As Filhas de José
História criada escrita por Edivaldo Lima.
Uma história de Minissérie
história em 13 Capítulos
Gênero: Aventura, drama, romance
[Capítulo 1 — Rumo a Caruaru: Sonhos na Estrada de Terra
O sol já ia alto, esquentando a terra rachada do sertão. A estrada de barro serpenteava entre os cactos e mandacarus, que se erguiam como guardiões da paisagem nordestina. O céu, limpo e azul, parecia uma pintura viva. Na carroça de madeira, rangendo a cada solavanco, iam as três filhas de José: Franciele, Tereza e Lurdes. Os dois cavalos puxavam com força, levantando poeira e esperança.
Franciele segurava firme as rédeas, com o olhar atento no caminho. Tinha o rosto queimado de sol e o chapéu de palha bem ajustado na cabeça. Ao seu lado, Tereza descascava uma laranja com a peixeira, cortando com precisão, como quem já fizera aquilo mil vezes. Atrás, Lurdes se deixava levar pelos pensamentos, os olhos perdidos no horizonte, sonhando com a cidade grande.
— Oxente, Tereza — disse Franciele, sem tirar os olhos da estrada — tu vai acabar cortando esse dedo com essa peixeira, visse?
— Num se avexe, mulher. Eu tenho mão de rendeira, sei o que tô fazendo — respondeu Tereza, com um sorriso de canto de boca. — Mas vou te dizer uma coisa: por essas, estrada, de noite, é só o breu e os bandoleiro do sertão. Meus olho tá igual olho de águia, qualquer movimento eu vejo.
— Pode até dormi, Tereza — disse Franciele, com voz firme — que a espingarda de nosso pai tá aqui, debaixo do banco. Mas a maior proteção é Deus, que guia nóis por essas banda.
Lurdes se ajeitou na carroça, com um brilho nos olhos.
— Eita, será que Caruaru é mesmo tudo aquilo que falam? Eu quero é dançá um forró bem agarradinho, com um cabra cheiroso, vestido de vaqueiro. Já pensou?
— Tome tento, Lurdes — falou Franciele, com um tom sério. — Esses cabra da cidade é ligeiro demais. Num se engane com sorriso bonito, viu?
— Cuidado é pouco, minha irmã — completou Tereza, limpando a peixeira na barra da saia. — Homem que é homem se conhece pelo jeito que trata a mãe. E cabra que não respeita mulher, num presta nem pra puxá carroça.
O sol começou a descer devagarinho, tingindo o céu de laranja e rosa. A carroça seguia firme, com o som dos cascos dos cavalos marcando o ritmo da viagem. As irmãs cantavam baixinho, uma cantiga antiga que José ensinou quando eram pequenas. O vento batia no rosto delas, trazendo cheiro de terra e liberdade.
— Franciele, tu lembra daquela vez que pai levou nóis pra feira de São Joaquim? — perguntou Lurdes, com um sorriso nostálgico.
— Lembro demais. Foi lá que comprei meu primeiro vestido de chita. Tava tão feliz que nem dormi naquela noite.
— E eu ganhei um chapéu de couro — disse Tereza, rindo. — Mas perdi no mesmo dia, correndo atrás de um bode.
A estrada começava a se estreitar, com pedras maiores e galhos secos espalhados. Franciele apertou as rédeas, os cavalos bufaram, mas seguiram firmes. O céu agora estava salpicado de estrelas, e o silêncio do sertão era quebrado apenas pelo som da carroça e das vozes das irmãs.
— Vamos rezar, minhas irmãs — disse Franciele, com voz baixa. — Que Deus continue guiando nóis. A cidade tá perto, mas o perigo também.
As três se calaram por um instante, cada uma fazendo sua prece. O sertão, mesmo duro, parecia ouvir. E naquela noite estrelada, a carroça seguia rumo a Caruaru, levando sonhos, coragem e o sangue forte das filhas de José.
Capítulo 2 — O Estranho do Açude
O céu começava a se vestir de roxo e laranja, anunciando que a noite vinha chegando de mansinho. As três irmãs, filhas de José, resolveram fazer uma parada perto de um açude de águas tão cristalinas que refletia o céu como espelho. A carroça foi encostada debaixo de um juazeiro, e Franciele soltou os cavalos pra pastar e beber água. Os bichos bufaram de alívio, sacudindo a poeira do lombo.
Tereza, sempre prática, tirou o pão da sacola de couro e começou a cortar em fatias com sua peixeira afiada. Dividia com cuidado, como quem sabe o valor de cada migalha. Franciele pegou uma das fatias e agradeceu com um aceno de cabeça. Já Lurdes, sem cerimônia, tirou a roupa e se jogou no açude, nadando com gosto, rindo alto, como se o mundo fosse só aquele momento.
— Eita, que água boa da gota! — gritava Lurdes, molhando o cabelo e fazendo graça. — Se eu pudesse, morava dentro desse açude!
— Num se demore muito, mulher — disse Franciele, olhando pro céu. — A noite tá chegando e a estrada ainda é longa.
Depois de comerem e descansarem um pouco, as irmãs se aprontaram pra seguir viagem. Lurdes, ainda pingando, subiu na carroça com o cabelo molhado escorrendo pelas costas. Franciele ajeitou os cavalos e Tereza guardou a peixeira no cós da saia. O silêncio do sertão era quebrado só pelo som dos cascos e o rangido da carroça.
De repente, no meio da estrada, um homem saiu tropeçando da mata, com a roupa rasgada e o rosto suado. Tereza, rápida como um raio, puxou a espingarda e apontou pro sujeito.
— Quem é tu, homem? Diz logo, que eu num gosto de surpresa! — falou com voz firme, o sotaque arrastado e o dedo no gatilho.
— Pelo amor de Deus, num me mata não! — disse o homem, levantando as mãos. — Acabei de ser assaltado pelos bandoleiro. Levaram meu cavalo, meu dinheiro... só sobrou eu mesmo. Me chamo Pedro.
Franciele olhou desconfiada, mas viu que o cabra tava mesmo acabado.
— Suba aí atrás, mas se tentar qualquer coisa com Lurdes, a peixeira vai cantar, visse? — disse ela, com o olhar duro.
Lurdes deu uma risada alta, ajeitando o cabelo molhado.
— Suba, homem! Essas mulher aqui são braba, viu? Num pense que vai ser moleza não.
Pedro subiu na carroça, ainda ofegante, e se acomodou no canto. Olhou pras três com respeito e curiosidade.
— Já percebi que vocês num são de brincadeira. Qual o nome de vocês, se num for incômodo?
Tereza respondeu, sem baixar a guarda.
— Eu sou Tereza, aquela ali é Franciele, e essa do teu lado é Lurdes. Filhas de José, homem de respeito lá das banda de Serra Branca.
A carroça voltou a se mover, agora com quatro viajantes. O céu escurecia de vez, e as estrelas começavam a piscar lá em cima. O sertão, mesmo perigoso, parecia mais seguro com aquelas três mulheres de coragem e uma espingarda pronta pra qualquer coisa.
Pedro olhava em volta, ainda assustado, mas começava a sentir que talvez tivesse encontrado mais que ajuda — talvez tivesse cruzado com destino.
Capítulo 3 — No Ronco da Gaita e na Fé do Sertão
A viagem seguia longa, com a carroça rangendo pela estrada de terra batida. O céu azul, limpo como manto de Nossa Senhora, cobria o sertão com bênção e calor. Os cactos continuavam firmes, como sentinelas da paisagem. Franciele, Tereza e Lurdes iam firmes, com Pedro, o gaiteiro recém-chegado, sentado atrás, quieto demais pro gosto das moças.
Franciele olhou pra trás e soltou uma risada.
— Ôxe, cadê as moda do gaiteiro? Foi o primeiro a dormi! Pensei que ia animá a viagem com umas música boa...
Tereza, com a espingarda encostada no colo, olhou de lado e falou com aquele sotaque arrastado:
— É verdade, mulher. E ronca que é uma beleza! Parece um jegue cansado.
Franciele ajeitou o chapéu e deu uma risadinha.
— Eu jurava que ele ia cuidar das três mulher valente aqui... mas dormiu mais cedo que menino em rede.
Pedro, sem abrir os olhos, respondeu com a voz mansa:
— Muita gente pensa que tô dormindo... mas tô só de olhos fechados, descansando os pensamento. Tô escutando tudim, viu?
As três irmãs caíram na risada, o som ecoando pela estrada como cantiga de alegria.
— Acorda, homem! — disse Franciele, dando um tapinha no ombro dele. — Tá cedo demais pra se entregá ao sono.
— É verdade, Pedro — completou Tereza, com tom firme. — Tu tem que cuidá de nós. Somos três mulher indefesa nesse mundão.
Pedro abriu os olhos devagar, com um sorriso no canto da boca.
— Indefesa? Vocês três é mais valente que muito cabra que conheci por aí. Tereza com a espingarda, Franciele com os olho de águia, e Lurdes... com a língua afiada que só!
Lurdes se ajeitou na carroça e falou com orgulho:
— Nosso pai ensinou a gente a sê forte, meu amigo. José num criou filha pra se tremê com vento fraco, não.
O céu começava a mudar de cor, tingido de dourado e lilás. A carroça seguia firme, os cavalos bufando, e o sertão se estendendo como um tapete sem fim. O silêncio era quebrado pelas risadas, pelas histórias e pelo ronco ocasional de Pedro, que insistia que não dormia.
Franciele olhou pro horizonte e falou com voz baixa:
— A estrada é longa, mas com fé e coragem, a gente chega. E com esse gaiteiro aí, pelo menos a viagem tem graça.
Pedro se ajeitou, pegou a gaita do bornal e soprou uma nota tímida.
— Se é música que vocês quer, é música que vão tê. Mas só se prometerem que vão dançá quando chegá em Caruaru.
Tereza sorriu, ajeitando a espingarda.
— Promessa feita, cabra. Mas só se tocar forró dos bom, viu?
E assim, com o som da gaita misturado ao barulho da carroça e ao cheiro da terra quente, o grupo seguia viagem. O sertão podia ser duro, mas com coragem, fé e um pouco de música, tudo parecia mais leve.
Capítulo 4 — Na Mira da Espingarda e na Coragem das Filhas
A estrada seguia calma, com o céu estrelado cobrindo o sertão como um manto sagrado. O silêncio era quebrado só pelo som dos cascos dos cavalos e o rangido da carroça. Franciele, Tereza, Lurdes e Pedro seguiam firmes, achando que a paz reinava. Mas no sertão, a tranquilidade é coisa que dura pouco.
Na virada da estrada, saindo do mato como sombra ruim, apareceu Tico Severino, seguido de três cabras de olhar torto e alma ruim. Com sorriso debochado, Tico apontou pro grupo.
— Olha aí, cabras! Três mulheres bonita e aquele frouxo que a gente roubou hoje de tarde. Lembra dele, Gaspar?
Pedro se levantou num pulo, com os olhos arregalados.
— Num faz nada com elas, pelo amor de Deus! Eu aguento tudo, mas elas não têm nada a ver com isso!
Luis, um dos capangas, cuspiu no chão e falou com desprezo:
— Pega esse frouxo aí e joga no mato. Deixa os cachorro do mato resolver.
Natanael, outro cabra, já ia se aproximando quando Tereza se levantou com a espingarda em punho, o olhar firme como pedra.
— Se der um passo a mais, cai os quatros aqui mesmo. Quem vai virá comida de cachorro selvagem são vocês, seus peste!
Tico Severino parou, surpreso com a coragem da mulher.
— Cumade é valente, hein? Num pensou duas vez pra apontá o cano. Mas será que tem coragem de puxá o gatilho?
Tereza não respondeu com palavra. Respondeu com ação. Disparou um tiro pro alto, só pra assustar, mas com firmeza de quem sabe o que faz. O som ecoou pelo sertão como trovão.
— Vai, Franciele! Bota esses cavalo pra corrê! — gritou Tereza, sem tirar os olhos dos bandidos.
Franciele já tava com a mão nas rédeas, puxando com força.
— Pode deixar, minha irmã! Esses cavalo vai voá agora!
Lurdes, mesmo assustada, se levantou e gritou com orgulho:
— Aqui tem mulher braba, cabra! Num pense que vai encontrá donzela chorando, não!
Pedro se jogou na carroça, tremendo, mas aliviado. Os cavalos dispararam pela estrada, levantando poeira e deixando os bandidos pra trás, surpresos com a valentia das filhas de José.
Tico Severino ainda tentou correr atrás, mas Gaspar segurou ele pelo braço.
— Deixa, patrão. Essas mulher num é de brincadeira. Melhor a gente procurá outro rumo.
A carroça seguia em disparada, o coração das irmãs batendo forte, mas a coragem pulsando mais alto. O sertão podia ser perigoso, mas quem tem sangue de José corre com fé e enfrenta o mundo com espingarda e dignidade.
Capítulo 5 — Som de Sanfona e Cheiro de Cuscuz
Depois de enfrentarem os bandoleiros do sertão com coragem e sangue quente, a estrada parecia mais tranquila. O céu seguia limpo, o sol já começava a se esconder atrás dos morros, e o vento soprava manso, trazendo cheiro de terra molhada e esperança. A carroça seguia firme, com os cavalos mais calmos e os corações menos apertados.
Pedro, o gaiteiro, se ajeitou no banco de trás, olhou pro horizonte e falou com voz arrastada:
— Ou eu tô escutando demais com essa calmaria... ou tô ouvindo barulho de sanfona vindo lá da frente.
Franciele, com os olhos atentos e o chapéu de palha bem firme na cabeça, olhou pra estrada e apontou com o dedo.
— Olha ali, Pedro! Tem uma lanchonete na beira da estrada. O som tá vindo de lá. Parece que tem festa!
Tereza se levantou um pouco, ajeitou a espingarda e sorriu.
— É verdade, mulher! Tá tocando Gonzagão! Reconheço esse baião de longe. É “Asa Branca”, certeza!
Lurdes, com o estômago roncando e o olho brilhando, falou animada:
— Eita, que eu tô com uma fome daquelas! Vai ser bom demais parar um pouco. Quem sabe tem cuscuz com queijo e café quente!
Pedro riu, ajeitando a gaita no colo.
— Eu num imaginava que nessa estrada seca a gente ia encontrá um lugar tão bom pra comer e escutá música boa. Parece até milagre!
A carroça foi se aproximando da lanchonete, que tinha luzes penduradas e umas bandeirinhas coloridas balançando com o vento. O som da sanfona ficava mais forte, e dava vontade de dançar só de escutar. Os cavalos pararam mansamente, como se também quisessem descansar.
Franciele desceu primeiro, ajeitou os arreios dos bichos e amarrou a carroça num tronco de juazeiro. Tereza veio logo atrás, com a espingarda no ombro, sempre desconfiada. Lurdes já ia entrando, puxada pelo cheiro de comida e pelo ritmo da música.
— Vamo com calma, minha irmã — disse Tereza. — Num é porque tem festa que a gente vai largá a guarda.
— Oxente, Tereza! — respondeu Lurdes, rindo. — Até na hora de comê tu tá armada?
Pedro entrou por último, olhando tudo com admiração. A lanchonete era simples, mas cheia de vida. Tinha gente dançando, mesa com bolo de milho, café, pão de queijo e até carne de sol com macaxeira.
— Isso aqui é um pedaço do céu no meio do sertão — disse Pedro, emocionado. — Se tiver um forrozim mais tarde, eu toco minha gaita com gosto!
Franciele olhou pras irmãs e pro gaiteiro, e sorriu com o coração leve.
— Depois de tudo que passamo, merecemo um descanso. Mas amanhã, a estrada continua. Caruaru ainda nos espera.
E assim, entre o som da sanfona e o cheiro de comida boa, as filhas de José encontraram um momento de paz. O sertão, mesmo duro, também sabe oferecer alegria pra quem tem coragem de atravessá-lo.
Capítulo 6 — Forró, rítimo e Olhares
A noite já tava bem posta, com o céu estrelado e o som da sanfona enchendo o ar da lanchonete na beira da estrada. As luzes penduradas tremulavam com o vento, e o cheiro de cuscuz com queijo, café forte e bolo de milho deixava qualquer um com água na boca. As filhas de José — Franciele, Tereza e Lurdes — estavam sentadas à mesa, com Pedro, o gaiteiro, saboreando a comida e aproveitando o descanso.
Pedro, que até então tava quieto, se levantou de repente. Seus olhos tinham cruzado com os de uma moça de cabelos cacheados, sorriso bonito e vestido florido. Ela olhou pra ele com um brilho curioso, e ele não pensou duas vezes.
— Olha ali, minha irmã — disse Lurdes, cutucando Tereza. — O Pedro tá indo lá onde tá aquela moça cacheada. Tá com jeito de que vai arriscar uma dança.
Tereza olhou de canto de olho e comentou com aquele tom desconfiado:
— Danada tem jeito de rica. Olha o vestido, olha o jeito de sentá... esse Pedro só se mete em confusão.
Franciele riu, ajeitando o chapéu.
— Será que ele consegue tirá ela pra dançá? Eu acho que ele vai tentá, viu.
— Eu acho que sim — respondeu Lurdes, animada. — O cabra tem lá seu charme.
— Só falta ela sê casada — disse Tereza, cruzando os braços. — Aí é mais uma dor de cabeça pra nóis.
Franciele balançou a cabeça, meio rindo, meio preocupada.
— Ai, minhas irmãs... esse Pedro tá se revelando um bom mulherengo. Vai acabar arrumando encrenca.
Pedro se aproximou da moça com jeito respeitoso, chapéu na mão e sorriso no rosto.
— Boa noite, moça. Me consede essa dança? Me chamo Pedro. E ocê, como se chama?
A moça olhou pra ele com um sorriso maroto.
— Aquelas mulheres que tão com você... nenhuma é casada com ocê, né?
— Não, senhora. São minhas amigas, companheiras de estrada. Tudo gente de respeito.
— Prazer, me chamo Cleide. Aceito dançá. Mas vê se num pisa no meu pé, viu?
Pedro riu, estendendo a mão.
— Fique tranquila. Sei conduzir bem uma mulher na dança. E com Gonzagão tocando, é só deixá o corpo levá.
Os dois foram pro salão improvisado, e no ritmo do forró, começaram a dançar. Os passos se encaixavam, os olhares se cruzavam, e ali, entre um giro e outro, Pedro e Cleide iam se conhecendo melhor.
— Olha lá, minha irmã! — disse Lurdes, apontando. — O Pedro já tá dançando!
— Num é que é mesmo? — respondeu Tereza, surpresa.
— Olha só, hein... — completou Franciele, com um sorriso no canto da boca.
E assim, entre música, comida e olhares trocados, a noite seguia viva. O sertão, mesmo cheio de poeira e perigo, também sabia ser cenário de encontros inesperados e histórias que começavam com um simples “me consede essa dança”.
Capítulo 7 – Bom Forró e Amizade
A noite ia se esticando que nem rede em varanda, e o forró não dava trégua. O sanfoneiro puxava o fole com gosto, e o povo dançava agarradinho, rodando no salão como se o mundo fosse só alegria. Cleide tava sentada numa mesa mais pro canto, junto de Pedro, Tereza, Franciele e Lurdes. Era conversa, risada e um bocado de história jogada fora.
Cleide olhou pras amigas e soltou:
— Vixe, faz é tempo que vocês tão nessa estrada, né não?
Tereza ajeitou o cabelo e respondeu com aquele jeitinho manso:
— É sim, mulher... nesse mundão de meu Deus, rodando feito alma penada, até que demos de cara com esse cantinho bão demais.
Lurdes, que não perdia uma, apontou pro vestido de Cleide e disse:
— Oxente, gostei foi do teu vestido, viu? Tá elegante que só!
Franciele caiu na risada, balançando a cabeça:
— Eita, Lurdes, tu num tem jeito mesmo!
Cleide sorriu, ajeitando a barra do vestido:
— Esse aqui comprei lá no centro da cidade. Se quiser um, eu levo tu lá, visse?
Lurdes arregalou os olhos:
— Olha que eu quero mesmo, viu? Num brinca não!
Cleide deu uma piscadinha:
— Pois hoje vocês vão ser minhas hóspedes. Já tá decidido, viu?
Tereza arregalou os olhos, surpresa:
— Ave Maria, nunca que eu imaginava isso, Cleide!
Franciele segurou a mão da amiga e falou com carinho:
— Obrigada, viu? Tu é uma benção de mulher.
Cleide se levantou e chamou Pedro:
— Bora, Pedro, vamos simbora pra minha casa. Leva tuas tralhas.
Pedro olhou pras mulheres e sorriu:
— E as minhas amigas vão junto, né?
Cleide respondeu com firmeza:
— Vão sim, homem. Aqui ninguém fica pra trás, não.
Pedro balançou a cabeça, admirado:
— Que legal da tua parte, Cleide. Tu tem um coração maior que o sertão.
Cleide deu uma última olhada no salão e comentou:
— As casa de repouso aqui é o olho da cara, meu povo. E eu num deixo ninguém se apertar, não.
Franciele, emocionada, falou baixinho:
— Obrigada por acolher a gente, Cleide. Tu é luz demais.
E assim, naquela noite de forró e acolhimento, As Filhas de José tiveram um lugar pra não ficar no relento. Cleide, a mulher que o gaiteiro Pedro dançou e conheceu ali mesmo, convidou elas pra ser suas hóspedes, mesmo sem conhecer direito. Fez sua parte como mulher de bão coração, dessas que Deus espalha pelo mundo pra cuidar dos outros sem pedir nada em troca.
Capítulo 7 – Bom Forró e Amizade
A noite ia se esticando que nem rede em varanda, e o forró não dava trégua. O sanfoneiro puxava o fole com gosto, e o povo dançava agarradinho, rodando no salão como se o mundo fosse só alegria. Cleide tava sentada numa mesa mais pro canto, junto de Pedro, Tereza, Franciele e Lurdes. Era conversa, risada e um bocado de história jogada fora.
Cleide olhou pras amigas e soltou:
— Vixe, faz é tempo que vocês tão nessa estrada, né não?
Tereza ajeitou o cabelo e respondeu com aquele jeitinho manso:
— É sim, mulher... nesse mundão de meu Deus, rodando feito alma penada, até que demos de cara com esse cantinho bão demais.
Lurdes, que não perdia uma, apontou pro vestido de Cleide e disse:
— Oxente, gostei foi do teu vestido, viu? Tá elegante que só!
Franciele caiu na risada, balançando a cabeça:
— Eita, Lurdes, tu num tem jeito mesmo!
Cleide sorriu, ajeitando a barra do vestido:
— Esse aqui comprei lá no centro da cidade. Se quiser um, eu levo tu lá, visse?
Lurdes arregalou os olhos:
— Olha que eu quero mesmo, viu? Num brinca não!
Cleide deu uma piscadinha:
— Pois hoje vocês vão ser minhas hóspedes. Já tá decidido, viu?
Tereza arregalou os olhos, surpresa:
— Ave Maria, nunca que eu imaginava isso, Cleide!
Franciele segurou a mão da amiga e falou com carinho:
— Obrigada, viu? Tu é uma benção de mulher.
Cleide se levantou e chamou Pedro:
— Bora, Pedro, vamos simbora pra minha casa. Leva tuas tralhas.
Pedro olhou pras mulheres e sorriu:
— E as minhas amigas vão junto, né?
Cleide respondeu com firmeza:
— Vão sim, homem. Aqui ninguém fica pra trás, não.
Pedro balançou a cabeça, admirado:
— Que legal da tua parte, Cleide. Tu tem um coração maior que o sertão.
Cleide deu uma última olhada no salão e comentou:
— As casa de repouso aqui é o olho da cara, meu povo. E eu num deixo ninguém se apertar, não.
Franciele, emocionada, falou baixinho:
— Obrigada por acolher a gente, Cleide. Tu é luz demais.
E assim, naquela noite de forró e acolhimento, As Filhas de José tiveram um lugar pra não ficar no relento. Cleide, a mulher que o gaiteiro Pedro dançou e conheceu ali mesmo, convidou elas pra ser suas hóspedes, mesmo sem conhecer direito. Fez sua parte como mulher de bão coração, dessas que Deus espalha pelo mundo pra cuidar dos outros sem pedir nada em troca.
Capítulo 8 – De Carroça a carro de Luxo
O céu tava bonito que só, com umas nuvens branquinhas passeando devagar, como quem não tem pressa de chegar. Franciele, Lurdes e Tereza vinham atrás, balançando na carroça que rangia feito porta velha, mas seguia firme. Na frente, vinha o carro de luxo da década de 1998, reluzente e cheio de pompa, com o chofer Sousa no volante, todo engravatado. No banco de trás, Cleide e Pedro iam proseando, com o vento bagunçando os cabelos e o coração cheio de esperança.
Cleide olhou pela janela e falou com um sorriso:
— Espero que vocês gostem da minha residência, viu? Num é mansão, mas tem rede e café quentim.
Pedro respondeu com aquele jeito gaiato:
— Que isso, mulher! Onde tem rede e lugar pra num ficar no relento, eu e minhas amigas tamo é no céu!
Na carroça, Tereza olhou pro horizonte e disse com voz serena:
— Ainda tem gente de bom coração nesse mundo, minhas irmãs. E Cleide é uma delas.
Franciele concordou, abanando o rosto com a mão:
— Tem sim! Cleide é daquelas que Deus fez num dia de inspiração.
Lurdes olhou pro carro e soltou uma risadinha:
— Esse carro é xique demais, visse? Pedro deve tá se sentindo o príncipe do sertão!
Tereza deu uma cotovelada de leve em Franciele:
— Esse Pedro é danado... arrumou até pouso pra nós sem nem suar a camisa.
Franciele caiu na risada:
— Verdade! Num pode ver um rabo de saia que já quer dançar um xote!
Lurdes entrou na brincadeira:
— Mas que ele dança bem, isso dança. Parece que nasceu com a sanfona no pé.
Franciele fez cara de quem sabe das coisas:
— Se num foi ele que pediu pra dormir na casa de Cleide, foi quase isso!
Tereza levantou a sobrancelha:
— Vai saber, né? Esse gaiteiro é cheio das artimanhas.
Lurdes deu uma gargalhada:
— Desse Pedro eu num espero nada... só espero que ele dança ainda um forrozim comigo em Caruaru !
As irmãs, que antes estavam na estrada com poeira nos pés e esperança no peito, agora passavam pela cidade. Olhavam tudo com olhos curiosos, vendo as casas ajeitadas, os jardins floridos e os cachorros deitados nas calçadas.
Cada uma imaginava como seria a casa de Cleide. Será que tinha varanda com rede? Será que o café era passado no coador de pano? Será que o quarto tinha cheiro de lavanda?
O carro e a carroça seguiam juntos, como se fossem dois mundos diferentes se encontrando na mesma história. E naquele dia, As Filhas de José descobriram que luxo mesmo é ter gente boa no caminho.
Capítulo 8 – De Carroça a carro de Luxo
O céu tava bonito que só, com umas nuvens branquinhas passeando devagar, como quem não tem pressa de chegar. Franciele, Lurdes e Tereza vinham atrás, balançando na carroça que rangia feito porta velha, mas seguia firme. Na frente, vinha o carro de luxo da década de 1998, reluzente e cheio de pompa, com o chofer Sousa no volante, todo engravatado. No banco de trás, Cleide e Pedro iam proseando, com o vento bagunçando os cabelos e o coração cheio de esperança.
Cleide olhou pela janela e falou com um sorriso:
— Espero que vocês gostem da minha residência, viu? Num é mansão, mas tem rede e café quentim.
Pedro respondeu com aquele jeito gaiato:
— Que isso, mulher! Onde tem rede e lugar pra num ficar no relento, eu e minhas amigas tamo é no céu!
Na carroça, Tereza olhou pro horizonte e disse com voz serena:
— Ainda tem gente de bom coração nesse mundo, minhas irmãs. E Cleide é uma delas.
Franciele concordou, abanando o rosto com a mão:
— Tem sim! Cleide é daquelas que Deus fez num dia de inspiração.
Lurdes olhou pro carro e soltou uma risadinha:
— Esse carro é xique demais, visse? Pedro deve tá se sentindo o príncipe do sertão!
Tereza deu uma cotovelada de leve em Franciele:
— Esse Pedro é danado... arrumou até pouso pra nós sem nem suar a camisa.
Franciele caiu na risada:
— Verdade! Num pode ver um rabo de saia que já quer dançar um xote!
Lurdes entrou na brincadeira:
— Mas que ele dança bem, isso dança. Parece que nasceu com a sanfona no pé.
Franciele fez cara de quem sabe das coisas:
— Se num foi ele que pediu pra dormir na casa de Cleide, foi quase isso!
Tereza levantou a sobrancelha:
— Vai saber, né? Esse gaiteiro é cheio das artimanhas.
Lurdes deu uma gargalhada:
— Desse Pedro eu num espero nada... só espero que ele dança ainda um forrozim comigo em Caruaru !
As irmãs, que antes estavam na estrada com poeira nos pés e esperança no peito, agora passavam pela cidade. Olhavam tudo com olhos curiosos, vendo as casas ajeitadas, os jardins floridos e os cachorros deitados nas calçadas.
Cada uma imaginava como seria a casa de Cleide. Será que tinha varanda com rede? Será que o café era passado no coador de pano? Será que o quarto tinha cheiro de lavanda?
O carro e a carroça seguiam juntos, como se fossem dois mundos diferentes se encontrando na mesma história. E naquele dia, As Filhas de José descobriram que luxo mesmo é ter gente boa no caminho.
Capítulo 9 – Acolhimento e Descobertas
O carro parô bem na frente dum casarão arretado de bonito. Parecia até um palacete, com aquelas janelas grandes e uns detalhes dourado que brilhava no sol. Pedro ficou de queixo caído, olhando tudo com os zói arregalado. Cleide, que sempre foi mulher de fala mansa e jeito humilde, já tinha dito que a casa dela não era mansão. Mas aquilo ali... era coisa de princesa mesmo.
— Ôxe, Cleide! Tu disse que tua casa era simples... Isso aqui é coisa de rainha! — falou Pedro, com um sorriso largo no rosto.
Cleide deu uma risada gostosa, daquelas que vem do fundo do peito, e respondeu com carinho:
— Pois sejam bem-vindos, meus amores. Entrem, fiquem à vontade. Aqui é casa de gente, não de luxo.
Tereza, Franciele e Lurdes desceram do carro ainda meio besta com o tamanho da casa. Simão, sempre ligeiro, correu pra ajudar com as malas.
— Simão, meu filho, dá uma mão aí com as coisas dos hóspedes — pediu Cleide.
— Sim senhora, dona Cleide! — respondeu ele, já pegando as bolsas com cuidado.
Tereza olhou em volta, ainda sem acreditar no que via.
— Mulher, tu nem parece que é rica! Tu é tão simples, tão gente como a gente...
Lurdes cruzou os braços e falou com firmeza:
— É verdade. Tem tanta mulher por aí que é lisa e vive se achando... E tu, com esse casarão, toda humilde.
Franciele concordou com um aceno de cabeça:
— Cleide é diferente mesmo. Tem coração bom.
Pedro balançou a cabeça, admirado:
— Cleide não quer ser mais do que ninguém, isso eu sei. Ela é dessas que tem tudo, mas não se gaba de nada.
Cleide olhou pra eles com ternura e disse:
— Nesse mundo, minha gente, num somos nada. O que a gente tem aqui, num vale de nada lá em cima. O valor da vida tá é nas coisas simples.
Dentro da casa, o cheiro de chá e broa quentinha invadiu tudo. Cleide chamou todo mundo pra mesa:
— Vamo tomar um chazinho da noite, que é bom pra esquentar o bucho e acalmar o coração.
Pedro se animou logo:
— Depois daquela buxada que a gente comeu na lanchonete, um chá vai cair que nem bênção!
Tereza riu alto:
— Esse Pedro é uma figura, viu? Não tem jeito!
Franciele olhou pela janela e viu Simão levando os cavalos pro fundo do terreno.
— Cleide, onde é que ele tá levando os bichinhos?
Cleide sorriu com doçura:
— Pro lugar deles, fia. Tem um estábulo lá atrás, Simão cuida direitinho. Os bichim aqui têm vida boa.
Lurdes comentou, impressionada:
— Até os cavalos tão vivendo melhor que muita gente! Isso aqui é um paraíso.
A conversa seguiu animada, com risadas e histórias sobre o passado. As filhas de José estavam se sentindo em casa, acolhidas como se fossem da família. Cleide trouxe um baú de fotos antigas e começou a mostrar imagens de quando era menina.
Uma delas chamou atenção: ela tava ao lado dum rapaz alto, de olhar sereno e sorriso tímido.
Tereza arregalou os olhos:
— Vixe, parece demais com meu pai mais novo!
Lurdes se aproximou:
— Não é que parece mesmo? Vosso pai todinho!
Franciele puxou uma foto da bolsa e mostrou pra Cleide:
— Olha aqui, Cleide. Esse aqui é nosso pai... José.
Cleide pegou a imagem e ficou em silêncio por um instante. O coração dela parecia bater mais forte.
— Esse é meu pai também... José. Meu Deus...
Franciele olhou pra ela com emoção:
— Mulher... será que tu é nossa irmã que sumiu faz tempo?
Cleide levou a mão ao peito, emocionada:
— Meu pai... José... onde ele tá?
Franciele respondeu com voz trêmula:
— Tá em Caruaru, visse? Tá vivo, esperando por nós.
Lurdes apontou pra outra foto no baú:
— E essa aqui é a vó Benta. Tu lembra dela?
Cleide olhou a foto com os olhos marejados, o coração apertado feito nó de rede. Aquele momento, tão simples e ao mesmo tempo tão profundo, revelava laços que o tempo não conseguiu apagar. Era como se o passado tivesse voltado pra dar um abraço. A casa, que parecia um palacete, agora se mostrava como um verdadeiro abrigo de histórias, lembranças e corações entrelaçados por destino.
Por um instante, Cleide ficou calada, olhando pro retrato como quem conversa com ele. Depois, com voz baixa e cheia de sentimento, falou:
— A última vez que vi vosso pai... foi ele que me deixou aqui, nessa casa. Eu era pequena. Quem me criou foi minha tia... tia Cíntia.
Tereza se aproximou, apontando pra uma das fotos no baú:
— Oxente, é essa mulher aqui? Ela é irmã de nosso pai, né não?
Cleide assentiu com a cabeça, ainda emocionada:
— É ela mesma. Nunca me contou muita coisa... só dizia que meu pai precisou ir embora. Mas que bom que encontrei vocês. Agora a gente vai atrás da verdade. Vamo fazer um exame de DNA, pra tirar a dúvida de vez.
Naquela noite, com o cheiro de chá ainda no ar e o calor das broas no estômago, as filhas de José — Franciele, Tereza, Lurdes e agora Cleide — descobriram que José não tinha só três filhas, mas quatro. Era Cleide, a que ficou pra trás, criada longe das irmãs, guardada num silêncio que só agora começava a se desfazer.
O que levou José a deixar Cleide naquela casa? Por que ele criou Tereza, Franciele e Lurdes, mas se afastou da outra filha? Essas perguntas ficaram no ar, como vento soprando pelas janelas do casarão. Mas uma coisa era certa: o reencontro tinha acontecido, e o coração de Cleide, antes cheio de dúvida, agora batia com esperança.
Capítulo 10 – Quem dorme na Rede, Romance Enrolado
As três irmãs, agora quatro, que por obra de Deus e do destino se encontraram, tavam ali, agarradas nas lembranças, nas fotos antigas e nas risadas que só quem tem sangue igual entende. A sala tava cheia de cheiro de chá de erva-doce, broa de milho e emoção. Cleide, Tereza, Franciele e Lurdes pareciam que tinham crescido juntas, de tão bem que se entendiam.
Foi aí que Pedro apareceu, com aquele jeito dele de quem chega devagar mas já quer causar. Botou a cabeça pra dentro da sala e perguntou com aquele sorrisinho de canto de boca:
— E aí, minha gente... quem vai dormir na rede essa noite?
Tereza, que já tava com a xícara de chá na mão, olhou pra ele e respondeu com aquele tom de quem já conhece as intenções:
— Pedro, meu amigo... como bom cavalheiro que é, tu vai ficar com a rede, visse? As quatro mulheres vão repousar nas camas, como manda o bom senso.
Franciele, a mais velha e mais séria, ajeitou os óculos e falou com firmeza:
— Isso só se Cleide, que é a dona da casa, disser que tu pode dormir no quarto. Senão, é rede mesmo, viu?
Lurdes, que não perde uma pra brincar, cruzou os braços e soltou:
— Eu sei bem o que tu tá querendo, Pedro. Tu quer é dormir agarradinho com Cleide, né, seu danado?
Pedro deu uma risadinha safada, coçou a cabeça e respondeu:
— Se ela me convidar, eu durmo agarrado mesmo... mas só se ela quiser, né? Eu sou homem de respeito!
Cleide, que não é de se deixar levar fácil, olhou pra ele com um sorriso matreiro e disse:
— Só depois que tu pedir minha mão em namoro ao meu pai José. Quando eu encontrar ele, aí a gente conversa.
Pedro fez cara de quem levou rasteira de bode:
— Aí tu complicou, Cleide! Vai ser difícil, viu? José é homem sério demais...
Tereza entrou logo com o sermão, rindo:
— Tem que ser como manda o figurino, Pedro. Vosso José não ia gostar de saber que as filhas dele tão dormindo junto com um cabra que nem pediu a mão em namoro.
Franciele concordou, balançando a cabeça:
— É isso mesmo. Homem tem que ter jeito, viu? Não é só chegar e querer deitar. Tem que respeitar!
Lurdes completou, dando uma piscadinha:
— Bem assim mesmo. Aqui é casa de mulher direita, viu?
Cleide apontou pro corredor e falou com firmeza, mas sem perder o bom humor:
— Tem o quarto de hóspede pra tu também, homem. Agora dormir junto comigo... só depois que tu botar uma aliança de compromisso nesse dedo.
Pedro caiu na risada, pegou a gaita que tava encostada na cadeira e falou:
— Então vai ser eu e minha gaita essa noite. Companheira fiel! Boa noite pra vocês, viu?
As quatro responderam em coro, rindo:
— Boa noite, homem!
Naquela noite, depois do chá e das revelações, Tereza, Franciele, Lurdes e Cleide foram se deitar com o coração leve. O dia seguinte prometia mais descobertas, mais conversa e, quem sabe, mais confusão boa. Porque quando tem família reunida, tem história pra dar, vender e rir até perder o fôlego.
Capítulo 11 – Esperança do Documento
O dia mal tinha se espreguiçado no céu do sertão, e Pedro já tava de pé, esticando os ossos na varanda do casarão. Olhou pro lado e viu Simão, o criado de confiança, ajeitando umas coisas no terreiro.
— Ô seu Simão, num dá gosto não, homi? Essas cantoria de passarim logo cedo parece até bênção — disse Pedro, com um sorriso de canto de boca.
Simão coçou o queixo e respondeu com aquele jeito manso:
— Dá sim, seu Pedro. Essas andorinha do sertão é danada! Todo dia, cedinho, elas pousa bem ali na jabuticabeira. Parece que canta só pra nós, uma sinfonia de Deus.
Pedro riu:
— Eita, canta mais que tua gaita, viu?
Simão deu uma gargalhada:
— Oxente, minha gaita até se esconde de vergonha! Vem cá, seu Pedro, vamo ver as criação.
Foram andando até o curral, onde os cavalos e as cabras tavam se ajeitando.
— Olha só, rapaz! As cabra tão mais bonita que vestido de festa. E os cavalo? Dormiram no luxo, foi? — disse Pedro, admirado.
— Dormiram sim, homi. E daqui a pouco eu levo o leite pra vocês tomá café. A vaca tá cheia, parece até que comeu nuvem — respondeu Simão, ajeitando o chapéu.
— Essa vaca deve dá leite que só! — disse Pedro, lambendo os beiços.
— Dá sim, e os queijo que Zita faz... Ave Maria, é de comer rezando!
Pedro franziu a testa:
— Zita? Quem é essa Zita?
Simão sorriu com malícia:
— É a cozinheira, homi! Cozinha que é uma beleza. Se ela faz feijão, até o feijão canta!
Nesse instante, Cleide apareceu na porta da cozinha:
— Ô Pedro, venha tomar café! Zita já botou tudo na mesa, tá uma fartura!
Tereza entrou coçando os olhos:
— Mulher, eu tava precisando dormir, viu? Dormi que nem pedra de rio.
— Dormiu bem, foi? — perguntou Cleide.
— Dormi sim, mulher. Sonhei até com bode dançando forró!
Franciele olhou a mesa e arregalou os olhos:
— Vixe, que mesa cheia! Parece banquete de casamento!
Lurdes concordou:
— É verdade, tem coisa boa demais. Até o pão parece feito com carinho.
Zita chegou animada:
— Bom dia, meninas! Fiquei feliz demais de saber que vocês pode ser irmã de Cleidinha.
Franciele balançou a cabeça:
— Já viu, mulher? O destino é danado, vive pregando peça na gente.
Zita apareceu com um sorriso largo:
— Deus é bom, minha filha. Ele ajeita tudo direitinho, no tempo certo.
Ela se virou pra Cleide:
— Cleide, o Dr. Alméreque tá vindo logo cedo pra fazer aquele exame do DNA em você e numa das suas irmãs.
Cleide arregalou os olhos:
— Eita! Quem vai me ajudar nesse exame?
Lurdes levantou a mão:
— Eu ajudo, mulher! Assim a gente descobre se tu é mesmo filha de José. Vai que a gente é irmã de sangue e de coração!
Assim, enquanto o café esfriava na xícara e o sol já se espreguiçava por cima das montanhas do sertão, Franciele, Tereza e Lurdes ficavam ali, com o coração batendo apressado, na esperança de que Cleide fosse mesmo irmã delas — uma das filhas de José.
Era que seu José, o pai que criou as três com tanto carinho, nunca falou muito sobre o passado. Criou elas como se fossem tudo que tinha, mas nunca mencionou a quarta filha. Isso ficava martelando na cabeça de cada uma, como quem escuta um segredo no vento.
Mas no fundo, bem no fundinho do coração das quatro, tinha uma certeza danada: alguma coisa no passado fez seu José deixar uma filha pra trás. Talvez por ameaça, talvez por obrigação de família, ou por dor que ele nunca conseguiu contar. O que quer que fosse, o destino agora parecia querer juntar os pedaços.
E naquele casarão cheio de cantoria de passarim, cheiro de queijo fresco e café coado, as irmãs esperavam que o exame de DNA não fosse só um papel com resultado — mas a chave pra abrir um baú de história, amor e reencontro.
Capítulo 12 penúltimo capítulo– Laços de Sangue e Chá de Padaria
As horas da manhã se arrastavam devagarzinho, com o sol já esquentando o terreiro e Cleide na porta da varanda, de olho na estrada. Esperava o doutor Alméreque, que vinha fazer o exame de DNA. De repente, um carro elegante apareceu, levantando poeira e esperança. Lurdes, que tava ali com o coração sonhador, viu o rapaz descendo do carro, todo alinhado, camisa passada e sapato brilhando.
— Eita, que esse aí é o genro que minha mãe pediu lá do céu e meu pai rogou aqui na terra! — disse Lurdes, com os olhos brilhando.
Franciele, a mais velha, não perdeu tempo:
— Ô mulher danada! Já tá de olho no doutor?
— Olha, não é pecado não! — respondeu Lurdes, ajeitando o cabelo.
Tereza entrou na conversa:
— Tamo tento Lurdes , né? Vai que o homem é casado...
Pedro, com a gaita debaixo do braço, riu:
— Se não for, já me nomeio padrinho do casamento!
Todo mundo caiu na risada. O doutor Alméreque se aproximou, sorridente:
— Bom dia, moças! E esse cabra aqui parece que toca sanfona bem demais.
Pedro se empolgou:
— Toco sim, doutor! Se quiser, faço até serenata!
Cleide ia apresentar os presentes, mas Lurdes se adiantou:
— Prazer, me chamo Lurdes, irmã caçula de Cleide. Aquela ali é Franciele, a mais velha. Tereza tá ali, e esse é Pedro, que caiu de paraquedas na estrada e ficou.
Cleide completou:
— Então, doutor Alméreque, essas são minhas futuras irmãs. Se Deus quiser, o exame vai confirmar.
Alméreque olhou pra todas com simpatia:
— Todas têm sua beleza, mas essa Lurdes aí... formosura em pessoa e ainda bem humorada!
Lurdes sorriu, sem perder o charme:
— Gentileza sua, doutor.
— Pode me chamar de você... ou só Alméreque mesmo — disse ele.
— Como você quiser, Alméreque — respondeu Lurdes, piscando.
Regina, a enfermeira, chegou com a maleta:
— Bom dia, pessoal! Tão prontos pra descobrir se são irmãs de sangue?
Cleide respondeu com firmeza:
— Tô sim.
— É o que mais quero — disse Lurdes.
— Não vejo a hora — falou Franciele.
— Tenho fé em Deus que Cleide é nossa irmã, filha de José — completou Tereza.
Regina colheu o sangue de Lurdes, enquanto Alméreque fazia o mesmo com Cleide. Pedro, observando tudo, comentou:
— Vai ser legal. Na verdade, já tá sendo. Tudo começou naquele encontro inesperado meu com Cleide na lanchonete.
Franciele sorriu:
— Obra do destino, meu amigo.
— Verdade — disse Tereza.
— Isso mesmo. A gente não parou lá à toa. Deus faz tudo certo — falou Lurdes.
Alméreque guardou os exames:
— Agora é esperar até amanhã. O resultado sai cedinho.
Cleide agradeceu:
— Obrigada, doutor.
Ele sorriu:
— Por nada. Aliás... vocês se importam se eu levar Lurdes pra tomar um chá na padaria? Quero conhecer melhor essa moça.
Tereza respondeu:
— Pode ir. Vejo que você é homem de confiança.
Franciele brincou:
— Mas traga ela antes de escurecer, viu?
Lurdes perguntou:
— Posso ir mesmo ?
Cleide riu:
Vá, mulher! Se não for, a gente lhe prende aqui em casa! Juízo, viu? Vocês dois!
Na padaria, Alméreque e Lurdes conversaram mais. Olharam um no olho do outro, com aquele brilho de quem tá descobrindo algo novo.
— Você já namorou, Lurdes? — perguntou ele.
— Namorei com um cabra safado que só queria me levar pra cama. Mas não fui. Só vou depois de casada. Já deixo claro: não sou de deitar com qualquer homem.
Alméreque respondeu com respeito:
— Minhas intenções com você são as melhores. Gosto do seu olhar, da sua postura. Você é mulher de valor.
— Você é casado? — perguntou Lurdes.
— Não. Sou solteiro. Trabalho muito, mas como se diz... a gente nunca sabe o dia de amanhã.
— Verdade. Podemos trocar cartas, ir se conhecendo melhor — disse Lurdes.
— Aceito com gosto — respondeu ele.
Aquela manhã foi o começo de uma amizade — ou talvez algo mais — que o destino reservava pra filha de José. Alméreque foi respeitoso, levou Lurdes de volta pra casa. À tarde, Cleide levou as irmãs pra conhecer a cidade e comprar vestidos novos como presente.
Naquela noite, ninguém dormiu direito. O coração batia apressado. E quando o dia amanheceu, Dr. Alméreque chegou com o envelope nas mãos.
— É hoje, minhas irmãs. Vamos ter a prova — disse Cleide.
— Já sinto que você é nossa irmã — falou Tereza.
— Eu também — disse Lurdes.
— Qual o resultado, doutor? — perguntou Cleide.
Alméreque abriu o envelope:
— Cleide... o exame de DNA realizado em 06/04/1998 afirma que você é filha 100% de José Alves. O resultado, coletado por Lurdes Alves, comprova que Cleide Ramos é, de fato, filha legítima de José Alves.
Naquele instante, Cleide, Franciele, Tereza e Lurdes se abraçaram forte, com lágrimas nos olhos e sorrisos no rosto.
— Somos quatro filhas de José. E não vamos mais nos separar até o último dia de nossas vidas.
__ Franciele fala ( feliz):“Agora sim, a família tá completa. E que venha o último capítulo, com festa, forró e nosso pai José no meio da roda!”
Capítulo 9 – Acolhimento e Descobertas
O carro parô bem na frente dum casarão arretado de bonito. Parecia até um palacete, com aquelas janelas grandes e uns detalhes dourado que brilhava no sol. Pedro ficou de queixo caído, olhando tudo com os zói arregalado. Cleide, que sempre foi mulher de fala mansa e jeito humilde, já tinha dito que a casa dela não era mansão. Mas aquilo ali... era coisa de princesa mesmo.
— Ôxe, Cleide! Tu disse que tua casa era simples... Isso aqui é coisa de rainha! — falou Pedro, com um sorriso largo no rosto.
Cleide deu uma risada gostosa, daquelas que vem do fundo do peito, e respondeu com carinho:
— Pois sejam bem-vindos, meus amores. Entrem, fiquem à vontade. Aqui é casa de gente, não de luxo.
Tereza, Franciele e Lurdes desceram do carro ainda meio besta com o tamanho da casa. Simão, sempre ligeiro, correu pra ajudar com as malas.
— Simão, meu filho, dá uma mão aí com as coisas dos hóspedes — pediu Cleide.
— Sim senhora, dona Cleide! — respondeu ele, já pegando as bolsas com cuidado.
Tereza olhou em volta, ainda sem acreditar no que via.
— Mulher, tu nem parece que é rica! Tu é tão simples, tão gente como a gente...
Lurdes cruzou os braços e falou com firmeza:
— É verdade. Tem tanta mulher por aí que é lisa e vive se achando... E tu, com esse casarão, toda humilde.
Franciele concordou com um aceno de cabeça:
— Cleide é diferente mesmo. Tem coração bom.
Pedro balançou a cabeça, admirado:
— Cleide não quer ser mais do que ninguém, isso eu sei. Ela é dessas que tem tudo, mas não se gaba de nada.
Cleide olhou pra eles com ternura e disse:
— Nesse mundo, minha gente, num somos nada. O que a gente tem aqui, num vale de nada lá em cima. O valor da vida tá é nas coisas simples.
Dentro da casa, o cheiro de chá e broa quentinha invadiu tudo. Cleide chamou todo mundo pra mesa:
— Vamo tomar um chazinho da noite, que é bom pra esquentar o bucho e acalmar o coração.
Pedro se animou logo:
— Depois daquela buxada que a gente comeu na lanchonete, um chá vai cair que nem bênção!
Tereza riu alto:
— Esse Pedro é uma figura, viu? Não tem jeito!
Franciele olhou pela janela e viu Simão levando os cavalos pro fundo do terreno.
— Cleide, onde é que ele tá levando os bichinhos?
Cleide sorriu com doçura:
— Pro lugar deles, fia. Tem um estábulo lá atrás, Simão cuida direitinho. Os bichim aqui têm vida boa.
Lurdes comentou, impressionada:
— Até os cavalos tão vivendo melhor que muita gente! Isso aqui é um paraíso.
A conversa seguiu animada, com risadas e histórias sobre o passado. As filhas de José estavam se sentindo em casa, acolhidas como se fossem da família. Cleide trouxe um baú de fotos antigas e começou a mostrar imagens de quando era menina.
Uma delas chamou atenção: ela tava ao lado dum rapaz alto, de olhar sereno e sorriso tímido.
Tereza arregalou os olhos:
— Vixe, parece demais com meu pai mais novo!
Lurdes se aproximou:
— Não é que parece mesmo? Vosso pai todinho!
Franciele puxou uma foto da bolsa e mostrou pra Cleide:
— Olha aqui, Cleide. Esse aqui é nosso pai... José.
Cleide pegou a imagem e ficou em silêncio por um instante. O coração dela parecia bater mais forte.
— Esse é meu pai também... José. Meu Deus...
Franciele olhou pra ela com emoção:
— Mulher... será que tu é nossa irmã que sumiu faz tempo?
Cleide levou a mão ao peito, emocionada:
— Meu pai... José... onde ele tá?
Franciele respondeu com voz trêmula:
— Tá em Caruaru, visse? Tá vivo, esperando por nós.
Lurdes apontou pra outra foto no baú:
— E essa aqui é a vó Benta. Tu lembra dela?
Cleide olhou a foto com os olhos marejados, o coração apertado feito nó de rede. Aquele momento, tão simples e ao mesmo tempo tão profundo, revelava laços que o tempo não conseguiu apagar. Era como se o passado tivesse voltado pra dar um abraço. A casa, que parecia um palacete, agora se mostrava como um verdadeiro abrigo de histórias, lembranças e corações entrelaçados por destino.
Por um instante, Cleide ficou calada, olhando pro retrato como quem conversa com ele. Depois, com voz baixa e cheia de sentimento, falou:
— A última vez que vi vosso pai... foi ele que me deixou aqui, nessa casa. Eu era pequena. Quem me criou foi minha tia... tia Cíntia.
Tereza se aproximou, apontando pra uma das fotos no baú:
— Oxente, é essa mulher aqui? Ela é irmã de nosso pai, né não?
Cleide assentiu com a cabeça, ainda emocionada:
— É ela mesma. Nunca me contou muita coisa... só dizia que meu pai precisou ir embora. Mas que bom que encontrei vocês. Agora a gente vai atrás da verdade. Vamo fazer um exame de DNA, pra tirar a dúvida de vez.
Naquela noite, com o cheiro de chá ainda no ar e o calor das broas no estômago, as filhas de José — Franciele, Tereza, Lurdes e agora Cleide — descobriram que José não tinha só três filhas, mas quatro. Era Cleide, a que ficou pra trás, criada longe das irmãs, guardada num silêncio que só agora começava a se desfazer.
O que levou José a deixar Cleide naquela casa? Por que ele criou Tereza, Franciele e Lurdes, mas se afastou da outra filha? Essas perguntas ficaram no ar, como vento soprando pelas janelas do casarão. Mas uma coisa era certa: o reencontro tinha acontecido, e o coração de Cleide, antes cheio de dúvida, agora batia com esperança.
Capítulo 10 – Quem dorme na Rede, Romance Enrolado
As três irmãs, agora quatro, que por obra de Deus e do destino se encontraram, tavam ali, agarradas nas lembranças, nas fotos antigas e nas risadas que só quem tem sangue igual entende. A sala tava cheia de cheiro de chá de erva-doce, broa de milho e emoção. Cleide, Tereza, Franciele e Lurdes pareciam que tinham crescido juntas, de tão bem que se entendiam.
Foi aí que Pedro apareceu, com aquele jeito dele de quem chega devagar mas já quer causar. Botou a cabeça pra dentro da sala e perguntou com aquele sorrisinho de canto de boca:
— E aí, minha gente... quem vai dormir na rede essa noite?
Tereza, que já tava com a xícara de chá na mão, olhou pra ele e respondeu com aquele tom de quem já conhece as intenções:
— Pedro, meu amigo... como bom cavalheiro que é, tu vai ficar com a rede, visse? As quatro mulheres vão repousar nas camas, como manda o bom senso.
Franciele, a mais velha e mais séria, ajeitou os óculos e falou com firmeza:
— Isso só se Cleide, que é a dona da casa, disser que tu pode dormir no quarto. Senão, é rede mesmo, viu?
Lurdes, que não perde uma pra brincar, cruzou os braços e soltou:
— Eu sei bem o que tu tá querendo, Pedro. Tu quer é dormir agarradinho com Cleide, né, seu danado?
Pedro deu uma risadinha safada, coçou a cabeça e respondeu:
— Se ela me convidar, eu durmo agarrado mesmo... mas só se ela quiser, né? Eu sou homem de respeito!
Cleide, que não é de se deixar levar fácil, olhou pra ele com um sorriso matreiro e disse:
— Só depois que tu pedir minha mão em namoro ao meu pai José. Quando eu encontrar ele, aí a gente conversa.
Pedro fez cara de quem levou rasteira de bode:
— Aí tu complicou, Cleide! Vai ser difícil, viu? José é homem sério demais...
Tereza entrou logo com o sermão, rindo:
— Tem que ser como manda o figurino, Pedro. Vosso José não ia gostar de saber que as filhas dele tão dormindo junto com um cabra que nem pediu a mão em namoro.
Franciele concordou, balançando a cabeça:
— É isso mesmo. Homem tem que ter jeito, viu? Não é só chegar e querer deitar. Tem que respeitar!
Lurdes completou, dando uma piscadinha:
— Bem assim mesmo. Aqui é casa de mulher direita, viu?
Cleide apontou pro corredor e falou com firmeza, mas sem perder o bom humor:
— Tem o quarto de hóspede pra tu também, homem. Agora dormir junto comigo... só depois que tu botar uma aliança de compromisso nesse dedo.
Pedro caiu na risada, pegou a gaita que tava encostada na cadeira e falou:
— Então vai ser eu e minha gaita essa noite. Companheira fiel! Boa noite pra vocês, viu?
As quatro responderam em coro, rindo:
— Boa noite, homem!
Naquela noite, depois do chá e das revelações, Tereza, Franciele, Lurdes e Cleide foram se deitar com o coração leve. O dia seguinte prometia mais descobertas, mais conversa e, quem sabe, mais confusão boa. Porque quando tem família reunida, tem história pra dar, vender e rir até perder o fôlego.
Capítulo 11 – Esperança do Documento
O dia mal tinha se espreguiçado no céu do sertão, e Pedro já tava de pé, esticando os ossos na varanda do casarão. Olhou pro lado e viu Simão, o criado de confiança, ajeitando umas coisas no terreiro.
— Ô seu Simão, num dá gosto não, homi? Essas cantoria de passarim logo cedo parece até bênção — disse Pedro, com um sorriso de canto de boca.
Simão coçou o queixo e respondeu com aquele jeito manso:
— Dá sim, seu Pedro. Essas andorinha do sertão é danada! Todo dia, cedinho, elas pousa bem ali na jabuticabeira. Parece que canta só pra nós, uma sinfonia de Deus.
Pedro riu:
— Eita, canta mais que tua gaita, viu?
Simão deu uma gargalhada:
— Oxente, minha gaita até se esconde de vergonha! Vem cá, seu Pedro, vamo ver as criação.
Foram andando até o curral, onde os cavalos e as cabras tavam se ajeitando.
— Olha só, rapaz! As cabra tão mais bonita que vestido de festa. E os cavalo? Dormiram no luxo, foi? — disse Pedro, admirado.
— Dormiram sim, homi. E daqui a pouco eu levo o leite pra vocês tomá café. A vaca tá cheia, parece até que comeu nuvem — respondeu Simão, ajeitando o chapéu.
— Essa vaca deve dá leite que só! — disse Pedro, lambendo os beiços.
— Dá sim, e os queijo que Zita faz... Ave Maria, é de comer rezando!
Pedro franziu a testa:
— Zita? Quem é essa Zita?
Simão sorriu com malícia:
— É a cozinheira, homi! Cozinha que é uma beleza. Se ela faz feijão, até o feijão canta!
Nesse instante, Cleide apareceu na porta da cozinha:
— Ô Pedro, venha tomar café! Zita já botou tudo na mesa, tá uma fartura!
Tereza entrou coçando os olhos:
— Mulher, eu tava precisando dormir, viu? Dormi que nem pedra de rio.
— Dormiu bem, foi? — perguntou Cleide.
— Dormi sim, mulher. Sonhei até com bode dançando forró!
Franciele olhou a mesa e arregalou os olhos:
— Vixe, que mesa cheia! Parece banquete de casamento!
Lurdes concordou:
— É verdade, tem coisa boa demais. Até o pão parece feito com carinho.
Zita chegou animada:
— Bom dia, meninas! Fiquei feliz demais de saber que vocês pode ser irmã de Cleidinha.
Franciele balançou a cabeça:
— Já viu, mulher? O destino é danado, vive pregando peça na gente.
Zita apareceu com um sorriso largo:
— Deus é bom, minha filha. Ele ajeita tudo direitinho, no tempo certo.
Ela se virou pra Cleide:
— Cleide, o Dr. Alméreque tá vindo logo cedo pra fazer aquele exame do DNA em você e numa das suas irmãs.
Cleide arregalou os olhos:
— Eita! Quem vai me ajudar nesse exame?
Lurdes levantou a mão:
— Eu ajudo, mulher! Assim a gente descobre se tu é mesmo filha de José. Vai que a gente é irmã de sangue e de coração!
Assim, enquanto o café esfriava na xícara e o sol já se espreguiçava por cima das montanhas do sertão, Franciele, Tereza e Lurdes ficavam ali, com o coração batendo apressado, na esperança de que Cleide fosse mesmo irmã delas — uma das filhas de José.
Era que seu José, o pai que criou as três com tanto carinho, nunca falou muito sobre o passado. Criou elas como se fossem tudo que tinha, mas nunca mencionou a quarta filha. Isso ficava martelando na cabeça de cada uma, como quem escuta um segredo no vento.
Mas no fundo, bem no fundinho do coração das quatro, tinha uma certeza danada: alguma coisa no passado fez seu José deixar uma filha pra trás. Talvez por ameaça, talvez por obrigação de família, ou por dor que ele nunca conseguiu contar. O que quer que fosse, o destino agora parecia querer juntar os pedaços.
E naquele casarão cheio de cantoria de passarim, cheiro de queijo fresco e café coado, as irmãs esperavam que o exame de DNA não fosse só um papel com resultado — mas a chave pra abrir um baú de história, amor e reencontro.
Capítulo 12 penúltimo capítulo– Laços de Sangue e Chá de Padaria
As horas da manhã se arrastavam devagarzinho, com o sol já esquentando o terreiro e Cleide na porta da varanda, de olho na estrada. Esperava o doutor Alméreque, que vinha fazer o exame de DNA. De repente, um carro elegante apareceu, levantando poeira e esperança. Lurdes, que tava ali com o coração sonhador, viu o rapaz descendo do carro, todo alinhado, camisa passada e sapato brilhando.
— Eita, que esse aí é o genro que minha mãe pediu lá do céu e meu pai rogou aqui na terra! — disse Lurdes, com os olhos brilhando.
Franciele, a mais velha, não perdeu tempo:
— Ô mulher danada! Já tá de olho no doutor?
— Olha, não é pecado não! — respondeu Lurdes, ajeitando o cabelo.
Tereza entrou na conversa:
— Tamo tento Lurdes , né? Vai que o homem é casado...
Pedro, com a gaita debaixo do braço, riu:
— Se não for, já me nomeio padrinho do casamento!
Todo mundo caiu na risada. O doutor Alméreque se aproximou, sorridente:
— Bom dia, moças! E esse cabra aqui parece que toca sanfona bem demais.
Pedro se empolgou:
— Toco sim, doutor! Se quiser, faço até serenata!
Cleide ia apresentar os presentes, mas Lurdes se adiantou:
— Prazer, me chamo Lurdes, irmã caçula de Cleide. Aquela ali é Franciele, a mais velha. Tereza tá ali, e esse é Pedro, que caiu de paraquedas na estrada e ficou.
Cleide completou:
— Então, doutor Alméreque, essas são minhas futuras irmãs. Se Deus quiser, o exame vai confirmar.
Alméreque olhou pra todas com simpatia:
— Todas têm sua beleza, mas essa Lurdes aí... formosura em pessoa e ainda bem humorada!
Lurdes sorriu, sem perder o charme:
— Gentileza sua, doutor.
— Pode me chamar de você... ou só Alméreque mesmo — disse ele.
— Como você quiser, Alméreque — respondeu Lurdes, piscando.
Regina, a enfermeira, chegou com a maleta:
— Bom dia, pessoal! Tão prontos pra descobrir se são irmãs de sangue?
Cleide respondeu com firmeza:
— Tô sim.
— É o que mais quero — disse Lurdes.
— Não vejo a hora — falou Franciele.
— Tenho fé em Deus que Cleide é nossa irmã, filha de José — completou Tereza.
Regina colheu o sangue de Lurdes, enquanto Alméreque fazia o mesmo com Cleide. Pedro, observando tudo, comentou:
— Vai ser legal. Na verdade, já tá sendo. Tudo começou naquele encontro inesperado meu com Cleide na lanchonete.
Franciele sorriu:
— Obra do destino, meu amigo.
— Verdade — disse Tereza.
— Isso mesmo. A gente não parou lá à toa. Deus faz tudo certo — falou Lurdes.
Alméreque guardou os exames:
— Agora é esperar até amanhã. O resultado sai cedinho.
Cleide agradeceu:
— Obrigada, doutor.
Ele sorriu:
— Por nada. Aliás... vocês se importam se eu levar Lurdes pra tomar um chá na padaria? Quero conhecer melhor essa moça.
Tereza respondeu:
— Pode ir. Vejo que você é homem de confiança.
Franciele brincou:
— Mas traga ela antes de escurecer, viu?
Lurdes perguntou:
— Posso ir mesmo ?
Cleide riu:
Vá, mulher! Se não for, a gente lhe prende aqui em casa! Juízo, viu? Vocês dois!
Na padaria, Alméreque e Lurdes conversaram mais. Olharam um no olho do outro, com aquele brilho de quem tá descobrindo algo novo.
— Você já namorou, Lurdes? — perguntou ele.
— Namorei com um cabra safado que só queria me levar pra cama. Mas não fui. Só vou depois de casada. Já deixo claro: não sou de deitar com qualquer homem.
Alméreque respondeu com respeito:
— Minhas intenções com você são as melhores. Gosto do seu olhar, da sua postura. Você é mulher de valor.
— Você é casado? — perguntou Lurdes.
— Não. Sou solteiro. Trabalho muito, mas como se diz... a gente nunca sabe o dia de amanhã.
— Verdade. Podemos trocar cartas, ir se conhecendo melhor — disse Lurdes.
— Aceito com gosto — respondeu ele.
Aquela manhã foi o começo de uma amizade — ou talvez algo mais — que o destino reservava pra filha de José. Alméreque foi respeitoso, levou Lurdes de volta pra casa. À tarde, Cleide levou as irmãs pra conhecer a cidade e comprar vestidos novos como presente.
Naquela noite, ninguém dormiu direito. O coração batia apressado. E quando o dia amanheceu, Dr. Alméreque chegou com o envelope nas mãos.
— É hoje, minhas irmãs. Vamos ter a prova — disse Cleide.
— Já sinto que você é nossa irmã — falou Tereza.
— Eu também — disse Lurdes.
— Qual o resultado, doutor? — perguntou Cleide.
Alméreque abriu o envelope:
— Cleide... o exame de DNA realizado em 06/04/1998 afirma que você é filha 100% de José Alves. O resultado, coletado por Lurdes Alves, comprova que Cleide Ramos é, de fato, filha legítima de José Alves.
Naquele instante, Cleide, Franciele, Tereza e Lurdes se abraçaram forte, com lágrimas nos olhos e sorrisos no rosto.
— Somos quatro filhas de José. E não vamos mais nos separar até o último dia de nossas vidas.
__ Franciele fala ( feliz):“Agora sim, a família tá completa. E que venha o último capítulo, com festa, forró e nosso pai José no meio da roda!”
Capítulo 13 final – A Última Rosa de José
Depois que as irmãs Franciele, Cleide, Tereza e Lurdes souberam que o exame de DNA confirmou que Cleide era mesmo filha de José, a casa virou uma festa danada. Zinha preparou um jantar especial, com tudo que tinha direito: carne de sol, arroz de leite, bolo de milho e suco de caju. Pedro, com a gaita encostada na cadeira, já tava todo animado:
— Agora já tô ensaiando o pedido de namoro, noivado e casamento! Vou pedir a mão de Cleide ao seu pai José, meu futuro sogro!
Cleide riu, ajeitando o cabelo:
— Capricha, visse, Pedro? Porque se seu José for com tua cara, ele abençoa. Mas se não for… é melhor tu correr, viu!
Franciele, com aquele olhar sério, cortou logo:
— A bênção tu já tem, mas respeita nossa irmã, ouviu? Nada de gracinha, senão tu vai se ver comigo!
Tereza completou:
— É isso aí! Se quer coisa séria, trate ela com seriedade. Iludir mulher não é coisa que Deus abençoa, não!
Lurdes, direta como sempre, disse:
— Isso mesmo. Mulher nenhuma merece homem sem juízo!
Cleide gargalhou:
— Tá ouvindo, Pedro? Filha de José não gosta de homem sem vergonha. Se quiser entrar pra família, trate de se comportar, viu!
Pedro levantou a câmera antiga e disse:
— Então bora tirar uma foto das irmãs! Sorri, que o sabiá tá voando!
Todas riram, e a foto saiu com sorrisos verdadeiros e olhos brilhando. Mas a noite guardava mais do que alegria.
Uma batida na porta mudou o clima. Era tia Cíntia, que não aparecia fazia tempo. Simão, o criado, atendeu e levou ela até a sala.
— Minha tia! — disse Cleide, surpresa. — Que alegria ver você!
Tia Cíntia entrou com o olhar cansado, mas cheio de carinho:
— Tudo bem com vocês, minhas meninas? Imagino que já descobriram que o destino, com a bênção de Deus, uniu as quatro filhas de José, meu irmão. Mas a notícia que trago não é das melhores...
Cleide ficou séria:
— O que foi, tia?
Tereza se adiantou:
— Foi algo com nosso pai?
Franciele falou com firmeza:
— Diga logo, tia. Não esconda nada, não.
Lurdes apertou as mãos, aflita:
— Pelo amor de Deus, tia, fala logo!
Tia Cíntia respirou fundo:
— Vosso pai tá internado. Ficou doente de repente. Tá muito mal. Pediu pra se despedir de vocês quatro. Disse que tem algo pra contar.
Cleide se levantou num pulo:
— Vamos pra Caruaru agora, minhas irmãs!
Franciele concordou:
— Bora ajeitar tudo e ir logo!
Tereza perguntou:
— Mas como é que a gente vai chegar tão rápido?
Lurdes respondeu com preocupação:
— É verdade... não dá pra ir de carro, não!
Cleide olhou pra Simão:
— Liga pro capitão Júnior. Vamos de jatinho!
Simão assentiu:
— Pode deixar, dona Cleide!
Zita apareceu com a mala na mão:
— Vou ajudar a arrumar tudo. Vai dar certo, com fé em Deus!
Enquanto isso, Lurdes se ajoelhou no altar da casa, ao lado das irmãs. Juntas, fizeram uma oração:
— Ó Deus Pai, criador do céu e da terra, dá força ao nosso pai José. Cura ele, seja o que for. Permita que ele veja suas quatro filhas juntas, que diga o que guardou por tanto tempo. Proteja nossa viagem, Senhor. E nos ajude a entender o que aconteceu lá atrás. Obrigado por estarmos juntas. Amém.
Tia Cíntia chorou baixinho. Sabia que o maior desejo de José era ver as quatro filhas reunidas.
Horas depois, com as malas prontas, as irmãs seguiram pro aeroporto. O chofer Sousa levou Pedro junto, que não largava Cleide nem por um segundo. No aeroporto, o piloto Júnior já esperava. Cleide falou com firmeza:
— Vamos, minhas irmãs. O tempo pode ser curto, mas se for da vontade de Deus, nosso pai vai nos ver juntas.
Franciele respondeu:
— Vai sim, minha irmã.
Tereza disse:
— E ele vai sorrir ainda!
Lurdes completou:
— É isso aí! Vamos, tia Cíntia!
Tia Cíntia resmungou:
— Tô indo, minha filha. Já tô velha, mas ainda quebro a casca do ovo pra acompanhar vocês!
Todos embarcaram. O jato subiu rumo a Caruaru. Cada minuto era contado como esperança.
Ao chegar, foram direto pro hospital.
Lurdes perguntou:
— Onde é o quarto do nosso pai?
Tia Cíntia apontou:
— Segue a enfermeira. Quarto 38.
O médico liberou a entrada das quatro. Pedro ficou na porta. Tereza abriu devagar. Lá estava José, frágil, irreconhecível, mas com os olhos vivos.
— Cheguem mais perto... Tereza, Cleide, Franciele... e a caçulinha Lurdes — disse ele, com voz fraca.
Cleide se aproximou:
— Meu pai... o que aconteceu?
José tossiu, com esforço:
— Minhas filhas... Eu criei Tereza, Franciele e Lurdes. Mas não pude cuidar de Cleide. Quando sua mãe faleceu, seu avô Valcir me proibiu de te levar. Disse que eu não tinha condição de criar quatro filhas. Mas hoje... hoje Deus foi bom comigo. Me deixou ver vocês juntas. A vida é um mistério, mas Deus uniu vocês de novo. Não deixem essa união se perder. Eu amo vocês...
E então, com um suspiro leve, José fechou os olhos e partiu.
— Paiêêê! Alguém ajuda! — gritou Cleide.
— Meu pai, agora não! — disse Franciele, chorando.
— Não acredito... — murmurou Tereza.
— Ele se despediu... e se foi — disse Lurdes, com lágrimas nos olhos.
O quarto ficou em silêncio, só o som dos aparelhos e dos passos apressados dos enfermeiros. Mas José teve seu último momento: viu suas quatro filhas juntas, como sempre sonhou.
Horas depois, o choro ainda ecoava. No dia seguinte, no cemitério de Caruaru, as irmãs se despediram pela última vez. Cleide jogou uma rosa sobre o túmulo:
— Te perdôo, meu pai. Descanse em paz.
Franciele disse:
— Adeus, meu pai.
Tereza falou:
— Nunca vou te esquecer. Descanse.
Lurdes, com o coração apertado, completou:
— Pai, sempre vou lembrar das nossas aventuras e brincadeiras. Te amo. Vai com Deus.
José se foi. Mas na terra, deixou o maior legado: quatro filhas que ele amou, mesmo quando a vida não deixou ele criar todas. E agora, juntas, elas seguiram com o coração cheio de saudade — e de amor.


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