio, a promessa que ela carregava.
— Serve pra botá coroné e capanga pra correr?
Genésio deu um sorriso torto, de canto de boca.
— Serve até pra cortá os medo de dentro do peito, se tu tiver coragem de usá. Mas cuidado, Tuca... quem empunha uma arma dessas, tem que sabê que tá botando o próprio nome na história.
Tuca olhou pra lâmina reluzente, e naquele instante, soube que dali pra frente não tinha mais volta.
Lá longe, no casarão, o coroné Vecatro mordia um charuto sem acendê, como se sentisse um cheiro de pólvora que ainda nem tinha explodido.
E Mariana... Mariana segurava a carta no peito. No silêncio do quarto, um sorriso pequeno escapou dos lábios.
CAPÍTULO 5 – “CHAMA NO FORRÓ, FOGUEIRA NO PEITO”
O salão da vila tava em festa naquela noite. As lamparina penduradas tremeluziam com o vento morno, e o sanfoneiro já puxava um pé-de-serra daqueles que até coração cansado se animava. A poeira subia do chão batido enquanto o povo rodava, batia palma e ria alto. No meio do rebuliço, lá tava ela: Clementina. Mulher de postura firme, beleza forte, vestido colado no corpo como couro em tambor e o olhar que fazia até jagunço baixar a vista.
Ela dançava sozinha, no meio da roda, rebolando com vontade e elegância. A saia rodava feito redemoinho, e o povo se afastava só pra ver melhor.
Foi então que Francisco entrou.
Chapéu torto, camisa aberta no peito, sorriso misterioso. Os olhos dele encontraram os dela, e o tempo pareceu embriagado de cachaça.
— Com licença, moça... me concede esse forró? — disse ele, estendendo a mão, a voz baixa, arrastada, cheia de melodia do sertão.
Clementina olhou de canto, sorriu de canto, e aceitou.
O sanfoneiro mudou o tom. O salão silenciou um segundo como se o mundo quisesse assistir. E quando começaram a dançar... foi como se o chão tivesse aprendido a tremer diferente. Era corpo colado, olhar grudado, respiração no compasso do triângulo.
— Tu dança bem, cabra... — murmurou Clementina, colada no ouvido dele.
— E tu... tu é queimação de dentro — respondeu ele, apertando um pouquinho mais.
O povo olhava espantado. Pareciam dançarinos de festival, desses que ganham troféu e fanfarra. Mas ali era só química de alma, fogo antigo que se reconhecia.
Horas depois, quando a sanfona silenciou e o povo dispersou, eles seguiram sozinhos pela estradinha de terra, iluminados só pelo luar.
À beira do rio, Clementina tirou a sandália, molhou os pés na água fria.
— Tu é diferente, moço. Não sei de onde vem, nem pra onde vai... mas parece que já morou nos meus sonho.
— Talvez eu tenha vindo pra isso mesmo... pra bagunçar coração valente — sussurrou Francisco, tirando o chapéu, sentando ao lado dela.
Conversaram miudinho, entre risos e verdades. E no silêncio que veio depois, se amaram sob o som do rio correndo e da noite guardando segredo.
Ao longe, o sertão observava. E o destino sorria com malícia.
CAPÍTULO 6 – “QUANDO O CALOR É MAIS QUE DO CLIMA”
A noite tava quente que só brasa em forno de barro. A lua cheia lá em cima parecia uma lamparina derramando luz sobre Juazeiro. E ali, na praça da igreja, Francisco se ajeitava num banco, como de costume. O chapéu de couro cobria os olhos, mas o pensamento voava longe... mais exatamente no cheiro de Clementina, que ainda teimava em morar nas narina dele.
Ele lembrava dos beijo trocado, dos corpo colado, da água fria do rio e do calor que ela deixara no peito. Suspirou fundo, como quem tenta expulsá amor da alma com um só fiapo de vento.
Foi quando escutou os passos.
Tac... tac... tac...
Chegando no compasso do destino, veio Patrícia, moça de andar firme e sorriso de quem já nasceu desafiando estrada. Vestido leve, cabelos solto e olhar curioso.
— Eita, e isso é hora de cabra tá dormindo assim, feito cachorro de feira, bem numa noite quente dessa? — disse ela, com aquele sotaque arrastado, carregado de malícia. — Isso é hora é de dançá um forrozim, homi!
Francisco levantou a aba do chapéu devagarinho, com aquele jeito calmo que só ele tinha.
— Boa noite, moça bonita ... acabei de vinhê de um baile. Pense num forró bão... daquele que a gente dança até a alma gemer baixinho.
Patrícia riu, cruzou os braços, e deu um passo à frente.
— Pois então se anime, porque tem outro na cidade vizinha. Se tiver coragem, a estrada é nossa.
Francisco encarou ela com um sorriso maroto.
— Cê tá mais pra aventureira do que pra dançadeira, viu... qual é o teu nome, moça?
— Patrícia, muito prazer. E o seu, cabra forrozeiro?
— Francisco, ao seu dispor... e talvez à sua perdição — disse ele, lançando um olhar que derretia até pedra.
Os dois ficaram ali, trocando olhar que mais parecia labareda. Era faísca de cá, fogo de lá. E a carne... ah, a carne é fraca, principalmente na beira da tentação.
Francisco já veio com seu jeito de galanteador sertanejo, falando baixinho, elogiando cada gesto dela. Patrícia riu, encantada e falou mexendo no cabelo.
— Vamo lá em casa? Tá mais fresca que essa praça... e eu num gosto de dormi sozinha — soltou sem rodeio.
— Só se tu num for casada... — rebateu ele, com um riso de canto.
— Solteira... com muito amor pra dá — respondeu ela, mordendo o canto do beiço.
— Então somos dois.
Era pra dormi na rede, como sempre fazia. Mas naquela noite, a rede ficou balançando sozinha. Francisco acabou foi na cama de Patrícia. E ali, entre lençol quente e suspiro beijos corpo colado.
A janela deixava vê um romance escondido, e o vento trazia um frescor no meio do suor quente da noite. Francisco, com seu jeito calado, acabou foi amando duas na mesma noite — sem se apaixonar, ou pelo menos era isso que ele achava. Só que o tempo, esse cabra arretado, ia mostrar pra ele qual sentimento era amor de verdade.
Do lado de fora, a lua se escondeu por detrás duma nuvem — que é pra num vê demais.
CAPÍTULO 7 – “ROMANCE ESCONDIDO E CHEIRO DE PÃO QUENTE”
Ainda era de madrugada quando Francisco se levantou da cama de Patrícia, vestindo a camisa amassada e ajeitando o chapéu com aquele jeito sorrateiro de quem carrega mais que lembrança na pele. Pulou a janela com leveza de gato matreiro, os pés descalços tocando o chão frio da calçada.
Deu um sorriso maroto pro céu e sussurrou com gosto:
— Eita... eu achava que ia só beijá uma... acabei foi fazendo amor com duas na mesma noite. Ô cidadezinha boa de mulher bonita e fogosa, visse?
O vento da manhã já soprava leve, e o silêncio do sertão guardava, como sempre, os segredos de amor escondido — daqueles que nem as paredes confessam.
O dia começava a clarear quando Padre Ari abriu as portas da igrejinha. Hoje era dia da missa das seis, e o sino tilintava preguiçoso, chamando os fiéis com seu toque manso.
Pelas ruas ainda poeirentas, Policial Genilson e Policial Euclides faziam a ronda montados nos seus cavalos, os olhos atentos pra qualquer coisa fora do compasso.
Na outra esquina, Tio Arthur, o velho tio de Mariana, abria a padaria que cheirava a fornada recém-saída do forno. Esticava os braços e soltava um bocejo comprido, enquanto organizava os pães na banca de madeira.
Foi aí que Francisco apareceu, batendo a poeira das botas com os calcanhares, ainda carregando um sorriso de quem traz segredos da noite anterior.
— Bom dia, seu Tio Arthur! Aqui que é a padaria mais xique da cidade, é?
Tio Arthur ergueu os olhos com desconfiança, limpando a mão no avental branco, já manchado de farinha.
— Num vendo fiado, não. Mas ajudo quem precisa... vai querê o quê, cabra?
— Um pão daqueles que tem cheiro de casa e gosto de lembrança. E, se tiver, um cafezim passado na hora, quente feito coração apaixonado.
Tio Arthur bufou uma risadinha sem querer, mas disfarçou virando as costas.
— Vai sentando ali no tamborete... mas olha, história de amor aqui só se for contada na manteiga.
E enquanto o pão esquentava na chapa, e o café soltava aquele cheiro que abraça a alma, Francisco olhava o movimento da rua acordando e pensava quem era a tal de Mariana,mais pensava em Clementina, e agora em Patrícia.
O coração, esse danado, tava mais enrolado que cipó em tronco velho.
CAPÍTULO 8 – “VERDADE QUEIMANDO FEITO FERRO EM BRASA”
O sol ainda nem tinha encostado no alto, mas Francisco já tava sentado na porta da padaria de Seu Arthur, comendo um pão quentinho passado na manteiga, o cheiro invadindo o ar feito lembrança de casa.
— Ôh Seu Arthur... diga aí, quem é essa tal de Mariana que tão fala por aqui?
O velho Arthur, com o pano no ombro e a cara cansada de quem viu mais do que queria, parou de cortar o pão e largou o facão em cima do balcão.
— Essa é minha sobrinha... vive debaixo da guarda do coroné Vecatro. Desde a primeira vez que aquele infeliz botou o olho nela, ficou doido. Disse pro meu irmão que só entregava a terra prometida se Mariana casasse com ele. Meu irmão num aceitou. Sumiram com ele, moço... até hoje ninguém sabe se tá vivo ou debaixo do chão.
Francisco largou o pão na metade. Engoliu seco, o suor brotando nas têmpora.
— Num... num pode ficá desse jeito, Seu Arthur. Num pode deixá a moça nas mão desse cabra, não! Se ela num ama... se ela num quer... ela tem direito de escolhe o próprio destino. Tem que tirá ela de lá!
Seu Arthur suspirou, limpando as mãos no avental sujo.
— Isso que todo mundo pensa, meu filho... mas aquele homi é bicho ruim. Poderoso. Tem jagunço espalhado até embaixo da mesa da igreja. Ninguém se mete, não. Quem tenta... some ou amanhece calado pra sempre.
Francisco se levantou devagar. Tirou umas notas amarrotadas do bolso da calça e colocou no balcão.
— Aqui tá o dinheiro do café e do pão. Obrigado mesmo, Seu Arthur.
O velho só assentiu, olhando ele com o canto dos olhos.
Francisco saiu da padaria com a cabeça a mil. O nome Mariana martelava mais forte que o sino da igreja. Dona Abigail já tinha dito onde ela morava, e agora ele lembrava. Na casa grande do coronel. No casarão de grades e silêncio.
Mas ele também lembrava de algo mais: ele já tinha falado com ela... e aqueles olhos, ah, aqueles olhos, não eram de mulher que aceitou o destino, eram de mulher que pedia salvação.
Francisco cuspiu no chão, apertou o chapéu na cabeça e murmurou:
— Se o sertão é grande, maior é a coragem de um cabra quando o coração manda...
CAPÍTULO 9 – “FÚRIA DE AVÔ, SANGUE NO SERTÃO”
O dia nem tinha clareado por inteiro e o sertão já guardava no vento um cheiro de coisa prestes a explodir. Na parede da sala, a espingarda de dois canos, velha companheira de luta, reluzia sob a luz da manhã. Vô Venâncio, o velho cabeça branca de olhar fundo, encarava ela feito quem encara o próprio destino.
— É hoje... é hoje que eu tiro minha neta das garra daquele desgraçado de coroné! Vai ser chumbo pro lado que olhar! Num sou homem de ameaçá, sou de cumpri! — rosnou, com a voz carregada de tempo e fúria.
Zé Bento correu até a porta, olhos arregalado, vendo o avô engatilhando a arma.
— Vô... vô, o senhor vai aonde com essa arma?!
— Vou buscar tua irmã, fio! Ou tu esqueceu que Mariana é sangue nosso?! Agora sai da frente! — bradou, empurrando o neto com força.
Zé Bento, tremendo, pegou o facão e correu atrás.
Do lado de fora, no meio da rua empoeirada, Francisco viu o velho sair com a espingarda atravessada nas costas. Parou, arregalou os olhos.
— Oxente... o veim vai enfrentá o coronel assim, na tora? E eu aqui, sem nada nas mão... mas num posso ficá parado!
Tuca, do outro lado da rua, gritou:
— Vô Venâncio saiu armado?!
Genésio cuspiu no chão e murmurou:
— O velho endoidô de vez... mas endoide com motivo é coragem, cabra.
Na igrejinha, Padre Ari olhou pela fresta da janela. Fez o sinal da cruz devagar, rezando baixinho:
— Que Deus tenha pena... porque hoje o sertão vai gemê.
Vô Venâncio chegou na frente do casarão do Coronel Vecatro. Os jagunços levantaram as armas, mas ele foi mais rápido: deu um chute que arrebentou o portão de madeira, entrou feito tempestade de areia e encostou o cano da espingarda no peito do coronel, que tomava café na varanda.
— Solta minha neta, seu desgraçado! Ou tu vai morrê aqui mesmo!
O Coronel Vecatro tremia de raiva, mas a mão tava suando frio. Os olhos arregalados miravam o cano da arma.
— Venâncio, tu ficou doido, cabra velho? Sai daqui com essa doidice!
Mariana apareceu correndo do fundo, os olhos cheios de choro.
— Vô! Vô, não! Cuidadoooooooo!
Do lado, Raimundo, jagunço fiel, puxou o gatilho. O tiro ecoou no sertão inteiro.
PÁÁÁ!PÁÁÁ!PÁÁÁ!
Vô Venâncio caiu de joelhos, a espingarda escapando das mãos. O sangue se espalhou pela calçada quente.
O coronel cuspiu no chão, olhos duros:
— O show acabou.
Na rua, Seu Arthur chegou correndo, a alma esfarelando nos gritos:
— PAAAAAAIII!! Não vai embora assim, não... pelo amor de Deus!
E o sertão, em silêncio, chorou um de seus homens mais valentes. Mas o sangue derramado não ia secá em vão. Era só o começo da fúria.
CAPÍTULO 10 – “O LUTO VIROU RAIVA, E A RAIVA VIROU PROMESSA”
O sertão amanheceu em silêncio pesado, como quem respeita a dor de um povo. O vento soprou fraco, só o bastante pra tremê as telha e balançá a cortina do quarto onde Mariana se trancou de corpo e alma. Sentada no canto, com a cabeça no joelho, o choro dela era baixinho, mas carregado de fúria.
— Eu já odiava esse homem… mas agora… agora virou veneno no sangue!
No altar improvisado da cozinha, Dona Zinha botava vela em pé num pires descascado e rezava sussurrado:
— Vai em paz, seu Venâncio... o senhor foi bom, foi valente. Que as alma boa te recebam com braço aberto…
Lá na casa de taipa no fim da rua, Tuca se largava no colchão, o rosto enterrado no travesseiro velho. As palavras saíam entre soluço e raiva:
— Vô Venâncio... o senhor não merecia esse fim. Mas agora eu juro... juro que vou tirá Mariana daquele casarão, nem que eu junte um bando de cabra e invada com tudo! Se for preciso, eu lasco chumbo grosso nesse coronel e nos capanga dele! Porque eu... eu amo aquela mulher, vô.
Na beira do rio, Francisco sentava com os cotovelo no joelho, olhar perdido na água barrenta que corria lenta. Com um galho seco, riscava o chão.
— Tem que ter uma brecha, uma noite, uma porta esquecida… uma chance. Tem que existi um jeito de tirá ela de lá sem deixá ninguém pra trás.
Zé Bento, já com o rosto endurecido pela dor, organizava o velório do avô. Flor no caixão, sanfoneiro encomendado e o nome do velho bordado num pano branco. Mas no olhar dele... queimava outro sentimento.
Seu Arthur, com os ombros caído e a alma pesada, olhava pro sobrinho com preocupação.
— Num vá arrumá confusão, Zé... tu é sangue quente, mas pensa com a cabeça. Num mete os pé onde o coração cego manda.
Zé assentiu com o queixo, mas o punho trincado na lateral do corpo não mentia.
Do outro lado do vilarejo, na oficina abafada, Genésio abriu a porta do depósito, olhou pras espingarda engatilhada, pros facão bem afiado, e pro punhado de munição que guardava feito tesouro.
— Isso aqui... isso dá pra um bando de pistoleiro e sobra. Se vier a guerra, o sertão já tá armado.
E assim, enquanto a vela queimava devagar e o povo vestia preto em homenagem a Seu Venâncio, o coração de Juazeiro tremia. Porque agora não era só luto — era promessa de vingança. E quando o sertanejo promete, pode contá que mais dia menos dia, o mundo vai sabê.
CAPÍTULO 11 Penúltimo Capítulo– “MAPA DO PERIGO, PROMESSA DE LIBERDADE”
O entardecer já chegava pesado, feito um pano cor preto cobrindo Juazeiro. No salão simples, a vela tremeluzia no caixão de Vô Venâncio, e Mariana, com o rosto colado no ombro de Zé Bento, chorava miudinho, soluço apertado de quem perdeu chão e raiz.
— Ele num merecia isso, Zé... — sussurrava ela, agarrada no lenço puído do avô.
Coronel Vecatro tava lá também. Sentado, calado, olho duro e olhar de pedra que cortava todo mundo em volta. Capanga na porta, jagunço rondando... ninguém chegava perto sem sentir um arrepio de ameaça.
Lá pras bandas da olaria, escondido atrás do galpão, Tuca cruzou com Francisco, que esperava com a mão no bolso e olhar firme.
— Ôxente... e tu é quem, cabra? — rosnou Tuca, desconfiado.
— Prazer, me chamo Francisco. Tô afim de conhecê esse casarão por dentro. Fazer um mapa... escolhê a melhor hora pra tirá Mariana das mão daquele peste.
Tuca arqueou a sobrancelha, coçou o seu queixo e deu um sorriso de lado.
— Olha... falou bonito. Gostei de tu. Podemos embarcá junto nessa. Me chamo Tuca. E eu amo essa mulher, cabra.
Francisco deu dois tapinhas no peito de Tuca.
— Então vamo salvá tua futura mulher, homi.
Já no escuro da noite, os dois entraram pelos fundos do casarão. Dona Zinha, ouvindo os passos, apareceu na cozinha com o lampião na mão, tremendo.
— Eita, menino! Que susto! Que que ocês tão fazendo aqui?! Podia sê jagunço invadindo!
Francisco levantou as mãos bem devagar.
— Calma, dona Zinha. Nós é só gente de bem. Só vimo desenhar um mapa. Nada de maldade, nem arma hoje.
Tuca chegou mais perto.
— Ajuda a gente, Zinha. Ocê conhece esse lugar igual conhece o cheiro do seu café.
Ela suspirou fundo, os olhos marejando com lembrança e esperança.
— Pode... Mas andem ligeiro. Também quero vê minha menina livre... Se Deus quiser, essa hora tá pertim.
Enquanto o povo se despedia de Seu Venâncio no cemitério, com flor de campo e nó na garganta, Tuca e Francisco riscavam papel com carvão, medindo passo, contando cômodo, marcando canto.
— Vamos precisá de arma, cabra... — cochichou Tuca. — Genésio tem umas guardada. Dá pra armá bonito.
— A gente vê isso depois. Olha ali... vem gente chegando. Bora saí fora daqui!
No cemitério, Padre Ari fazia a missa de despedida, a voz cansada mas cheia de fé.
— Seu Venâncio não morreu em vão. O sertão vai fazê justiça, e quem planta coragem um dia colhe liberdade.
O povo murmurava "amém", mas nos olhos de cada um queimava uma certeza: a guerra tava só começando.
CAPÍTULO 12 FINAL – “LIBERDADE e rencontros ”
A madrugada chegou vestida de silêncio e coragem. No galpão velho atrás da olaria, o mapa do casarão tava estendido na mesa de madeira. Francisco riscava os últimos pontos com carvão enquanto o povo de Juazeiro se juntava em volta dele.
— Patrícia, ocê tem o jeito da Mariana... mesmo jeito doce, mesmo andar leve. Vai se passá por ela nessa fuga. — disse Francisco, com o olhar firme.
— E tu tá falando isso por causa dos planos... ou tá vendo coisa demais? — respondeu Patrícia, com um sorriso matreiro.
— Falando é da liberdade dela... daquela moça que merece voá longe, que nem passarim fora de gaiola. E ocê pode ajudá nisso.
Patrícia assentiu com força no coração.
— Tô dentro. Bora riscar essa história de um novo jeito. Nós escolhe o melhor horário e foge com ela pela estrada do sertão.
— O mapa já tá pronto. Eu e Tuca fizemos ontem com a ajuda de Dona Zinha. — afirmou Francisco.
Tuca surgiu na porta do galpão.
— O Francis tá falando com quem, cabra? Bora botar esse plano pra funcionar logo! Genésio até disse que entra junto com nós.
Francisco se virou e pegou o telefone do orelhão perto da venda.
Horas depois:
— Alô? Delegado Ramires? Chegou a hora. Chame reforço policial da cidade vizinha e cerque as entradas de Juazeiro... O agente secreto do sertão vai entrar em ação. Quando o coronéu cair, traga Seu Júlio de volta pro lado da família. O povo merece justiça.
— Sim, Tuca… agora é pra valer! Eu tava numa ligação das mais importante. O coronéu vai cair, cabra... vai caí feito torre velha no meio da ventania!
A Delegada Josiane, junto com os policiais Genilson e Euclides, fez questão de, assim que pegaram o coronel Vecatro, levar ele direto pra penitenciária da cidade vizinha, onde o Delegado Ramires já aguardava com reforço de polícia preparado. Era dia de justiça no sertão — e dessa vez, ninguém ia passar batido.
No casarão, Dona Zinha preparava o chá forte, erva que fazia até bode velho apagá sem roncá. Mariana estava trêmula, mas com esperança nos olhos.
— Dona Zinha... será que vai dá certo?
— Vai sim, minha fia. O povo tá armado não só de pólvora... tá armado de vontade. Tu vai saí livre hoje.
Nas matas em volta do casarão, Genésio e Zé Bento armavam ciladas com cordinhas de arame nos galhos e armadilhas no chão pra pegar jagunço no escuro. Cada passo era contado, cada respiração pesava feito trovão preso no peito.
O combate começou com um grito abafado.
Um jagunço caiu no laço, outro tropeçou feio numa armadilha. O barulho de passos correndo, galhos quebrando, e vozes sussurradas de raiva e esperança se misturavam na mata.
Patrícia, vestida de Mariana, corria ligeira pro fundo do casarão, enquanto Tuca a esperava com o cavalo já preparado e o coração batendo feito zabumba.
De repente, os tiros começaram: PÁ! PÁ-PÁ!
Era bala voando pra lá, pra cá, jagunço correndo sem rumo, capanga tentando entender o que tava acontecendo...
O povo, em fúria, se juntou feito enxame, com coragem nos olhos e justiça no peito.
Gritavam alto, lembrando da morte de Vô Venâncio e pela liberdade de Mariana — moça que carregava o sonho de todo um sertão.
Tuca olhou nos olhos de Mariana, com o coração batendo que nem tambor de festa.
— É agora, mulher! Boraaaa!... Coreeee!... Voa, que tua liberdade te espera, meu amor!
Mariana correu com o rosto aberto num sorriso de esperança. Mas um jagunço saiu do mato tentando agarrá ela...
PÁÁÁÁ!PÁÁÁÁ!PÁÁÁÁ!
Tuca girou com a espingarda em punho e deu um tiro seco, que fez o cabra cair igual saco de farinha.
— Ninguém vai mais te prendê, Mariana! Agora tu é do mundo, do vento e do meu peito!
— Brigada, meu herói... ocê me salvou com coragem e amor no peito. — disse Mariana, com voz doce e os olhos cheios de emoção.
Tuca olhou pra ela e sorriu largo:
— Sim, meu amor... o herói que disse na carta que ia te salvá. Prometi e cumpri, viu?
Mariana arregalou os olhos, surpresa:
— Então era ocê, cabra danado?
Tuca riu gostoso, aquele riso solto de quem venceu o mundo com sentimento:
— Era eu mesmo, flor do meu coração.
Mariana encostou o rosto no dele e falou com voz serena:
— Então escute bem, Tuca... eu também te amo. E digo sem medo: amor meu, pra toda vida.
Os dois seguiram estrada afora, deixando pra trás o medo e carregando só o que importa: liberdade e amor verdadeiro.
Francisco, com dois cabras armados, entrou pela lateral e encostou o Coronel Vecatro na parede.
— Acabou, coronéu. Ocê vai pagá por ter enganado o povo e mantido essa moça presa igual animal.
O coronel esperneou, cuspiu no chão... mas foi algemado pela polícia que já cercava o casarão.
Quando o sol riscou o céu, Seu Júlio voltou pra Juazeiro. Chorou ao abraçar Mariana, ao lado de Seu Arthur, Zé Bento, e os filhos que acreditaram até o fim.
Dinheiro roubado foi devolvido, terra libertada, povo festejando com sanfona, cheiro de milho assado e coração batendo feliz.
No terreiro iluminado com fogueira alta, Tuca e Mariana dançavam juntos, sorrindo com a alma:
— Agora tu é minha de verdade, minha flor do sertão.
E Francisco, cabra do mundo, partiu com a estrada aberta à sua frente. Levava no jipe suas duas paixões — Clementina e Patrícia — e levava também uma novidade no peito...
— Ei, Francisco... cê num vai embora sem dizê isso, né? — perguntou Patrícia, rindo.
— Agora eu sou pai, de duas criança está vindo nesse mundo de Deus ... no meio do sertão, nasceu mais um coração com história pra contá.

