[Capítulo 1 – O Muro Que Escuta
A madrugada em São Bento parecia mais gelada que o normal. O vento zunia por entre os tijolos úmidos da cela 9. Lá dentro, cinco homens tentavam dormir — ou fingiam. Jonas Valente, sentado num canto, acendia mais um cigarro com dedos trêmulos. O fósforo crepitou. "Uai... esse frio vai me matá antes do sistema", murmurou ele, soltando a fumaça pro teto rachado.
— Cabô o papel de enrolá, Benedito? — Jonas perguntou com voz rouca. — Num tenho mais nada, Joãozinho. Só se enrolá no jornal véio que peguei com o seu Abílio — respondeu Bê, com seu jeito matreiro.
Enquanto os outros cochilavam, Jonas viu um vulto passar pelo corredor. A chama do cigarro tremeu. O barulho era lento, arrastado, como se alguém levasse correntes nos pés. Ele se levantou devagar. “Será que é o Sr. Juvenal?” pensou. “Uai, mas ele já largô o turno...”. Seu coração apertou.
A sombra parou bem diante das grades. Jonas recuou instintivamente. A figura era alta, magra, encapuzada. Dos lábios saiu uma voz cavernosa:
— Quem tá preso aqui... nunca sai. Esse lugá foi escolhído pros que mexeu com a sociedade. Aqui, a pedra escuta.
Jonas segurou a respiração. Lá de dentro, Zeca Sombra começou a murmurar em sonho. — As vozes tão voltando... cês tão ouvindo tamém?
Otávio, o contador de lendas, abriu um olho. — Vê se dorme, Sombra. Essas história sua é pra assustá novato.
Tiago Farinha riu baixinho. — Só se for o espírito do Velho Caco... dizem que ele ainda vive lá no porão, sô.
Jonas encarava a sombra. Ela não se movia. Apenas ficou ali por mais alguns segundos e depois sumiu na escuridão. Ele encostou na parede da cela, tentando entender.
Na manhã seguinte, encontraram uma frase riscada com carvão no corredor:
“As pedras têm ouvidos. Vocês, pecadores, têm que ouvir.”
Seu Abílio, o limpador, olhou para Jonas e disse num sussurro:
— Num foi ninguém daqui que fez isso. Isso é coisa da prisão, moço. Coisa antiga.
Na hora do café, Raimundo Pito — o cozinheiro que parecia adivinhar pensamentos — largou uma frase no ar:
— Quem já ouviu a parede, nunca mais dorme tranquilo.
Dr. Rodrigo Vilar chegou à visita. Jonas o recebeu com olhos fundos.
— Dr., ocê acredita em assombração?
— Acredito em injustiça. E essa prisão tá cheia disso — respondeu o advogado, preocupado.
Enquanto isso, no escritório do juiz Lúcio Prado, uma carta sem remetente repousava sobre a mesa:
“Eles ouvem. Eles sabem. A justiça será feita por outros meios.”
Jonas escrevendo no chão da cela uma palavra que ninguém entendia: “A sombra escuta,a sombra sabe ela quer nos assustar”.
Capítulo 2 – Correntes de Silêncio
Era dia de sol em São Bento — o único momento em que os presos sentiam a luz tocar o rosto. Jonas Valente estava encostado na grade do pátio, os olhos perdidos no horizonte, sem enxergar coisa alguma.
— Num sei não, sô... tem trem esquisito lá naquele porão. — disse Benedito, puxando assunto enquanto mastigava uma manga que “ganhaou ” de Tobias.
Jonas ouviu mas não respondeu. Só pensava naquela sombra que viu no corredor. Será que o escuro voltava no porão? Seria coisa da cabeça, ou as pedras falavam mesmo?
Otávio, o contador de lendas, se aproximou devagar. — Ocê devia descê lá, uai. Só assim vai sabê o que cê tá temê. Mas cuidado, que o Velho Caco num gosta de visita...
Jonas fingiu que não escutou. O medo misturava com curiosidade, com a noite anterior ainda pulsando.
No horário de visita, o portão rangia mais que o normal. Dona Clarice entrou devagar, acompanhada de um senhor de paletó cinza, Bíblia de couro na mão. Era o Pastor Manoel, homem de fé antiga e voz suave.
Jonas veio andando com passos lentos, cabeça baixa. Ao ver a mãe, demorou pra encarar.
— Meu filho... pelo amor de Deus, o que tá acontecendo com ocê? Tá com o olho perdido, parece que num tá nem aqui — disse Clarice, com lágrima já se formando.
Jonas suspirou. — Mãe... tem coisa nesse lugar que num dá pra explicá. Tem sombra que fala, parede que escuta.
Pastor Manoel se aproximou com calma. — Jonas, tome essa Bíblia. Leia com atenção cada palavra do Senhor. Porque só Deus quebra corrente, só Ele tira o mal encravado no peito.
Jonas pegou o livro com mãos vacilantes. — O senhor acha que isso aqui... pode me livrá do medo?
— A Bíblia é mais afiada que faca de cadeia, meu filho. — respondeu o Pastor, sorrindo de leve.
Manoel então impôs as mãos sobre Jonas e orou alto:
— Senhor Deus, Pai de misericórdia, livra esse rapaz de todo mal e perigo. Que toda sombra que ronda esse lugar seja quebrada pela luz. E que o coração desse filho encontre paz, mesmo entre grades.
A cela ficou silenciosa naquela noite. Até Zeca Sombra parou de murmurar.
Jonas, no escuro, abriu a Bíblia devagar e viu uma frase sublinhada:
“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum.”
Ele fechou o livro, olhou pro teto e disse baixinho:
— Talvez o porão seja o meu vale, né?
Otávio, ouvindo da cama ao lado, sorriu no escuro. — Mas cuidado, sô... no vale dizem que tem uma escuridão é para encontrar a luz tem que está com a fé em Deus em dia.
Capítulo 3 – A Lenda do Velho Caco
— Tá tudo certo, Otávio? — perguntou Jonas, enquanto ajeitava o cordão da lanterna improvisada com pedaço de lata e óleo do refeitório.
— Tô terminando aqui, uai. Farolete vai brilhá igual olho de coruja — respondeu Otávio, com um sorriso torto e mãos habilidosas.
Dentro da cela, Zeca Sombra desenrolava um mapa maltratado. As linhas tortas indicavam corredores esquecidos, túneis de fuga e até passagens por baixo da capela desativada.
— Aqui é o pátio… esse risquinho leva até a sala dos arquivo morto... e esse túnel aqui... vai direto pro porão — disse Zeca, em tom grave, com o dedo tremendo.
Tiago Farinha cutucou Jonas. — Cês reparô que Tobias num apareceu hoje cedo? Nem pra contá o rango...
De repente, um grito cortou a cela:
— SOCOROOOO! ME AJUDA! PELO AMOR DE DEUS!
Todos congelaram. O som vinha do fundo do corredor, abafado pelas paredes grossas.
— Uai... o que será isso agora? — disse Jonas, apertando o farolete contra o peito.
— Deve sê só mais um sendo escorraçado na cela 5… lá só tem gente que perdeu o juízo, misturado com quem nunca teve. Ou então... é o velho Caco que saiu do porão. Tem gente que diz que ele morreu trancado lá embaixo e nunca foi enterrado direito. E desde então... assombra essa penitenciária e os carcereiro tudo — murmurou Zeca, com o olhar perdido como se visse mais do que os outros.
— Sei não, Sombra... esse grito foi diferente. Foi grito de quem tá pedindo salvação mesmo — retrucou Tiago, já de pé.
Otávio se levantou. — Bora se imbora pelos túnel, agora que já são quatro e meia. Se a sombra tá solta, vai pegá mais gente.
Benedito ajustou a correia da calça e disse: — Num quero morrê aqui sem sabê quem é esse tal de Velho Caco.
No corredor, virando a esquina rumo ao alçapão do túnel, eles encontraram Tobias — o carcereiro — amarrado numa cadeira velha, com os braços retorcidos por cordas de capim e um cartaz pendurado no pescoço:
"A sombra amarra carcereiro folgado."
Otávio olhou pro cartaz e fez o sinal da cruz. — Cruz credo... a coisa tá ficando feia.
Jonas encarou o túnel escuro à frente. A umidade dava cheiro de chão enterrado. As pedras pareciam respirar.
— Bora, que o porão chama a gente — disse Jonas, e todos desceram sem fazer mais perguntas.
Capítulo 4 – penúltimo Capítulo Visitas Proibidas
O relógio marcava 4h30 da manhã quando os cinco detentos chegaram diante do alçapão do porão. Trancado. Correntes grossas, três cadeados velhos, mas resistentes.
— Eita... trancado com capricho! — murmurou Jonas, examinando o metal.
— Isso aqui num abre nem com oração de pastor Manoel — resmungou Benedito, puxando uma barra de ferro.
Tiago Farinha procurou por alguma brecha. — Peraí, tem uma fissura aqui... talvez se bater com a pedra...
Zeca Sombra interrompeu. — Espera. Tem coisa errada.
Jonas olhou pra ele: — O quê, sô?
De repente, como um sopro, uma sombra atravessou o corredor correndo. Passou ligeira, quase sem som, como se fosse feita de névoa. Os olhos dos cinco se arregalaram.
— Agora a sombra corre! — gritou Jonas, acendendo o farolete.
— Vamo atrás e cerca ela! — respondeu Benedito, já em posição.
Tiago hesitou. — Isso tá estranho demais… parece mais uma armadilha.
Zeca olhou pro teto. — Será que tem alguém assombrando esse lugá?
Otávio deu um passo pra trás e sussurrou: — Talvez... por vingança.
A cela 3 estava aberta — coisa rara. Lá dentro, nada além de uma mensagem rabiscada na parede com tinta vermelha escorrida:
“A Luz incomoda quem vive na escuridão.”
Jonas sentiu um arrepio descer pelas costas. — E se a gente estiver cutucando coisa que não quer ser lembrada?
Eles seguiram pelo corredor até a capela desativada, onde ouviram um ruído atrás dos bancos abandonados. Quando chegaram ao altar, outro cartaz aguardava, pendurado com barbante:
“Quem mexe com o silêncio, acorda o que tá quieto.”
A tensão se misturava com curiosidade. Benedito estalou os dedos. — Tamo dentro, uai. Agora só falta coragem.
De volta ao alçapão, Jonas deu uma última olhada na corrente. Com uma chave antiga encontrada atrás do confessionário, ele abriu o primeiro cadeado.
Zeca Sombra, em voz baixa, recitou algo:
“A porta pro inferno num tem tranca... tem aviso. E nós ignoramos.”
Capítulo 5 final–Apenas justiça de um ex-carceleiro
Os corredores da Penitenciária São Bento estavam em frenesi. Gritos ecoavam de cela em cela. A rebelião tinha começado.
Seu Abílio, com o esfregão nas mãos, olhou para o caos ao redor e comentou com ar resignado:
— Agora erraram feio. Cês podiam tê escapado calado. Os presos tão em rebelião... e a sombra acordô de vez.
Eulália Montenegro, melindrosa e determinada, atravessava os portões da prisão com sua sabedoria em meio ao tumulto.Seus saltos ecoavam pelas pedras. Tinha vindo ver Tiago, mas encontrou outro rosto conhecido: Afonso, o ex-carcereiro infiltrado e irmão— a verdadeira “sombra” que rondava o presídio.
Afonso estava encostado numa pilastra, disfarçado. Reconheceu Eulália imediatamente.
— Ocê aqui? — perguntou ele, surpreso.
— Vim pra vê Tiago… mas se soubesse que o fantasma era ocê, tinha vindo antes com vela e reza — respondeu ela, em tom mordaz.
No locar de vigilancia Jonas observava com binuculos no alto quando viu o Sargento Almeida amarrado no refeitório, completamente imobilizado por lençóis rasgados e fita de pano.
No corredor , Cabo Farias já estava trancado numa cela — Jonas havia agido rápido, com ajuda dos amigos.
Otávio escrevia um aviso no chão com carvão:
“Nem toda sombra é maldição. Às vezes é só alguém esquecidinho pela justiça.”
Raimundo Pito, o cozinheiro, observava da cozinha com expressão de choque. — Uai... Afonso? Mas ele foi mandado embora tem tempo!
Zeca Sombra revelou o motivo:
— Afonso voltou pra vingar a demissão injusta. Ele conhecia os túneis, os segredos... Ele virou lenda viva!
Tiago olhou pra Jonas: — E agora, cês vão ajudá ele?
Eulália se aproximou de Afonso, segurando uma sacola com mantimentos e disse:
— Bora, vamos embora. A rebelião é cortina de fumaça.
Afonso hesitou, mas Clara de Sá chegou com o carro. Ela era mais do que a ex-namorada de Jonas — era irmã de Afonso.
— Entra logo, meu irmão. Essa loucura tem que acabar.
Raimundo deu um último olhar, enquanto fumaça começava a subir de algumas celas.
— Vai deixá a penitenciária pegá fogo enquanto o passado foge por trás das grades?
Jonas falou para todos :
—Afonso assombrou a gente pra mostrar que o sistema falha. Mas agora, é cada um com sua sentença.
O portão traseiro foi aberto com a chave escondida de Tobias.
Afonso entrou no carro, ao lado de Clara e Eulália.
O carro arrancou no meio da noite, sumindo por entre as montanhas de pedra.
Lá dentro, Otávio concluiu:
— O último julgamento num é de juiz nenhum... É do que cada um vai carregar no peito.
Agradeço a todos que leram essa história.]

