[Mais um dia de trabalho
Era dia 10 de junho de 1990, lá na cidade de Petrolina, quando Tinhão, esperto e trabalhador, saiu de casa às oito da manhã com seu carrinho de pipoca, rumo a mais um dia de batalha. Do outro lado da rua, vinha seu amigo Manuel, atravessando com aquele jeitão de quem parece que não tem pressa na vida. Manuel era quase um irmão pra Tinhão, daqueles que a gente confia até pra guardar segredo de receita de pipoca.
— Bão dia, Tinhão! Como tá, meu amigo? — gritou Manuel, ajeitando o chapéu na cabeça.
— Ô bão dia, Manuel! Tô bão demais, só quero vê se dou conta de vendê bastante hoje. — respondeu Tinhão, animado, enquanto empurrava o carrinho com cheiro de pipoca doce no ar.
— Ah, mas vai vendê sim, uai! Quem é que num gosta das suas pipoca? Tem doce, tem salgada, e tem as caramelada que é de lamber os beiço! — incentivou Manuel, comendo um pedaço imaginário de pipoca.
— As caramelada vende que nem pão quentinho, sô! Mais tarde, cê vai ali comigo na funerária Bom Jesus? — perguntou Tinhão, com um sorriso meio misterioso.
— Funerária?! Tá doido, homem? Que qui nois vai fazê lá? — Manuel arregalou os olhos, já meio desconfiado.
— Uai, tenho que comprá um paletó de madeira! — respondeu Tinhão com a maior naturalidade do mundo.
Manuel, do nada, se benzeu três vezes.
— Que isso, Tinhão! Para com isso, homem! Cê vai é vivê muito ainda, uai!
Nesse momento, a porta da funerária abriu, e quem saiu foi Rosa, toda arrumada numa mini saia que parecia ter encurtado sozinha. Tinhão, que já tava com o olho brilhando, soltou:
— Olha lá, Manuel, que belezura de mulher! Parece até uma pintura!
Manuel virou pra olhar e deu um sorriso de quem já sabia quem era.
— É a Rosa, uai. Tá diferentona hoje, né?
— Sim, Manuel! Hoje tá é um mulherão, sô! — comentou Tinhão, com as mãos na cintura.
— E ela tem namorado? — perguntou Manuel, curioso.
— Num tem não, mas tá procurando um cabra que namora, casa e ainda trabalha junto com ela. Um combo, sabe?
Manuel deu aquela risada marota.
— Eita, Tinhão! Com um mulherão desse, até limpar defunto vira um trampo bão, hein?
Tinhão deu uma gargalhada e, sem perder tempo, respondeu:
— Pois é, Manuel! Se eu arrumasse uma namorada dessas, ainda tentava uns desconto lá na funerária Bom Jesus pra quando chegar minha vez, uai!
Manuel fez cara de sério, mas não segurou o riso.
— Ó, vamo mudá o rumo dessa prosa, Tinhão! Num gosto de mexê com essas coisa de defunto, não!
Tinhão só ria.
— Ô Manuel, para de ter medo, sô! Um dia, todo mundo vai pra lá. Mais vale já deixá tudo ajeitado!
E assim, entre risadas e conversas cheias de humor, os dois seguiram pelas ruas de Petrolina, cada um com seu jeito caipira e sua filosofia de vida. Afinal, o bom da vida era aproveitar o momento... e, claro, vender muita pipoca caramelada!
O Leitão Fujão
Naquele dia de céu azul e sol tímido, Tinhão e Manuel caminhavam pela estrada de terra batida, indo rumo à praça da igreja da cidade. Tinhão, com seu carrinho de pipoca, puxava papo:
— Ô Manuel, ocê está vendo aquele avoroso de gente lá na praça? Tá parecendo final de campeonato!
Manuel, ajeitando o chapéu de palha, respondeu desconfiado:
— Uai, Tinhão, o que será que tá acontecendo, hein? Será que morreu mais um?
Tinhão coçou a cabeça e, com tom filosófico, soltou:
— É, sô... parece que a vida tá mais curta que perna de porco ultimamente.
De repente, surge Josemar, pedalando sua velha bicicleta mais torta que promessa de político. Ele grita, meio esbaforido:
— Tinhão! Manuel! O leitão da Dona Amélia fugiu de novo!
Manuel arregalou os olhos e cruzou os braços:
— Eita, mas de novo? Esse leitão é mais fujão que menino levado! Quanto que Dona Amélia tá pagando dessa vez pra pegar o bichinho?
Tinhão, curioso, pergunta:
— Fala aí, Josemar, quanto que é o prêmio?
Josemar freou a bicicleta com um chiado, quase caindo, e respondeu:
— 500 cruzeiros, sô!
Tinhão, com os olhos brilhando e dando um tapinha no chapéu, exclamou:
— Aí sim, hein! Dá até pra mim dar entrada no meu paletó de madeira!
Josemar balançou a cabeça e resmungou:
— Ah, Tinhão, que conversa boba essa sua! Vou indo lá pra ajudar também.
Quando Josemar virou a esquina, lá estava a velha carroça do senhor Alfredo cruzando o caminho. Josemar, distraído, foi direto na traseira da carroça, voando por cima dela e aterrissando no feno. Levantou cambaleando e gritou:
— Uai, tô bem, pessoal! Só minha bicicleta que virou sucata!
O senhor Alfredo olhou pra ele e disse com tom sério:
— Foi seu anjo da guarda que te salvou, rapaz!
Dona Margarida, que passava por ali, deu uma risadinha e perguntou:
— Tá tudo bem mesmo, Josemar?
Josemar respondeu, meio sem jeito:
— Tô sim, Dona Margarida. Agora deixa eu ir que tenho que pegar o leitão fujão!
Tinhão, vendo a cena, comentou com Manuel:
— Sorte desse caboclo não ter se machucado feio, né?
Manuel concordou:
— É, mas agora bora atrás do leitão antes que ele suma de vez!
Tinhão estacionou o carrinho de pipoca perto de um cachorro vira-lata caramelo que estava deitado na sombra. Ele olhou pro cão e deu ordens como se fosse um general:
— Caramelo, se alguém mexer nas pipoca, ocê morde, viu?
O cachorro abanou o rabo e ficou em posição, parecendo um soldado preparado pra guerra.
Chegando na praça, o alvoroço era grande! O leitão estava lá, correndo de um lado pro outro, todo sujo de lama e com a cara mais sapeca do mundo. Manuel tentou ir atrás dele, mas o bicho era mais ligeiro que notícia ruim.
— Pega ele, Tinhão! — gritou Manuel.
Tinhão, com determinação nos olhos, respondeu:
— Deixa comigo, Manuel! Esses 500 cruzeiros já são meus!
Josemar, mancando e com a roupa cheia de palha, apareceu e sugeriu:
— Ó, vamo dividir o prêmio, que tal?
Tinhão deu uma risadinha, mas antes que respondesse, Manuel achou um laço e gritou:
— Olha o laço, Tinhão!
Manuel tentou laçar o leitão, mas acabou tropeçando e foi ao chão. Tinhão, num salto digno de goleiro de time de futebol, se jogou em cima do porco e gritou:
— Peguei o leitão fujão!
A praça inteira aplaudiu! Josemar, ainda mancando, falou:
— Eita, Tinhão, ocê ganhou os 500 cruzeiros! Tá feito o seu dia, hein?
Dona Amélia chegou ofegante, agradecendo:
— Obrigada, meu rapaz! Ocê se chama Tinhão, né? Aqui tá os seus 500 cruzeiros.
Tinhão sorriu de orelha a orelha:
— É isso mesmo, dona Amélia! Muito obrigado!
Dona Amélia colocou o leitão no carro e foi embora, enquanto Tinhão e Manuel voltaram pro carrinho de pipoca, rindo da confusão.
Manuel, ainda sujo de lama, brincou:
— Cê é sortudo demais, Tinhão! Mas vê se usa esse dinheiro pra alguma coisa decente, viu?
Tinhão respondeu, dando risada:
— Uai, Manuel, vou é comprar meu paletó de madeira e pagar umas Tubaína com pão com mortadela para nós só!
E assim terminou a manhã mais agitada que a pequena cidade já tinha visto.
Escolha da Cova
Anoite no cemitério de São Francisco. A lua cortava as nuvens e o vento fazia as folhas secas dançarem feito alma penada. Tinhão, com aquele chapéu torto e sorriso maroto, vira pro Manuel e fala:
— Ô Manuel… bora entrá no cemitério, uai!
Manuel engoliu seco, olhou pra cerca velha e respondeu:
— Mas homi… de noite num é bão não…
Tinhão deu um risinho:
— Ah, tão tudo dormindo no descanso eterno, sô! Vai ter nada não…
— E se uma alma resolver aparecê? — disse Manuel, já suando frio.
— Aí nóis fala: "ô alma, boa noite procê, nóis num qué incomodá não… só viemo tomá um cafezim com o coveiro Ezequiel!" — respondeu Tinhão, piscando o olho.
Nisso, Josemar vinha se arrastando no portão, meio mancando.
— Boa noite procês… vim me aventurá, uai. Perder esse medo besta de menino!
Tinhão deu um tapa no ombro dele:
— É isso aí, Josemar! Medo tem que tê dos vivo, num dos morto não.
— Verdade, sô! — Josemar deu uma risadinha. — Mas se uma alma sair pulando, até eu que sou manco vô corrê mais que lebre em noite de trovoada!
Manuel acendeu a lanterna:
— Ó… a lanterna vai na frente, viu Tinhão?
— Pode deixar, uai!
Entraram. O silêncio era diferente… até as coruja parecia que tinha ido dormi mais cedo. Uns morcego preguiçoso nem fez questão de voá. Josemar, mancando, olhava pra trás toda hora, achando que ia vê uma alma.
De repente, apontou:
— Óia lá… o Malandro Ribeiro!
Manuel arregalou os óio:
— Que que ele tá fazendo aqui essa hora, sô?
Tinhão sentou num jazigo de mármore e falou:
— Ah, o Malandro Ribeiro tem os negócio dele aqui… compra e revende cova mais barato. Diz que tem promoção: de sete palmo, de oito, e até de dez!
— Uai, mas isso num é ilegal não, sô? — perguntou Manuel.
— É nada… é só esquisito mesmo. Ele tem cova pra todo tipo… desde defunto magrinho até aquele que precisa de reforço na tampa! — Josemar riu.
Tinhão se ajeitou e perguntou:
— Ocês já pensaro onde vão escolher a cova de ocês?
Manuel se arrepiou:
— Eu? Tô bão, quero nem pensá nisso…
— É bom se prevenir, uai. Hoje tá vivo, amanhã já tá no paletó de madeira…
Meses Antes…
Tinhão tinha sido chamado na Fazenda Coqueiros pelo velho Senhor Nilson, que estava de cama.
— Ô Tinhão, vem cá, me dá um abraço… ocê foi meu braço direito aqui… — disse o velho, com voz cansada.
Tinhão, mastigando um pão de queijo:
— Pode falá, sinhô Nilson.
— Quero que ocê prepare tudo antes de eu partí… mas sem ninguém sabê. Compra a cova, o paletó de madeira, até o esmóque… mas finge que é pra ocê. Marli num pode sabê, senão ela desaba.
Tinhão coçou a cabeça:
— Conheço bem Marli… a bichinha já tá mais chorosa que goteira em telhado furado.
O velho deu risada e tossiu.
Marli entrou no quarto:
— Que que ocêis tão cochichano aí?
Tinhão disfarçou:
— Coisa da fazenda, só…
Ela deu o remédio pro pai e saiu. O velho então enfiou um maço de cruzeiro no bolso do Tinhão:
— Compra tudo… e se sobrá uns troco, encomenda até um violino pro cantador no dia.
Tinhão guardou o dinheiro e saiu, pensando: "É dinheiro pra enterrá dois, sô…"
De Volta no Cemitério…
Tinhão escutou de longe:
— Ô Tinhão! Tá muito longe, sô! — era Manuel.
— Calma… tô pensano na vida. Bora logo praquela direção das cova.
Josemar completou:
— Antes que alguma alma desaloje nóis dos jazigo, uai!
Chegando lá, o Malandro Ribeiro já tava esperando com o coveiro Ezequiel.
— Ô Tinhão, meu faixa! Só passá o money, assinar aqui e o Ezequiel coloca a plaquinha…
Tinhão perguntou:
— Quanto tá custano as cova, sô?
— Aquele precinho camarada… 350 cruzeiro.
Tinhão coçou a cabeça:
— Aqui, ó… vou ficar com a do meio. Mais discreta…
Ezequiel apareceu, com um sorriso sinistro e uma chaleira fumegante:
— Aceita um cafezim? E assina aqui…
Tinhão assinou no nome do Senhor Nilson. Manuel resmungou:
— Eita cova cara…
Josemar concordou:
— Pra quem vai ficá debaixo da terra, tá salgado.
Tinhão:
— Essa é a mais humilde… ninguém vai repará.
As Histórias do Coveiro
Depois da escolha, sentaram todos num jazigo, com café quente e pão de queijo. Ezequiel começou a contá causos:
— Teve uma vez, sô, que uma sombra apareceu ali… óia… naquela direção… Sumiu que nem fumaça de trem! Eu fui olhar, num tinha nada. Outra vez, peguei um casal de namorado… beijando escondido em cima do túmulo do finado Juvenal… Quando a caveira caiu da lapide, cê tinha que ver… saíram correndo feito alma penada!
Tinhão deu risada:
— Eita, o povo num tem juízo…
Manuel, pálido:
— Se eu vejo uma sombra dessa, eu largo a lanterna e saio no pinote…
Josemar completou:
— Nessa hora, até eu manco deixo o pé pra trás e corro!
Ezequiel piscou:
— Se ouvirem três assobio no meio da noite, num é coruja não… é defunto chamando!
Todo mundo deu um gole no café… meio desconfiado. Mas ficaram ali… ouvindo mais causos do cemitério de São Francisco, onde até as coruja respeitava o descanso eterno.
No portão do cemitério, tinha um sujeito parado. O homem era mais branco que farinha de mandioca, vestindo um terno tão alinhado que parecia que tinha saído de um velório… ou tava indo pra um.
Manuel arregalou os olhos e cochichou:
— B-b-bôa noite, senhor… ocê também tá perdido no cemitério?
Tinhão deu uma cutucada no Manuel:
— Deixa disso, homem! Não mexe com quem tá quieto não.
Josemar, que já tremia mais que vara verde, falou:
— Verdade... Vai que ele tá esperando alguém, né? Vamo passá batido…
Quando os três viraram as costas e passaram pelo portão, ele se fechou devagar, fazendo creeeeeck, igual tampa de caixão velho.
De repente, o homem branco que só falou, com uma voz fina e arrastada:
— Não tô perdido não, moçada… Aqui é minha nova moradia… Tava só esperando minha namorada, a Estela. Oi rapazes, boa noite!
Tinhão nem pensou:
— Corre, cumpadis!
Manuel gritou:
— Que loucura é essa, meu Deus!
Josemar, mancando mas se esforçando pra acompanhar:
— Esperem por mim, seus danado! Eu sou manco, mas nessa hora eu voo!
Tem caixão em promoção
Amanhece o dia. Tinhão coça a cabeça, olhando o horizonte, pensativo.
TINHÃO (falando sozinho):
— Uai, será que o seu Nilson passou bem a noite? Acho que vou vê se o padre Afonso me leva lá na fazenda dos Coqueiros... preciso sabê das coisa.
Manuel chega com uma broa de milho na mão.
MANUEL,
— Bom dia, Tinhão! Vai um pedaço de broa bão, feita na palha de bananeira!
TINHÃO,
— Ô trem bão sô! Essa broa tá parecendo que tá gritando pra mim… dá cá!
MANUEL,
— Passei lá na funerária Bom Jesus, e ocê acredita que tão com promoção nos palitó de madeira? Coisa fina, rapaz!
TINHÃO (engasgando com a broa):
— Promoção de caixão?! Então vamo pra lá agora mesmo, mas toma esse café antes, senão cê engasga e vira finado antes da hora, home!
MANUEL (se benzendo):
— Credo em cruz! Bem lembrado… será que eu levo uns buquê de rosa pra Rosa?
TINHÃO
— Apaixonô pela moça da funerária, foi? Não esqueceu dela de mini saia aquele dia, hein?
MANUEL (sorrindo):
— Nem defunto esquece, home! Até os anjinho no céu deve ter comentado!
Horas depois… Josemar chega, olheiras fundas.
JOSEMAR:
— Bom dia, povo… nem dormi direito essa noite.
TINHÃO:
— Também, depois do susto de ontem, quem dorme?
MANUEL:
— Aquilo foi coisa de outro mundo, sô… num quero mais passá por aquilo, não.
TINHÃO:
— Mas hoje nós vamo ali na funerária Bom Jesus.
JOSEMAR:
— Comprar caixão?
MANUEL:
— Isso! Tinhão quer um paletó de madeira na promoção.
JOSEMAR:
— Pega um bem xique, Tinhão!
TINHÃO:
— Quero um de peroba, que dá pra vê o lustro de longe!
Na funerária, Rosa está arrumando flores. Manuel entra todo galante, segurando um buquê.
MANUEL (tímido):
— Bom dia, Rosa… trouxe essas rosa procê… pra deixar seu dia mais… ainda mais rosa!
ROSA (sorrindo):
— Nossa, faz tempo que ninguém me traz flor… obrigada, Manuel!
TINHÃO:
— Esse aí pagou caro na floricultura do Zé Maia, hein!
JOSEMAR (olhando os caixões):
— Eita, tem de todo jeito… caixão é igual carro: tem que escolher bem!
ROSA (rindo):
— Isso é verdade, viu…
MANUEL:
— E cê, Rosa, gosta de quê no tempo livre?
ROSA:
— Ah, de ler um bom livro… e ocê?
MANUEL:
— Eu? Eu gosto de sobra tempo… pra namorá!
ROSA (dando risada):
— Depende…
MANUEL:
— Depende dele tê dinheiro ou ser respeitoso?
ROSA:
— Dele ser respeitoso e trabalhador, uai!
TINHÃO (encostando num caixão):
— Posso deitá nesse pra vê se cabe?
ROSA:
— Pode, uai! Quer fazer test drive?
Maurício, pai da Rosa, aparece.
MAURÍCIO:
— Uai… defunto tá vivo, é?
Todos caem na gargalhada.
MAURÍCIO:
— Filha, chegou um corpo pra maquiar.
ROSA:
— Tô indo, pai!
MANUEL (pra si mesmo):
— Tenho que aprender maquiar ou dar banho em defunto, sô…
TINHÃO:
— Isso mesmo, Manuel! Se quiser ganhar o coração da Rosa, tem que encarar os trampo!
JOSEMAR:
— Verdade… a danada é bonita, mas o pacote vem completo!
TINHÃO (pro Maurício):
— Quero esse aqui, ó…
MAURÍCIO:
— Vai pagar à vista?
TINHÃO:
— Sim senhor… 155 cruzeiro. Esse é chique, tem até almofada!
Maurício anota a venda. Tinhão se aproxima.
TINHÃO (baixo):
— Guarda segredo, viu?
MAURÍCIO:
— Pode deixar.
Nesse instante, entra Dona Amália, aos prantos.
DONA AMÁLIA (chorando):
— Ai meu Deus… meu menino Isidoro subiu pro andar de cima… e eu num tenho dinheiro pra caixão…
TINHÃO (sem pensar, pega os 500 cruzeiro do prêmio do leitão fujão):
— Escolhe, dona… eu pago!
MANUEL:
— Esse é meu amigo! Tem um coração que não cabe no peito!
JOSEMAR:
— Verdade, viu!
DONA AMÁLIA (chorando mais ainda):
— Que Deus te pague em dobro, meu filho…
TINHÃO:
— Amém, que o Isidoro descanse em paz.
Depois, Tinhão segue até a igreja. Padre Afonso o espera na porta.
TINHÃO:
— Ô padre Afonso, tudo bão?
PADRE AFONSO:
— Vou bem, meu filho. Já foi visitar o seu Nilson?
TINHÃO:
— Ainda não, tava preparando a viagem definitiva dele pro andar de cima…
PADRE AFONSO (rindo):
— Ele confia muito em você, sabe? Fez questão que fosse você a cumprir isso. Se quiser, podemos ir hoje.
TINHÃO:
— Vim aqui pra isso… e pra receber a benção também.
PADRE AFONSO (fazendo sinal da cruz):
— Deus te abençoe, meu filho. Vou só pegar a chave do jipe e a gente parte.
Saem juntos pro jipe, estrada de terra eles foram rumo à fazenda dos Coqueiros.
A DEUS AO SENHOR NILSON
Chegano na estrada de terra da Fazenda dos Coqueiros, o padre Afonso, suadim debaixo do chapéu, falou:
— Ô Tinhão, olha lá sô! A ambulância vindo que nem alma penada, buzina tocano! Deve de tê acontecido coisa das braba!
Tinhão arregalou os zóio e pôs a mão no peito:
— Vixê Maria, padre Afonso! Com certeza é a dotôra Anastácia! Ai minha Nossa Senhora das Dores! Deve tê acontecido alguma coisa com o seu Nilson, uai!
O padre fez o sinal da cruz e completou:
— Verdade mermu, óia lá, já passou nóis, sô!
A ambulância passou zunindo, sirene berrano. O padre gritou:
— Segura, Tinhão, que eu vô acelerar esse jipão aqui! Nóis tem que chegá logo pra sabê das notícia!
Tinhão se agarrou no banco:
— Acelera esse jipe, padre! Mas cuidado pra nóis num virá cambota na curva da Biquinha, hein!
Horas depois, a ambulância estacionou na fazenda, e a doutora Anastácia desceu mais esbaforida que peru na véspera do Natal.
— E aí, como tá o seu Nilson? — perguntou ela, ajeitando os óculos.
Marli, a filha do seu Nilson, com o zóio marejado, respondeu:
— Num tá bão não, dotôra… Salva ele, pelo amô de Deus! Eu vou ficá orano, viu?
A doutora assentiu:
— Pode orá, Marli! Oração é importante demais da conta!
Nisso, o jipão véio chegou levantando poeira. O padre Afonso pulou de dentro e falou:
— Até que enfim, sô! Chegamo!
Tinhão desceu abraçando Marli, falando:
— Ô fia, fica forte aí, viu? Vamo orá tudo junto.
Na sala da fazenda, já tava todo mundo de joelho: os empregado, Marli, Tinhão, e o padre. Só se ouvia oração e fungado.
O padre Afonso, com a voz embargada, pediu:
— Que Deus dê força pra que o nosso querido seu Nilson se recupere, amém!
Enquanto isso, no quarto, seu Nilson, mais fraco que café requentado, chamou:
— Dotôra… chama minha Marli… meu braço direito Tinhão… e o padre Afonso…
A doutora foi rápido:
— Marli, Tinhão, padre! Corre lá, ele tá chamano vocês!
Os três entraro no quarto. Seu Nilson, com aquele fiapim de voz, falou:
— Chega mais, chega mais, meus fio…
Ele segurou a mão de Marli e a do Tinhão, e com esforço:
— Tinhão… quero que ocê tome conta da fazenda, uai… tô entregano a mão da minha Marli pra ocê… cê casa com ela, faz ela feliz… e lembra de cuidá dela como marido… posso descansá em paz agora…
Marli começou a chorar de soluçá.
Tinhão, suando frio, falou:
— Seu Nilson… num faz isso não… aguenta mais um tiquim… deixa eu namorá ela primeiro, sô!
Seu Nilson deu uma tossida e deu risada:
— Hahaha… ô meu fio… eu já tô de saída… mas pra eu ir sossegado, queria que o padre Afonso casasse vocês antes…
Todo mundo ficou de zóio arregalado.
— Tô brincano! — tossiu mais um pouco — Namora, namora… mas cuida dela, viu? Confio ocê…
Aí, seu Nilson fechou os zóio e deu aquela partida pro andar de cima. O clima ficou em silêncio. Só se ouvia fungado, soluço e o vento batendo na cortina.
O padre Afonso fez a oração final:
— Que o senhor Nilson encontre a paz lá em cima… e que Deus conforte nóis tudo aqui embaixo.
Depois disso, Tinhão saiu voado pra venda da beira da estrada, pegou o orelhão e ligou pra funerária Bom Jesus:
— Alô? É da funerária Bom Jesus? Aqui é o Tinhão… só pra avisá que o seu Nilson… acabou de subí pro andar de cima… descansou na eternidade.
Do outro lado, o seu Maurício, da funerária, falou:
— Pode dexá, Tinhão. Vamo providenciá tudo pra fazer a cerimônia bonita que ele merece, uai!
E assim, o sol começou a se pôr na Fazenda dos Coqueiros, com a certeza de que até na tristeza, o povo dali sabia misturá choro e risada, do jeito que só mineiro sabe.
Descansa em Paz, Seu Nilson
Anoiteceu, e já tava tudo mundo reunido no velório lá na sala grande da Fazenda dos Coqueiros. Tava lá desde os empregado da fazenda até o povo da cidade: Manuel, Josemar, Rosa e seu Maurício, que fechou a Funerária Bom Jesus só pra vir.
Tinhão, com a boca cheia de pão com queijo defumado, cochichou:
— Ô gente… fala a verdade… o seu Nilson tá elegante demais dentro daquele paletó de madeira, hein?
Marli, enxugando as lágrima com o lenço, respondeu:
— Tá sim, Tinhão… e eu sei que ocê fez tudo em segredo pra eu num chorá mais do que já tô, sô… obrigado viu.
__Tinhão fala pornada foi a pedido de seu pai.
Manuel, com a boca cheia também, comentou:
— Esse queijo tá bão demais… e esse velório, ó… tá bem organizadim!
Josemar completou:
— Só coisa de primeira… velório de responsa!
Rosa, séria, deu um pito:
— Pessoal… vamo combiná de num cometê gafe aqui não, hein… é hora de reflexão, sô.
Tinhão coçou a cabeça:
— Eu tô refletino, mas confesso que tem gente aí que só veio pra comê queijo defumado, viu! Tem uns que tão acostumado é com mortandela em velório, e hoje tão se sentino na realeza.
Nessa hora, o padre Afonso deu uma tossida pra mandar sinal de respeito e pediu silêncio. Mas a noite foi passando, e o dia foi clareando. Lá pelas tantas, o padre, sentado do lado do caixão, capotou no cochilo e começou a roncar alto, parecendo um porco gordo sonhando com pamonha.
Manuel cutucou Josemar:
— Vixê… olha lá, o padre! Roncando na cerimônia do seu Nilson! Aposto que o véio lá de cima tá olhando isso e falano: “Logo no meu velório, uai!”
Josemar riu:
— Deixa uai, tá cansado… mas ronca igual berrante de festa de rodeio.
Rosa disfarçou o riso com o lenço.
Quando o galo cantou, o padre Afonso acordou, fingindo que tava rezando:
— Amém, amém… glória a vós, Senhor…
Pegou um copo de café, tomou de um gole e falou:
— É hora de fechá a tampa do caixão… descanse em paz, seu Nilson.
Mais tarde, o empregado Ricardo junto com, Tinhão, Josemar e Manuel carregou o caixão pro carro da Funerária Bom Jesus. Saíram no cortejo pra o Cemitério São Francisco, onde os violinista já tavam afinano as corda pra tocar.
O coveiro Ezequiel, com a pá na mão, ajeitou o jazigo, que Tinhão tinha escolhido debaixo dum pé de ipê amarelo.
Na hora de colocar o paletó de madeira no jazigo, Tinhão jogou uma rosa vermelha e disse:
— Brigado por tudo, seu Nilson… pode dexá que eu vou cuidá bem da Marli, uai!
Marli jogou a dela:
— Adeus, papai… ôh, vou sentir uma saudade que nem sei dizê…
Manuel foi o último:
— Obrigado, seu Nilson… por ter deixado eu entrá no clube da cidade uma vez quando eu era menino. Nunca esqueço disso não.
Os violinista tocáro uma última música bonita. Quando a tampa do jazigo fechou, todo mundo aplaudiu, porque ali não era só despedida, era gratidão.
Visão da Vida
A vida é para ser vivida com alegria e sabedoria, aproveitando cada dia como se fosse o último, pois não sabemos quando será esse dia. Quando vivemos em paz, respeitando uns aos outros e tendo a alegria de viver a cada momento como se fosse o último, teremos a certeza de que a missão de ter passado por este mundo foi cumprida, e estaremos prontos para o descanso da eternidade, dando nosso adeus à vida.

