Clarão do Sertão.
No início da noite quente de janeiro de 1811, em Caruaru, Tereza é a primeira a notar um misterioso clarão no céu que interrompe o padrão estelar. A região, assolada por meses de seca, vê neste fenômeno um misto de desespero e esperança. Enquanto muitos temem um presságio de fim dos tempos, outros acreditam que o clarão pode ser um sinal divino de que a tão esperada chuva está a caminho. Com nuvens de chuva começando a se formar e a luz da lua cheia iluminando a cena, o povo aguarda ansiosamente o desfecho dessa noite repleta de misteriosos presságios, entre fé e incerteza.
História criada escrita por Edivaldo Lima.
Clarão do Sertão.
No início da noite quente de janeiro de 1811, em Caruaru, Tereza é a primeira a notar um misterioso clarão no céu que interrompe o padrão estelar. A região, assolada por meses de seca, vê neste fenômeno um misto de desespero e esperança. Enquanto muitos temem um presságio de fim dos tempos, outros acreditam que o clarão pode ser um sinal divino de que a tão esperada chuva está a caminho. Com nuvens de chuva começando a se formar e a luz da lua cheia iluminando a cena, o povo aguarda ansiosamente o desfecho dessa noite repleta de misteriosos presságios, entre fé e incerteza.
História criada escrita por Edivaldo Lima.
Uma história de minissérie
5 capítulos
Gênero: drama, mistério, comédia
personagem principal Tereza, personagens secundários Virgulino, Jagunço José, Jagunço Carlos, Coronel Raimundo, Olivia filha do Coronel, Carmem cartomante, Dona Cecilia, soldado Marques, beatas chirle , cristina, padre joão, Rosária prima, menino Vitor, menina jeane contadora de história Tião do acordeon,Doralice.
Uma história de minissérie
5 capítulos
Gênero: drama, mistério, comédia
personagem principal Tereza, personagens secundários Virgulino, Jagunço José, Jagunço Carlos, Coronel Raimundo, Olivia filha do Coronel, Carmem cartomante, Dona Cecilia, soldado Marques, beatas chirle , cristina, padre joão, Rosária prima, menino Vitor, menina jeane contadora de história Tião do acordeon,Doralice.
📖 História a Contar
Clique em um capítulo para ler:
Capítulo 1 –Mistério do Clarão do Sertão.
[Era uma noite quente no Nordeste, Sertão em Caruaru, dez de janeiro do ano de 1811. A seca já castigava a região fazia meses e o calor parecia não ter fim. O céu estrelado se estendia sem nuvens, mas um clarão estranho havia chamado a atenção de todos naquela tardezinha.
Virgulino, sentado no alpendre da casa de taipa, mastigava um pedaço de quebra-queixo enquanto conversava com sua prima, Rosária.
— Ôxente, prima, tu viu aquele clarão no céu mais cedo? — perguntou ele, com a boca cheia do doce. — Um negócio assim, esquisito... Num parece coisa boa não, viu.
Rosária, que estava sentada numa cadeira de balanço, abanando-se com um leque de palha, deu uma risadinha curta antes de responder.
— Ô meu primo, sei não... Mas no mundo a gente tem que tá preparado pra tudo, né? — disse, olhando para o céu escuro mais com o claridão que jamais havia visto em Caruaru, como se esperasse outra surpresa. — Quem sabe não é o fim dos tempos?
Virgulino arregalou os olhos e quase engasgou com o quebra-queixo.
— Vixe Maria, o fim dos tempos, Rosária? Num diga um troço desses assim não, mulher! — Ele engoliu seco, limpando o suor da testa com a manga da camisa. — Se for o fim dos tempos mesmo, eu vou ter que correr pra procurar o padre João. Preciso me confessar, né? Vai que...
Rosária riu de novo, dessa vez mais alto, mas logo ficou séria.
— E tu acha que só confessando resolve, Virgulino? Quem sabe o que tá por vir? Esse clarão aí pode ser coisa de Deus... ou coisa ruim.
Virgulino coçou a cabeça, pensativo, e suspirou.
— Pois eu num vou arriscar não, prima. Amanhã mesmo vou na igreja. E tu devia fazer o mesmo, viu? O padre João vai dizer o que é esse clarão, ou pelo menos rezar pra Deus deixar a gente em paz.
Mas antes que Rosária pudesse responder, um trovão ribombou ao longe, alto e seco, como se o céu estivesse rachando. Os dois se entreolharam, assustados. Não tinha nuvem nenhuma no céu, e o barulho parecia ter vindo de todos os lados.
— Ôxe, agora lascou de vez! — exclamou Virgulino, levantando num salto. — Isso aí foi trovão, é?
Rosária também se levantou, segurando o leque com força.
— Trovão? Com esse céu limpo? Tá doido, homem? Isso não é trovão não... isso é coisa de outro mundo!
Os dois ficaram em silêncio, escutando. De repente, um vento quente passou pela casa, levantando poeira e fazendo as portas baterem. A lamparina, que estava pendurada no alpendre, balançou, jogando sombras estranhas nas paredes.
— Vamos entrar, prima. Num tô gostando nada disso! — disse Virgulino, puxando Rosária pela mão.
Eles entraram na pequena casa, trancaram a porta e ficaram sentados à mesa, rezando baixinho enquanto a noite parecia ficar mais estranha a cada momento. Lá fora, o vento continuava, uivando como um lobo perdido no meio da caatinga.
Vitor estava encostado na janela, olhando pro céu que brilhava num clarão diferente, meio misterioso. Jeane, sentada no tamborete com a mão no queixo, percebeu o silêncio do amigo e perguntou:
— Ôxe, Vitor, que foi que tu tá aí, todo pensativo? O que tá vendo nesse céu de Caruaru?
Ele olhou pra ela com a testa meio franzida, coçando a cabeça, e respondeu:
— Jeane, me diga uma coisa... por que será que tá esse clarão danado no nosso sertão? Será que é coisa de Deus ou algum encanto da natureza?
Jeane, que era conhecida por ser uma excelente contadora de histórias, deu um sorriso miúdo e disse:
— Ah, meu amigo, esse mundão de Deus é cheio de mistério. Mas uma coisa é certa: a gente tem que tá preparado pra tudo! Dizem os profetas do sertão que, quando Jesus voltar, o céu vai se encher de luz e as trombetas vão tocar. Quem sabe esse clarão não é um aviso, hein?
Vitor arregalou os olhos, deu um passo pra trás e coçou a cabeça mais uma vez, como quem tava tentando juntar os pensamentos:
— Vixe, será que é hoje o dia, Jeane? Será que a gente vai ver Deus de pertinho?
Jeane suspirou, olhando pro céu com um brilho nos olhos, e respondeu:
— Não sei, Vitor. Só sei que o céu tá bonito demais. Parece até que tá chamando a gente pra refletir. Os mais velhos sempre dizem: quando o tempo chegar, não vai ter mais tempo pra arrependimento.
Vitor balançou a cabeça concordando, mas logo soltou uma risada meio nervosa:
— Pois é, Jeane. O Tião do Acordeon e o Virgulino que se cuidem, viu? Esses cabras vivem mais na bagaceira do que com o joelho no chão.
Jeane deu uma risada gostosa, mas logo falou séria:
— E a gente também, Vitor. Não vá se esquecer disso, cabra! Que ninguém é santo nessa vida.
Os dois ficaram em silêncio por uns instantes, apenas admirando o céu iluminado. O clarão parecia aumentar, quase como um convite pra sonhar ou talvez esperar algo maior. O vento soprava de leve, trazendo consigo o cheiro da terra seca do sertão, que parecia sussurrar histórias antigas de fé e esperança.
Vitor, quebrando o silêncio, disse:
— Sabe, Jeane... se for hoje, eu só espero que Deus tenha paciência com a gente. O sertanejo até peca, mas é trabalhador e tem um coração grande.
Jeane sorriu, olhando pra ele:
— E é isso que conta, Vitor. Deus conhece o coração do povo. Agora, bora pegar o café que tá esfriando, porque, com clarão ou sem clarão, a vida segue e o gado não espera!
Os dois riram, e o sertão seguiu seu curso, iluminado por aquele céu que parecia guardar segredos divinos. ]
Capítulo 2 –Conversa com a Cartomante:
[ Tereza, intrigada com o céu do sertão de Caruaru, caminhava depressa, olhando pra cima. O clarão no céu parecia diferente, meio enigmático, e aquilo não saía da cabeça dela. Foi então que decidiu ir à casa de Carmem, a cartomante da vila, conhecida por desvendar mistérios e dar conselhos certeiros.
Chegando à porta da casa simples, de paredes de barro e janela de madeira, Tereza bateu com força, ansiosa.
— Ô de casa! Carmem, é tu aí? Abre essa porta!
Carmem abriu a porta devagar, com um sorriso no rosto e o lenço amarrado na cabeça. Ela sempre parecia saber mais do que dizia.
— Boa noite, Tereza. Que foi que te trouxe aqui, mulher?
Tereza cruzou os braços e respondeu, com um olhar desconfiado:
— Boa noite, Carmem? Boa tarde, isso sim! Tu não tá vendo esse céu, não? Tá esquisito demais... Parece que alguma coisa grande tá pra acontecer. Tu não acha?
Carmem deu uma risada baixa, meio misteriosa, e fez um gesto com a mão chamando Tereza pra entrar.
— Pois é, Tereza... Esse céu tá com um mistério que só as cartas podem contar. Entra, senta aqui. Vou te servir um café quentinho e um cuscuz que fiz agora mesmo. Assim a gente conversa melhor.
Tereza entrou desconfiada, olhando ao redor. A casa de Carmem sempre tinha um ar diferente, com aquelas velas acesas e os baralhos de cartas espalhados pela mesa. Sentou-se em um tamborete perto da mesa e olhou fixamente pra Carmem.
— E o que é que essas cartas suas têm pra me dizer, hein? Será que é coisa de Deus ou algum aviso que vem lá de cima?
Carmem colocou o café na mesa, junto com um prato de cuscuz fumegante, e falou com calma:
— Primeiro, toma esse café, mulher! Come esse cuscuz que tá bom demais. Não se pode desvendar mistérios de barriga vazia, né? Depois a gente vê o que as cartas têm pra dizer.
Tereza bufou, meio impaciente, mas acabou aceitando. Pegou um pedaço de cuscuz e tomou um gole do café forte, que parecia ter sido feito na hora.
— Tá bom mesmo, viu? Mas, Carmem, vamos logo ao que interessa. O que tu acha que tá acontecendo com esse céu? Parece coisa fora do normal…
Carmem sentou-se de frente pra Tereza, pegou as cartas e começou a embaralhá-las com cuidado, enquanto falava:
— Tereza, o céu do sertão sempre foi assim: cheio de mistérios. Dizem que ele anuncia o que tá por vir. Pode ser coisa boa, pode ser aviso pra gente se preparar. Mas quem sabe mesmo é Deus. As cartas só dão um sinal.
Tereza olhou, nervosa, enquanto Carmem colocava as cartas na mesa, uma por uma. A cartomante fechou os olhos por um momento, como se estivesse ouvindo algo que só ela podia entender. Quando abriu os olhos, disse com firmeza:
— Aqui tá dizendo que mudanças tão vindo. Coisa grande, Tereza. Pode ser pra você, pode ser pra todo mundo. Mas é coisa do destino. Quando o céu fala assim, a gente tem que prestar atenção.
Tereza arregalou os olhos e perguntou, quase sussurrando:
— Mudança? Que mudança, Carmem? É coisa boa ou coisa ruim?
Carmem deu um sorriso enigmático e respondeu:
— Isso só o tempo vai dizer, mulher. Mas escuta aqui: fica de olho nos sinais. O sertão não dá ponto sem nó. E, quando a natureza fala, a gente tem que escutar.
Tereza suspirou, ainda inquieta, mas um pouco mais aliviada. Terminou o café e se levantou, olhando pro céu pela janela.
— Pois é, Carmem. Vou ficar atenta, viu? Mas vou te dizer: se for coisa grande mesmo, espero que seja coisa boa. Que o sertanejo já sofre demais nesse mundão.
Carmem riu e falou, enquanto guardava as cartas:
— E sofre, minha filha, mas também é forte. Vai em paz, Tereza. E lembre-se: com fé em Deus, tudo se ajeita.
Tereza saiu da casa de Carmem, ainda pensando no que havia ouvido. O clarão no céu continuava, iluminando o sertão silencioso, como se quisesse contar segredos que só o tempo desvendaria.]
Capítulo 3– Pedido de namoro no clarão do sertão
[Naquela noite arretada, o céu do sertão tava com um clarão esquisito que deixava todo mundo encucado. Parecia que a lua tinha resolvido acender uma lanterna de pilha direto na cabeça do Coronel Raimundo, que tava sentado na varanda, pitando o cachimbo e olhando pro céu como quem procura resposta pra tudo.
— Pai, o que pode ser esse fenômeno no céu? — perguntou Olívia, com a boca cheia de cuscuz e manteiga, tentando entender o fenômeno.
O Coronel coçou o bigode grosso, ajeitou o chapéu e respondeu com aquele tom de sabedoria que só coronel de novela tem:
— Num sei, minha fia. Mas o mundo é cheio desses "catinguelês" que ninguém entende... A gente só aceita e espera não ser coisa de outro mundo.
Foi aí que Soldado Marques chegou, todo lampeiro, com o uniforme que parecia mais engomado do que o juízo de um seminarista, e cumprimentou:
— Boa noite, Coronel Raimundo! Boa noite, dona Olívia! Vocês tão aqui também intrigados com esse clarão no céu?
Olívia deu uma risadinha tímida que mais parecia um chiado de caldeira, trocou olhares com o soldado e respondeu:
— E você, soldado, achou bonito esse clarão? Parece até bom pra tomar banho no rio, né não?
Aí foi que deu nó na cabeça de Marques. O cabra ficou com o pensamento longe, imaginando Olívia no rio, aquela água cristalina escorrendo pelo corpo dela... Parecia até que ele tava vendo um filme em câmera lenta onde via as curvas de violão do corpo dela. Só voltou pra realidade quando o Coronel deu um pigarro tão forte que parecia trovão.
— Tome compostura, homem! — esbravejou o Coronel, com a sobrancelha franzida. — Sei muito bem o que tu tá pensando, seu sem-vergonha!
Marques ficou vermelho que nem um tomate maduro e tentou se justificar:
— Coronel, pelo amor de Deus, o senhor sabe que eu respeito demais a sua filha! Nunca, em hipótese nenhuma, eu ia... ia... pensar em...
O Coronel cortou a fala do soldado com aquela autoridade de quem manda até no vento:
— Pois fique sabendo: o cabra só toma banho com minha filha no rio depois de casado. E olhe lá!
Olívia, que tava mais ansiosa do que formiga em tampa de garrafa de mel, deu um sinal discreto pro soldado. Era o momento dele criar coragem e pedir logo ela em namoro antes que o Coronel resolvesse trocar o cachimbo por uma espingarda.
Na verdade, os dois já tinham combinado isso no sábado anterior. Ela até tinha prometido que, se ele criasse coragem, ia convencer o pai a promovê-lo de soldado a major. Isso deixou Marques mais animado que bode em feira, mas ele sabia que convencer o Coronel Raimundo não ia ser tarefa fácil.
Enquanto Olívia se escondia atrás da janela, torcendo mais do que torcida de time em final de campeonato, Soldado Marques respirou fundo, ajeitou o cinto e caminhou até o Coronel.
— Coronel Raimundo, posso lhe falar umas palavras sinceras? — começou ele, nervoso.
— Fale, mas fale direito, que tô de olho em você, cabra! — respondeu o Coronel, estreitando os olhos.
— Coronel, o senhor sabe que eu gosto muito da sua filha Olívia. É um sentimento puro, bonito, que vem lá do fundo do meu coração... Eu queria pedir a permissão do senhor pra namorar com ela. Prometo que vou respeitar, cuidar dela e... e nunca mais vou ser visto no cabaré da Dona Cleide Pimenta! Palavra de honra!
O Coronel levantou as sobrancelhas, olhando o soldado de cima a baixo, como quem avalia um boi na feira. Depois de um silêncio que parecia durar uma eternidade, ele falou:
— Então quer dizer que tu tá dando tua palavra, né? Que vai fazer minha filha feliz e parar com essas estripulias no cabaré?
— Sim, senhor Coronel. É meu maior sonho! — respondeu Marques, suando mais que tampa de panela quente.
O Coronel fez uma pausa dramática, olhou pra porta e gritou:
— Ô, Olívia! Venha cá, minha filha!
Olívia entrou com um sorriso tão grande que parecia que tinha engolido a lua. O Coronel olhou pra ela e perguntou:
— Minha filha, esse cabra aqui tá pedindo pra namorar contigo. Ele diz que vai te respeitar, te cuidar e nunca mais vai pisar no cabaré. O que é que você me diz?
Olívia, sem nem disfarçar a felicidade, respondeu:
— Eu aceito, pai!
O Coronel balançou a cabeça e decretou:
— Pois tá feito! Pode beijar minha filha, mas com respeito, viu? E nada de ficar inventando moda aqui na minha frente.
Soldado Marques e Olívia se beijaram ali mesmo. O Coronel voltou a se sentar na cadeira de balanço, olhando pro clarão no céu e murmurando:
— Esse clarão no céu tá é trazendo coisa boa... Só espero que não venha junto um disco voador pra me levar daqui.
E assim, o casal ficou namorando, contemplando o céu sertanejo, enquanto o Coronel, desconfiado, ficava de canto, rezando pra que o soldado não desse um passo maior que a perna. ]
Capítulo 4 – Penúltimo Capítulo: Ruivos do Sertão
[O sertão tava esquisito naquela noite. O clarão da lua cheia alumiava o céu como nunca antes, deixando todo mundo com a pulga atrás da orelha.
Na beira do rio, os jagunços Zé e seu compadre Carlos tavam despreocupados, pescando e proseando. Zé, com um pedaço de curau de milho na mão, olhava pro céu com as sobrancelhas franzidas.
— Vixe, cumpade, esse clarão tá clareando mais e mais, parece que o céu tá pegando fogo. Ocê já viu coisa dessa? — perguntou Zé, mordendo o curau.
Carlos, ajeitando a linha da vara de pesca, deu um riso frouxo e respondeu:
— Eita, Zé! Tá esquisito mesmo, visse? Mas deve de ser coisa de lua cheia. Nóis tá aqui de boa, pescando, jogando conversa fora... Melhor aproveitar, homi.
Zé largou o curau e coçou a cabeça, desconfiado.
— Sei não, compadre. Esse clarão tá me dando um arrepio que nem sei explicar... Num era melhor nóis ir embora? Tá parecendo coisa ruim.
Carlos soltou uma risada curta e meio debochada.
— Ave Maria, Zé! Tá com medo de clarão, é? Um clarão bonito desse é pra nóis ficar admirando, não pra sair correndo. Sossega, homi!
Foi quando um som esquisito veio lá do meio do mato. Um uivo longo e assustador ecoou pela noite. Os dois se entreolharam, e Zé engoliu seco.
— Cumpade... será que é lobisomem? — perguntou Zé, com a voz tremendo.
Carlos, que antes tava cheio de coragem, agora parecia mais balançado que folha em ventania.
— Vixe, cumpade, sei não... Mas, óia, acho que ocê tá certo. Melhor nóis pegar o rumo de casa antes que o bicho apareça. Vai que tá com fome...
Enquanto isso, escondida no mato perto do rio, Doralice, uma mulher solteira de olhos cor de mel e cabelo cacheado, fazia uns barulhos de uivo que aprendeu com a avó pra espantar pescador curioso. Ela, que vivia sozinha numa tapera por ali, observava os dois homens com olhar desconfiado. Murmurou pra si mesma:
— Esses cabras... sempre com essas histórias de lobisomem. Desde menina, minha vó me ensinou que um uivo de lobo espanta até jagunço. Homi é bicho bobo, só sai correndo quando o medo aperta.
Doralice, que tinha ido ali só pra fazer suas necessidades, aproveitou o clarão do sertão pra tomar um banho no rio. Enquanto mergulhava, pensava no mistério que rondava aquela noite. O clarão parecia iluminar mais do que só o céu. Tinha algo esquisito no ar... algo diferente.
Já os jagunços, agora a cavalo, galopavam apressados pela estrada, com o medo estampado na cara. O silêncio entre os dois só era quebrado pelo som dos cascos no chão e as vozes cautelosas.
— Estranho aquele uivo, né, compadre? — disse Zé, ainda olhando por cima do ombro.
— Estranho demais, Zé. Se nóis contar isso pra alguém, vão dizer que nóis tá inventando história ou que bebeu demais. — Carlos deu uma risadinha nervosa, mas o medo tava claro no tom da voz.
— Ainda bem que saímos antes que o lobisomem aparecesse. — Zé ajeitou o chapéu, tentando parecer confiante, mas a tremedeira na voz entregava o susto.
Carlos deu um aceno de cabeça, concordando.
— É mesmo, compadre. Mas veja só... nóis dois armado e nem lembramos de puxar o trabuco. Que vergonha, visse? O medo deu um nó na gente, que só vendo...
Enquanto isso, Doralice, já de volta à sua tapera, observava o clarão pela janela. A noite parecia carregar segredos que só o sertão sabia guardar. Ela sorriu de canto, como quem entende mais do que aparenta.
— O clarão do sertão sempre traz mistério... e história pra contar. — murmurou, enquanto fechava a porta e se preparava pra dormir.
Lá fora, os uivos continuavam, e o clarão ficava cada vez mais forte, alumiando o sertão e os mistérios que ele escondia. ]
Capítulo 5 – final: Mistério Revelado — Chuva de Benção no Sertão
[Com o passar das horas, as nuvens escuras de chuva começaram a se formar no céu, misturando-se com o clarão da lua cheia. Aquilo deixou o povo do sertão encabulado, mas ao mesmo tempo com um sorriso de esperança no rosto. Será que o clarão era um aviso de Deus? Será que, finalmente, ia chover? Uma chuva forte, capaz de durar semanas ou meses, era tudo o que o povo precisava para livrar o sertão da seca implacável e do calor abafado que castigava a região.
O Padre João, junto com as beatas Chirle e Cristina, tomou a frente. Com a ajuda de Tião Acordeon, outros sanfoneiros e cantores da região, saíram da igreja em procissão. Caminhando pelos bairros, oravam e cantavam, pedindo a Deus um sinal para desvendar aquele mistério. Aos poucos, mais gente foi se juntando à novena. O som das preces e das sanfonas ecoava pelo sertão, como se cada nota fosse uma súplica enviada ao céu.
Até as mulheres do cabaré, lideradas por Dona Cleide Pimenta, apareceram naquela noite, vestidas de forma comportada, para acompanhar a procissão. Era como se o clarão no céu tivesse tocado o coração de cada pessoa. Entre os moradores que se uniram à novena estavam Tereza, Virgulino, sua prima Rosária, os jagunços José e Carlos, o Coronel Raimundo, Olivia e o soldado Marques, o jovem casal de namorados, Carmem Cartomante, Dona Cecília, o menino Vitor, a menina Jeane e tantos outros. Naquele momento, Deus parecia estar reunindo todos para um só propósito.
Tereza comentou, olhando a multidão:
— Vixe, comadre, como essa novena tá ganhando força! Cada bairro que nóis passa, mais gente se junta.
Virgulino, que caminhava ao lado, respondeu:
— Pois é, Tereza. Nesse momento, todo mundo tá com o mesmo objetivo. Quem diria, hein? Agora até eu fiquei sabendo que o soldado Marques e a Olivia tão de namoro.
Rosária sorriu de canto e acrescentou:
— É verdade, primo. Ele foi até o Coronel Raimundo pedir a mão dela em namoro. Foi bonito de ver.
Virgulino deu uma risada:
— Agora ele toma jeito e para de ir no cabaré. Assim sobra mais mulher pra nóis, né, Rosária?
Chirle, ouvindo a conversa, olhou para Virgulino e brincou:
— Ei, Virgulino, até que ocê tá bem ajeitado hoje, viu? Quando quer, fica apessoado.
Cristina, que caminhava ao lado, deu-lhe um cutucão:
— Chirle, menina, foco na oração! Vamo largar de pensar em homem, visse?
Enquanto isso, o menino Vitor puxou conversa com a menina Jeane:
— Ocê acha que vai chover mesmo com essas nuvens?
Jeane olhou para o céu, confiante:
— Acho que sim, Vitor. Esse clarão é um sinal de Deus. A chuva vai vir, pode esperar.
Mais à frente, o Coronel Raimundo olhou para Dona Cleide Pimenta, que estava de roupa comportada, e fez uma brincadeira:
— Dona Cleide, mulher, vestida assim, ocê até dá pra ser primeira-dama, viu?
Dona Cleide riu e respondeu:
— Pois é, Coronel. Só assim, com roupa comportada, os homens de Caruaru olham pra nóis diferente.
Enquanto isso, os jagunços José e Carlos caminharam juntos e perceberam uma mulher ao longe, com cabelos cacheados e olhos cor de mel.
— Cumpade, olha ali... que prenda linda, viu? — disse José, admirado.
Carlos concordou:
— Mulherão, corpo de violão! Será que é solteira?
Doralice, que escutou o comentário, soltou uma risada baixa:
— Mal sabem eles que fui eu que ruivei na mata pra espantar esses dois quando tavam pescando...
Mais atrás, Carmem Cartomante puxou conversa com Tereza:
— Tá vendo, Tereza? Minhas cartas não mentem. Olha aí o casal: Olivia e o soldado Marques. Já tava escrito.
Dona Cecília, que ouvia a conversa, sorriu:
— Esses dois sempre se gostaram. Que Deus abençoe o namoro deles.
E assim, a procissão continuava, ganhando força a cada passo. Pessoas conversavam, cantavam e oravam, todas com o mesmo objetivo: pedir a Deus que aquele clarão fosse o prenúncio de chuva para o sertão. Ao final de horas de caminhada, todos retornaram à praça da igreja. Foi então que o céu, antes iluminado pelo clarão, se abriu. A chuva começou a cair, forte e abençoada, molhando a terra seca de Caruaru. O clarão desapareceu, mas o sorriso nos rostos das pessoas ficou.
Todos se abraçaram, rindo e chorando de alegria. Era como se o mistério do clarão tivesse sido solucionado: ele veio para unir as pessoas e fortalecer a fé. Naquele momento, o sertão não era só terra rachada, mas terra abençoada.
Tereza olhou para o céu e comentou:
— Minha gente, olha só... Deus é mesmo misericordioso. Nunca imaginei ver tanta gente unida assim.
O Padre João, emocionado, ergueu as mãos e falou:
— Hoje, Deus nos mostrou que a fé e a união são as maiores forças que existem. Essa chuva é mais do que água: é a resposta às nossas preces e a prova de que, quando o povo se junta, o milagre acontece.
Naquela noite, o sertão não apenas recebeu a benção da chuva, mas também viu corações serem transformados. Cada pessoa voltou para sua casa molhada de chuva, mas aquecida de fé. O clarão desapareceu, mas deixou uma lição que ecoaria por muito tempo: no sertão, onde há união e busca por Deus, há sempre esperança.
Reflexão Final:
O clarão no céu não era apenas um fenômeno. Ele veio para lembrar que, mesmo nas dificuldades, a união e a fé podem transformar qualquer situação. No sertão, onde o solo é seco e a vida é difícil, Deus mostrou que a chuva é mais do que água. É renascimento, é esperança. No fundo, o verdadeiro mistério do clarão não era a sua origem, mas a mensagem que ele trouxe: juntos, somos mais fortes. E onde há fé, há milagre.
Agradeço a todos que leram esta história. ]

