Guerreiros do Sertão
Em 1957, no Juazeiro, três homens — Juca, Martins e Zé Carlos — lutam para recuperar as terras férteis de seu avô, Inácio, que foram tomadas pelo temido Coronel Timóteo. Já adultos e marcados pelas dificuldades do sertão, eles formam um bando para reivindicar o que é seu por direito.
No meio dessa luta, Maria Clara, filha do Coronel e com um espírito rebelde, se apaixona por Martins e decide ajudá-los, mesmo ciente dos riscos que isso implica. À medida que segredos antigos vêm à tona, incluindo uma carta misteriosa que pode mudar tudo, amores proibidos, traições e alianças inesperadas fazem parte dessa história repleta de mistério, drama e paixão. A luta pela terra se torna uma batalha de coragem, onde o suor e o sangue são testemunhas da determinação sertaneja.
História criada escrita por Edivaldo Lima.
Uma história de Minissérie
7 Capítulos
Gênero: drama, mistério, rivalidade, romance.
Personagens principais:Juca, Martins, Zé Carlos personagens secundários: Vô Inácio,Vó Marieta,Dr. Dilson coronel Timóteo, Maria Clara, Dr. Afonso , Profeta Sebastião, Mariana, Policial Euclides,Cecília e Mariana determinadas mulheres do bando, jacinto Quixada faz tudo por dinheiro, Severino homem de fé acredita nas palavras do profeta, delegada Cleide assanhada.
[Capítulo 1 — Os Filhos do Sertão
O sol queimava a terra seca de Juazeiro como se quisesse apagar qualquer rastro de esperança. A poeira dançava no ar e os galhos retorcidos das árvores pareciam clamar por um pingo d’água. Era assim naquele tempo, e era assim desde que Inácio, o velho patriarca dos Araújo, foi enterrado sem honra, depois de ter suas terras arrancadas pelo Coronel Timóteo.
Juca, de chapéu de couro e olhar de relâmpago, ajeitou a peixeira na cintura e cuspiu no chão.
— Vamo resolvê isso, num é, homi? — disse ele, encarando os dois irmãos.
Martins, mais calado, com o semblante duro feito pedra, acenou com a cabeça. Ele era um cabra de palavra, e onde pusesse a mão, ali ficava até a obra se findar.
Zé Carlos, sempre mais esquentado, passou a mão no bigode ralo e disparou:
— Tô doido pra passar esse facão no bucho do Coroné. Caba sem vergonha, tomou o que era do nosso avô, e ainda anda se fazendo de santo na missa.
O trio se encontrou na beira do açude seco, onde só restavam algumas garças brancas e uma carroça velha. O lugar onde Vô Inácio costumava pescar.
— Sabe, eu sinto ele aqui — falou Juca, abaixando a cabeça —. Parece que o velho ainda ronda esse sertão.
— E ronda mesmo — disse uma voz rouca, surgindo atrás deles.
Era o Profeta Sebastião, um ancião magro, de barba longa e chapéu de abas largas.
— O sertão tá cheio de alma penada e promessa incumprida. Vosmecês num deviam mexê com coisa de defunto.
Martins se aproximou, encarando o velho.
— E se for promessa de justiça, Sebastião? E se for a hora de acertar as conta?
O velho coçou o queixo e apontou pra um papel amassado no bolso.
— Têm uma carta… carta que pode virar esse sertão de cabeça pra baixo. Quem tiver com ela nas mão, pode fazer o Coroné cair.
Juca franziu a testa.
— Que carta é essa, véi?
— Carta que Vô Inácio deixou escondida. Tô lhe dizendo, cabra. Tá nas mão certa, num demora o Coroné Timóteo vai vê o inferno na Terra.
Do outro lado do vilarejo, na varanda da Casa Grande, Maria Clara observava a vastidão poeirenta. A moça de vestido claro e cabelos escuros como asa de graúna sonhava com outra vida. Ao lado dela, jovem Dr. Afonso tentava mais uma vez lhe encher os ouvidos.
— Maria Clara, minha flor… vosmecê sabe que meu sentimento é puro. Eu faria tudo pra lhe ver feliz.
Ela sorriu de canto, sem tirar os olhos do horizonte.
— Doutorzinho Afonso, vosmecê num entende. Eu num sou dessas moças pra casar e viver em casa de renda bordada. Meu sangue pede estrada e meu peito… ah, meu peito arde por outro.
Dr. Afonso apertou os punhos.
— Por aquele cabra safado do Martins? Um cabra sem eira nem beira?
Ela virou-se, dura.
— Cuidado com as palavra, doutor. Homem de verdade num se mede por riqueza.
No dia seguinte, ao anoitecer, Maria Clara encontrou-se escondida com Juca, Martins e Zé Carlos no galpão abandonado.
— Eu vou ajudá os cês — anunciou ela —. Meu pai num é dono desse sertão, e o povo merece justiça.
Martins pegou na mão dela.
— Se vosmecê fizer isso, vai ter gente querendo sua cabeça.
— Pois que queiram — disse ela —. Minha vida só vale se for vivida com coragem.
Mariana, mulher decidida e braço forte do bando, entrou na sala armada.
— Os cabra de Timóteo tão rondando. A gente tem que agir logo.
Zé Carlos sorriu de canto.
— Pois que venham. Hoje o sertão vai ouvir o rugido dos filhos de Inácio.
Do lado de fora, Jacinto Queixada observava tudo escondido, pronto pra vender a informação ao melhor pagador.
Naquela noite, a primeira investida seria feita. As espingardas foram limpas, as facas afiadas e o coração de cada um batia como um tambor de guerra.
Martins se aproximou de Juca.
— Cê tem certeza disso, cumpadi?
— Tenho. Ou a gente toma o que é nosso ou morre tentando.
Quando as luzes da cidade se apagaram e só as estrelas testemunharam, o bando marchou pelas veredas do sertão.
E foi quando, ao longe, um tiro ecoou na noite.
— PÁÁÁ!
Juca caiu de joelhos.
— JUCA! — gritou Martins.
Mariana se jogou no chão.
— De onde veio isso?
O Profeta Sebastião apareceu ofegante.
— Eu disse que o sertão guarda segredo… e essa noite, sangue vai correr!
A noite se fechou sobre Juazeiro.
Capítulo 2 — Sangue, Medalha e Traição
O casarão do Coronel Timóteo estava em silêncio. A sala grande, de móveis antigos e cheiro de madeira velha, abrigava uma reunião perigosa. Coronel Timóteo, de chapéu branco e olhar de onça brava, caminhava em volta da mesa.
— Jair, homi… vosmecê acertou o cabra? — perguntou, com a voz pastosa.
O capanga Jair, de pontaria certeira, ajeitou a espingarda no ombro.
— Acertei pra derrubá e para matar.Só se o santo dele for forte, pode até se levantá. Mas a raiva e o ódio vão sê maior que antes.
Coronel Timóteo bateu o punho na mesa.
— Eu num quero derrubá, eu quero matá, Jair! Juca, Martins e Zé Carlos são peste! E esse bando tá ficando forte demais!
Atrás da janela entreaberta, Jacinto Queixada, com seus bigodes sujos e olhos miúdos, escutava cada palavra. Um sorriso malandro surgiu no canto da boca.
— Posso ganhá uns bons cruzados com isso… só preciso sê ligeiro, antes que algum cabra me pegue — sussurrou pra si.
Enquanto isso, no hospital de Juazeiro, o doutor Dilson, um homem miúdo de bigode fino, limpava o ferimento de Juca.
— A bala pegou de raspão, graças a Deus… — disse Dilson — Essa medalha que ele traz no peito segurou o resto.
Martins, de pé ao lado da cama, segurou o amuleto de São Francisco.
— Medalha da nossa vó Marieta. Ela sempre dizia que esse santo num deixa filho de sertanejo caí sem luta.
Zé Carlos, mordendo um palito de dente, completou:
— Num disse? Nosso sangue é forte. Nóis é filho e neto de Vô Inácio. Só vai descansá quando a gente tomar as terra de volta.
Doutor Dilson suspirou.
— Até onde vai essa rivalidade, Martins?
O cabra respondeu, duro:
— Até o sertão sê limpo de vez. Ou a gente reconquista ou morre de cabeça erguida.
A noite seguia quente, o céu estrelado feito manto bordado, e o destino do sertão de Juazeiro mais uma vez se escrevia em sangue.
Capítulo 3 — Artimanhas e Traições na Noite do Sertão
Numa noite quente, onde até as corujas pareciam de olho na carcaça de mentiroso morto por rivalidade, Cleide, uma mulher morena, bonita, atraente, de cabelos cacheados e traje bem arrumado, seguia a passos firmes até o casarão do Coronel Timóteo. O cheiro de cachaça e fumaça de cigarro já denunciava que o velho coronel andava entregue aos seus vícios e devaneios.
Timóteo, já meio embriagado e de pensamentos sujos com mulher bonita, foi atender a porta. Ao abrir e ver Cleide, arregalou o sorriso.
— Cleide… que surpresa danada, mulher!
Ela passou a mão pelo cabelo e ajeitou o vestido, com um olhar de quem sabia o poder que tinha.
— Vim te vê, sabê como ocê tá…
— Melhor agora, minha filha — respondeu ele, puxando a cadeira pra ela sentar.
Enquanto conversavam, Cleide avistou uma carta sobre a mesa. Não sabia se era a tal carta misteriosa, mas o instinto lhe acendeu o alerta.
Não acredito… vou ter que embebedar esse velho pra descobrir se é essa mesmo, pensou.
— Que tal mais um gole, coroné? — sugeriu, enchendo o copo dele.
Do lado de fora, Jacinto Queixada se aproximava de uma venda velha, onde esperava encontrar um dos cabras de Juca. Tinha informação quente pra vender: a conversa de Timóteo com Jair, os planos e a história da carta.
Mas não sabia que Jair o seguia de longe.
— Vô ganhá uns bons cruzado com isso, mas tenho que sê ligeiro pra não levar chumbo — murmurou Jacinto.
Na beira do rio, o Profeta Sebastião repetia para Severino:
— Vai ter sangue… a terra num vai suportá tanta mentira…
Severino fez o sinal da cruz.
De volta ao casarão, Cleide servia mais cachaça e se insinuava.
— Sabe, coroné… eu sempre tive um fraco por homem de poder…
Timóteo, já mole, respondeu:
— E eu sempre quis botá ocê nos meu braço, Cleidinha…
Ela riu, se aproximou e, como quem não quer nada, perguntou:
— E essa carta aí? Que segredo carrega essa belezura?
Timóteo segurou o copo, os olhos piscando de bêbado.
— Essa aqui… pode botá meio Juazeiro de joelho… mas ninguém nunca vai punhá a mão nela.
Ela sorriu.
— Veremos…
Enquanto isso, Jair encostava em Jacinto Queixada.
— Ô cabra safado… achou que ia vendê informação e eu num ia vê?
Jacinto Queixada tentou correr, mas levou coronhada. Antes de desmaiar, murmurou:
— A carta…
A lua seguia alta, as corujas piavam, e o sertão, de olhos bem abertos, esperava pelo próximo sangue derramado.
Capítulo 4 — Luar de Conspiração
A noite de Juazeiro era de um calor abafado, e as corujas não davam descanso, piando feito sentinelas do destino. Jacinto Queixada,desmaiado perto do açude depois da coronhada certeira de Jair, foi encontrado por ninguém menos que o Dr.Dilson , que passava ali de cavalo.
— Ôxe… mas que diabo de cabra é esse estirado feito bagre seco? — murmurou o médico, descendo do animal.
Vendo que Jacinto ainda respirava, tratou de jogá-lo sobre a cela e seguir até a cidade.
No terreiro da velha casa de pedra onde o bando de Juca se reunia, uma novidade agitava o ambiente. Mariana ajeitava o lenço no pescoço, quando viu, ao longe, a poeira levantada por um cavalo.
— Quem será que vem a essa hora? — perguntou Severino.
Era Maria Clara, montada com destreza, vestida como cabocla valente, peixeira na cintura e rifle no coldre. Mariana sorriu de lado.
— Agora sim… mais uma mulher no bando. Isso aqui só tem a fortalecê.
Maria Clara desceu do cavalo e anunciou:
— E aí, cabras… prontos pra desmascará o velho Timóteo?
Zé Carlos cuspiu no chão.
— Vixe… essa aí veio pra dá trabalho bom.
Ela continuou:
— Ele tá marcando reunião hoje na usina antiga… quer tratá das novas posses e pagar promessa pra santo nenhum. Podemos invadir, desarmar e assustar o velho e os capanga.
Martins, não tirava os olhos dela.
— Ocê tá linda, mulher… feita uma sertaneja brava.
Ela sorriu, firme.
— Linda e perigosa… com peixeira na cinta e arma no coldre.
Todos riram e combinaram os passos da investida.
A lua clareava o terreiro e, mais tarde, durante o lual improvisado à beira do rio, Martins se achegou a Maria Clara.
— Sabe, Clara… eu num sei onde isso tudo vai dar… mas se esse sertão me der você de presente, já valeu.
Ela abaixou os olhos, sorrindo.
— Deixa as coisa acontecê, Martins… o sertão é quem sabe a hora das coisa.
Se aproximaram, e o cheiro de madeira queimada e mato verde tomou conta da noite.
Ali, Mariana estendeu um pano sobre o chão de terra batida e desenrolou um velho mapa.
— Escutem bem, cabras… — disse ela, apontando com o dedo sujo de poeira. — A usina do sertão antiga fica aqui… depois do lajeiro e antes do pé de jurema seca. Se a gente seguir por essa vereda antes do amanhecer, pega os cabra de surpresa.
Juca coçou o queixo.
— E onde a gente faz a tocaia?
— Aqui ó… atrás do armazém de cana, tem um bombuzal velho. Dá pra prendê o Jair ali feito bicho-do-mato.
Zé Carlos bateu palmas.
— Eita plano bom para bando nem um botar defeito ! Hoje o sertão vai estremecê.
O bando todo se animou. Naquela noite de luar espesso, a vingança se armava e a esperança renascia no coração daqueles guerreiros do sertão.
Capítulo 5 — Estrada de Combate e Reencontro
O sol ainda não havia dado as caras quando o bando partiu. A estrada empoeirada cortava o sertão, trincada feito pele de velho caboclo, com cactos erguidos como sentinelas dos perigos do caminho. Juca, Martins, Zé Carlos, Mariana, Maria Clara e os outros cavalgavam em silêncio, atentos a qualquer estalo ou movimento no mato.
Ao dobrar a curva perto do lajeiro grande, viram o Profeta Sebastião vindo com uma pequena romaria de penitentes, todos descalços, velas na mão e cânticos roucos na boca.
Maria Clara, puxando as rédeas, falou:
— Vamo pegá a estrada da direita… evita muvuca e não chama atenção.
O bando seguiu firme pela vereda estreita. Severino, que vinha mais atrás, espiou pra romaria e arregalou os olhos.
— Ôxente! Ocês tão vendo aquilo ali? É a Cecília naquela estrada!
Mariana puxou o chapéu pra trás, sorrindo.
—Oxê … cecília voltou! Eita que a coisa tá melhorando.
Maria Clara franziu o cenho.
— E quem danado é essa tal de cecília ?
Juca ajeitou o chapéu.
— Nossa prima, mulher. Braba que só. Sumiu faz um tempo… diziam que tinha se enfiado lá pras banda do sul.
Horas depois, já próximo do matagal que cercava a antiga usina, prima Cecília surgiu do meio da mata, rifle no ombro e um sorriso de canto.
— Pois vamo simbora, cabras… que eu tava de tocaia ali no mato e vi os jagunço de Timóteo pegando aquela estrada. Ocês tão no rumo certim.
O bando arregalou os olhos e ficou todo feliz com a aparição da prima.
Maria Clara se aproximou.
— Quem diria, hein… Maria Clara misturada com esse bando disse prima cecília.
Maria Clara soltou uma risada.
— Pra tu vê como é as coisa desse sertão… a vida dá cada cabriola que nem eu imaginava.
Martins olhou o céu.
— Bora simbora, minha gente… que o tempo urge e o sertão num espera não.
Mariana abriu o mapa de novo, ajeitando o lenço no pescoço.
— A tocaia vai ser depois da porteira de pau-ferro. Uns se escondem no bombuzal, outros atrás das moitas de mandacaru. Assim que os cabra passarem, a gente fecha o cerco.
Zé Carlos girou a peixeira na mão.
— Hoje esse sertão vai cantar forte, visse?
O bando se espalhou pelas trilhas, pronto pra fazer o sertão estremecer.
O cheiro de terra seca misturado ao suor da coragem tomava conta do ar. Os guerreiros do sertão estavam prontos.
Capítulo 6 penúltimo Capítulo — A Tocaia e a Carta Maldita
A noite caía feito véu de noiva sobre o sertão, e o bando já tava escondido no mato, bem quietim, só o canto da coruja e o farfalhar de folha seca quebrava o silêncio.
Juca, Martins, Zé Carlos e Maria Clara estavam agachados atrás dum moita de mandacaru, espiando a estrada onde uns jagunço se ajuntavam pra bolar emboscada.
— Ocês ouviram, cabras? — cochichou Martins. — Esses peste tão tramando pegá a gente na curva do açude.
Maria Clara, com a peixeira no cinto, fez cara de quem não arreda o pé.
— Pois vão ficar esperando de bucho vazio… hoje quem caça é a gente.
Mariana, que vinha vindo com Cecília, se achegou.
— O bombuzal já tá cercado. Severino e os cabra tão prontos pra agarrá Jair assim que ele passar.
Juca cuspiu no chão.
— Esse peste vai pro sol quente amarrado no tronco… se num abrir a boca e dizê cadê a carta, vai ficar torrando.
Maria Clara encarou o grupo.
— Eu digo logo… isso aí é pior que matá. Coroné Timóteo vai esperniá e entrega essa tal carta rapidim.
Martins deu um sorriso torto.
— Assim que Jair tiver preso, eu e Maria Clara vamo pro casarão… revira aquilo até achá essa papelada.
Zé Carlos ajeitou o chapéu.
— Bora, minha gente. Que o sertão tá com sede de justiça.
Mariana ergueu o rifle.
— Que comecem os infernos.
O bando se espalhou no mato, a tocaia armada, o cheiro de pólvora no ar e o destino de Juazeiro prestes a mudar de dono.
Capítulo 7 final — A Queda do Coroné
O sol nem tinha dado as caras direito quando Jair montou no cavalo e saiu desembestado da usina. Mal sabia ele que a tocaia tava armada. Num estalo, um laço certeiro pegou o cabra pelo cangote e derrubou no chão poeirento.
— Pegamo, cabra safado! — gritou Juca, rindo de canto de boca.
Mesma coisa foi com Coronel Timóteo. Tentou fugí, mas levou rasteira da vida. Os cabras de confiança bem que tentaram reagir, mas o sertão virou pólvora. Chumbo grosso cantou na estrada seca. Tiros pra todo lado, jagunço correndo feito frango sem cabeça, uns tombaram na poeira, outros sumiram pelo mato.
Severino e cecília cuidaram de amarrar o coronel e Jair no tronco do bombuzal. O sol já tava rachando quando Martins se agachou na frente de Jair.
— E aí, valentão… reza pra nóis achá essa carta… se num… vai torrá até o couro cair.
Maria Clara apareceu de peixeira na cintura e falou, a cara dura:
— Se num entregá, coroné, meu pai vai virá banquete de urubu.
Timóteo, suado e apavorado, cuspiu pro lado.
— Ocê… minha filha… armô tudo isso?
— Armeie, coroné. Eu tenho seu sangue, mas num carrego sua ruindade não. Ocês tão vivo porque eles não quis atirar para matar.
Jair, pálido feito cera, resmungou:
— Roga pra encontrá, coroné… eu tenho mulé e meninos para cuidar … quero viver.
O bando montou nos cavalos e seguiu pro casarão. Reviraram tudo, da sala até o porão. Quando Juca puxou a tampa dum baú velho, lá tavam as cartas: não só a de Vô Inácio, mas de um tanto de gente que o coroné enganou.
Martins pegou a do Vô Inácio, leu em voz alta:
"Um dia, coroné, ocê vai sentí o amargo do sertão. Vai aprendê o que é num tê um canto pra deitá, e há de apodrecê preso, pagando por cada pingo de suor e lágrima que arrancou do povo de Juazeiro."
As palavras cortaram mais que faca afiada. No mesmo instante, a delegada Cleide chegou com a polícia, ordem de prisão na mão.
— Esse tempo de coroné mandá e desmandá acabou, cabras! — gritou Cleide.
Timóteo e Jair foram levados presos para o presidio de juazeiro.
Enquanto isso, Maria Clara e Martins se despediu do bando.
— Bora vê esse sertão de canto a canto, mulher porque não namorar se amar — disse Martins.
— Bora, homi! — ela sorriu, montando no cavalo. — Agora com o coroné preso, tenho é que cuidar da minha vida. Quero um cabra que me dê valor. Mas vou logo avisando: sou ciumenta. Se me trair, me perde de vez.
Martins sorriu e disse:
— Trair ocê, Maria Clara? Eu não! Quero é construir uma vida a dois com ocê e ser feliz de verdade.
Juca devolveu as cartas e o dinheiro roubado ao povo, que fez festa. Zé Carlos organizou um forró daqueles que fica na memória.
Cecília dançou até o chão, Mariana deu risada e o profeta Sebastião apareceu dizendo:
— Eu num disse, cabras? O sertão é bruto, mas a justiça de Deus num falha.
E naquela noite estrelada, o sertão enfim respirou aliviado.

