História Evolução dos Vampiros

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Evolução dos Vampiros

Na efervescência da década de 1950, entre rádios chiando jazz e cidades movidas por fé e desconfiança, vampiros evoluídos tentam se adaptar ao mundo moderno. Eles não vivem mais nas sombras — criam famílias, bebem taças especiais para domar instintos, e buscam viver em paz com os humanos.

Em meio a romances intensos, caçadores desconfiados e tradições ancestrais, surge Felício, um bebê vampiro nascido sob a lua cheia, trazendo esperança de convivência entre mundos. Ao seu redor, personagens como Cloves, Catrina, Chirle e Eduart enfrentam desafios, paixões e revelações.

Com um Brasil rural e urbano como pano de fundo, esta é uma história de reconciliação entre o sobrenatural e o cotidiano — onde amor, respeito e escolhas moldam uma nova era: a era dos vampiros conscientes.

História criada escrita por Edivaldo Lima.

Uma história de Minissírie

história em 38 Capítulos

Gênero: Sobrenatural,Romance Gótico,Suspense,ficção

personagem principal: Cloves,Catrina,Chirle,Eduart personagem secundários:Vanderson taxisista,cientista chamado Ranvel.avô Alavi de Chirle,avô Asfrônio de Eduart,Jovem Ric,Jovem Vitorugo,seu Lázaro ,Dona Noemia,Silvio estilista,Clenilson mordomo amigo,Niclav amigo de Eduart,Telma,Anvel,Seu Elzebio,Dona Esperança,caçadores Jordan,Alvereque,Alfre.

📖 História a Contar

[Capítulo 1 — O Suspiro da Madrugada

Era uma madrugada fria e silenciosa em Copacabana 3 de junho década 1950 . Das profundezas da Transilvânia, chegava Eduart, envolto em um manto preto que ondulava como sombras ao vento. Ao seu lado, fiel como a lua às noites escuras, o mordomo Clenilson abria as portas do antigo casarão alugado, enquanto o motorista estacionava discretamente.

— Quando os primeiros raios de luz clarearem esta cidade, certifique-se de que Rosemeri não abra as janelas — murmurou Eduart com sua voz grave e pausada. — A claridade do céu me incomoda. Preciso de um par de óculos escuros, um Raibam, com urgência.

— Pode deixar, senhor Eduart — respondeu Rosemeri, a empregada da casa, em tom respeitoso. — Vou manter tudo fechado. Deseja algo para o café?

— Ovos Benedict, chá verde, algumas frutas. Uvas, se houver — respondeu ele com elegância fria.

Clenilson, sempre solícito, inclinou levemente a cabeça:

— Partirei imediatamente em busca dos seus óculos, senhor.

— Faça isso, meu amigo. Sua lealdade é apreciada — disse Eduart, esboçando um sorriso quase imperceptível.

De repente, a calma da manhã foi interrompida por uma voz doce e vibrante.

Na sacada da casa ao lado, uma jovem de minissaia acenava com entusiasmo.

— Bom dia, vizinhos! — disse ela com um sorriso radiante.

Eduart, fitando a moça com olhos penetrantes, respondeu:

— Um... novo pescoço. Quero dizer, bom dia, bela dama. Está solteira ou casada?

— Solteira, até encontrar minha alma gêmea — respondeu Chirle com um brilho nos olhos.

— Interessante... muito interessante — disse Eduart, virando-se calmamente para entrar. — Até mais, senhorita.

— Até — respondeu ela com um sorriso intrigante.

Já dentro da casa, Eduart recostou-se no sofá e fitou o teto, pensativo.

— Preciso saber tudo sobre essa mulher... Ela tem classe.

Capítulo 2 — Olhares e Suspeitas

A mudança de Eduart não passou despercebida. Desde cedo, os moradores da rua observavam com olhos atentos cada item descarregado no casarão de estilo colonial. Louças finas de porcelana, cadeiras com almofadas bordadas à mão e quadros de valor com molduras douradas faziam parte do espetáculo improvisado.

— Malandro, esse aí tem grana... Olha o tamanho daqueles quadros! — comentou Ric, um jovem curioso que morava na esquina, enquanto mascava chiclete com ar suspeito.

— Daria uma boa grana se a gente vendesse algumas dessas peças lá na comunidade... — murmurou Vitorugo, com um brilho travesso nos olhos.

Mas antes que as ideias descambassem para planos imprudentes, Dona Jasmine, a matriarca da rua, interveio com a autoridade de quem já vira muitas luas e amanheceres:

— Não venham pegar o que é dos outros, seus bobos. Trabalhem e conquistem! Se ele tem tudo isso, é porque lutou e venceu. Nada cai do céu.

Seu tom firme fez os jovens recuarem, e os olhares voltaram a se encher de mistério e especulação. Quem era esse homem que chegava com tantas riquezas e tanta discrição? O bairro estava prestes a mudar — e todos sentiam que havia algo mais profundo por trás daquela mudança silenciosa.

Capítulo 3 — À Beira da Tentação

Na sala ampla banhada pela penumbra do amanhecer, Eduart folheava calmamente o jornal impresso, enquanto o aroma suave do chá verde flutuava pelo ar. Seu semblante, sempre misterioso, estava mais relaxado — talvez um sinal dos encantos tropicais começando a se infiltrar em sua alma milenar.

— Silvio, monte-me um look de verão, por favor — disse Eduart, com o tom de quem não fazia pedidos, mas pronunciava ordens com gentileza calculada.

Silvio, o mordomo especializado em estética e bom gosto, abriu levemente um sorriso:

— Claro, senhor. Deseja algo casual, esporte... ou aquele visual que bate o coração das mulheres?

Eduart ergueu o olhar, interrompendo a leitura de uma manchete sobre moda carioca.

— O que... bate o coração das mulheres — murmurou, como se saboreasse as palavras. — Sim... é esse. Prepare esse. Vou à praia de Copacabana.

Levantou-se lentamente, ajeitou os punhos da camisa de linho branco e olhou pela janela semicerrada, onde a luz do sol tentava invadir seus pensamentos.

— Diga ao motorista para tirar o carro — disse, com a voz envolta em charme e mistério.

Silvio assentiu, saindo com passos decididos para preparar o veículo e o figurino. Enquanto isso, Eduart deu mais uma olhada na manchete: “Moda praiana e o poder dos detalhes — o charme está nos olhos e nas intenções.”

Naquele momento, Eduart sabia que não seria apenas uma visita à praia... mas talvez o início de uma conquista.

Capítulo 4 — Convite Sob o Sol

Sentado à sombra de um guarda-sol elegante, Eduart observava a movimentação da praia como um maestro silencioso diante de sua orquestra. Ao seu lado, Clenilson repousava com os braços cruzados, o olhar atento à expressão contemplativa de seu patrão.

— Está gostando, senhor? — perguntou Clenilson, rompendo o silêncio com gentileza.

— Muito. Copacabana é viva, e as mulheres... encantadoras. Há uma energia que pulsa aqui — respondeu Eduart, com o olhar distante, como se enxergasse além do calor e da areia.

Silvio, de óculos espelhados e camiseta branca minimalista, surgiu com pressa controlada, apontando sutilmente com o queixo:

— Senhor Eduart... olhe, é Chirle.

Eduart ajeitou os cabelos com suavidade e estreitou os olhos. Ao avistá-la, seu tom se aprofundou:

— Que mulher... Envie-lhe este bilhete — disse, estendendo um papel perfumado com letras desenhadas à mão. — Pretendo cortejá-la com um jantar. Quero algo impecável. Para dois. Romântico, mas refinado.

Clenilson assentiu com leveza.

— Pode deixar. Farei com que Bela capriche. Ela conhece o gosto do senhor como ninguém.

Bela era mais do que cozinheira: era guardiã dos sabores que Eduart apreciava em noites de sedução e reflexão. Já instruída por olhares silenciosos, começaria os preparativos com delicadeza e paixão.

Silvio aproximou-se de Chirle com um sorriso contido:

— A senhorita está convidada para um jantar... Eduart gostaria de vê-la.

Chirle arqueou a sobrancelha, surpresa.

— Mas quem é Eduart? Aquele ali...? — perguntou, apontando discretamente com o olhar.

Ao longe, Eduart acenava com elegância, como quem reverencia sem se entregar.

— Quando vai ser? — disse Chirle, com brilho nos olhos.

— Amanhã — respondeu Silvio, já sentindo que o pôr do sol seguinte traria mais do que uma simples refeição.

Capítulo 5 — À Mesa, Entre Segredos

A noite se aproximava com suavidade, como uma cortina que lentamente encobre o palco. No casarão de janelas pesadas, Bela — a cozinheira de confiança — já estava em plena alquimia: azeite extravirgem, ervas frescas, frutos do mar selecionados e uma sobremesa com toque francês para o jantar de amanhã tudo com os preparativo como senhor Eduart gosta.

— Quero que o jantar seja uma experiência — disse Eduart, com o olhar perdido entre memórias e expectativas. — Ela tem algo… inexplicável. Como se tivesse vivido comigo em outra vida.

Clenilson ajeitava os talheres de prata sobre a toalha de linho quando respondeu, num tom sereno:

— O senhor parece mais apaixonado do que nos tempos de Viena.

Silvio entrou em cena, trazendo dois possíveis trajes para o anfitrião da noite: um terno azul petróleo com camisa de seda preta… e um conjunto mais leve, ainda assim imponente, com detalhes barrocos sutis.

— Já escolheu com qual vai encantá-la, senhor Eduart? — perguntou com tom cúmplice.

— O primeiro — disse ele, decidindo com o instinto de quem seduz com presença antes mesmo das palavras.

Enquanto o vinho era colocado para gelar para noite especial de amanhã e as velas escolhidas com rosas com cuidado, por Bela na casa vizinha,Chirle em casa olhava o bilhete pela quinta vez. As letras elegantes diziam:

“Para almas que buscam conexão sob o véu da noite — um jantar, dois corações. — Eduart.”

Ela sorriu discretamente, escolhendo seu vestido vermelho de alças finas, talvez sem saber que aquela noite mudaria o curso de tudo.

Capítulo 6 — À Espera da Noite

O dia do jantar havia chegado, e a casa exalava mistério e expectativa. Eduart, em seu quarto escurecido pelas cortinas pesadas, observava a cena pela janela entreaberta. No quintal da casa ao lado, Chirle dançava balé, leve como o vento, seus movimentos desenhando poesia no ar.

— Essa mulher é especial... — murmurou Eduart, em um tom quase reverente. — Ela me lembra Elvira... minha ex da Transilvânia. Até os cabelos ondulados e negros são iguais. Essa mulher... deve ser quente como pimenta em noite de amor.

Seu olhar permanecia fixo, fascinado. Era como se o passado e o presente colidissem em um só corpo.

Chirle, percebendo discretamente o olhar de Eduart, acenou com leveza. Ele respondeu com um aceno mais intenso, como quem se permitia ser visto pela primeira vez.

Clenilson entrou na sala em silêncio, encontrando o patrão absorto.

— Clenilson... e quando ela souber que sou vampiro? — perguntou Eduart, sem tirar os olhos de Chirle.

O mordomo pousou a bandeja de prata com o vinho reservado para o jantar e respondeu com a firmeza serena que o caracterizava:

— Uma hora ela vai ter que saber. Mas o amor, senhor... o amor mostrará que será vocês dois. Mesmo entre mundos diferentes.

Eduart respirou fundo, como se tentasse afastar o peso da eternidade por um instante. Naquela noite, tudo poderia mudar.

Capítulo 7 — Revelações à Luz das Velas

A sala de jantar estava tomada por uma atmosfera sedutora e misteriosa. As velas lançavam sombras suaves sobre os móveis antigos, enquanto Bela servia os pratos com precisão quase ritualística. Eduart, sentado em seu lugar de costume, observava cada detalhe — principalmente os olhos de Chirle, que brilhavam sob a luz dourada como se escondessem séculos de histórias.

Ela chegou com um vestido vermelho que parecia ter sido feito para aquela noite. Ao sentar-se, sua postura era serena, mas seu olhar transbordava curiosidade e algo mais... algo que Eduart não soubera nomear ainda.

— Este jantar... parece um sonho — disse Chirle, com um sorriso contido.

— Talvez seja — respondeu Eduart. — Ou... o início de um despertar.

Eles conversaram sobre Copacabana, sobre a vida moderna, sobre música e dança. Mas aos poucos, a atmosfera se tornava mais densa, como se o passado estivesse sendo convocado.

Lá fora, a lua cheia subia aos poucos, e dentro de ambos, uma verdade pedia passagem.

De volta à casa dela, horas antes do jantar, Chirle havia estado na banheira de mármore. Pétalas de jasmim flutuavam na água morna, e seu corpo repousava com elegância ancestral. Em voz baixa, ela havia falado:

— Ele é um vampiro... talvez meu amor... aquele que ainda não tive.

Seu olhar vagava entre o teto e a memória distante de uma cidade vizinha à velha Transilvânia — Albaneth, terra dos vampiros evoluídos, onde sangue e emoção coexistiam em harmonia rara.

Na mesa, Eduart finalmente cedeu à urgência de seu coração:

— Chirle... há algo que precisa saber. Eu não sou como os outros...

Mas antes que ele terminasse, ela pousou a mão sobre a dele e sussurrou:

— Eu sei, Eduart... e também não sou como os outros.

Seus olhos se encontraram, e naquele instante, o tempo parou. O segredo que poderia separá-los... era, na verdade, o que os unia.

Capítulo 8 — Vínculos Imortais

Desde o jantar, Chirle passou a frequentar o casarão com naturalidade. Entrava trazendo flores, livros... e numa tarde chuvosa, apareceu com uma caixa de madeira antiga, coberta por um pano de seda roxo.

— São retratos — disse ela, colocando a caixa sobre a mesinha do hall. — Do meu avô... queria te mostrar algo.

Eduart abriu a tampa como se tocasse relíquias sagradas. Fotografias em sépia mostravam homens de expressão séria, com casacos compridos e olhos profundos. Em meio às imagens, lá estavam: o avô de Chirle e o avô de Eduart, lado a lado, sorrindo em frente a uma construção gótica.

— Eles eram amigos... — sussurrou Eduart, surpreso. — Isso... isso é impossível. Ou é o destino jogando sua própria carta?

— Talvez seja apenas o tempo relembrando quem somos — respondeu Chirle, com um brilho nos olhos que parecia guardar segredos do mundo antigo.

Eduart riu, quebrando o clima contemplativo com seu charme típico:

— Me diga, então, minha dama... com tanto charme e segredos, como faz quando precisa... morder um pescocinho?

Chirle soltou uma risada leve e respondeu sem perder a elegância:

— Tomo vinho... com sangue de porco. Gelado. Com folhas de hortelã.

Eduart gargalhou. Era raro ele rir daquele jeito. Mas ali estava ela — uma vampira evoluída, culta, divertida, sedutora — e talvez... seu verdadeiro par.

Eles brindaram com taças douradas, como se selassem um pacto silencioso.

Capítulo 9 — A Madrugada que Gritou Amor

A chuva caía fina e constante sobre Copacabana, transformando a madrugada em palco de confissões e desejos. No terraço encharcado do casarão, sob relâmpagos distantes e o perfume de jasmim noturno, Eduart estendeu a mão para Chirle, com os olhos ardendo de sinceridade e desejo.

— Chirle... — disse com a voz entrecortada pela emoção. — Quer ser minha namorada? Não por uma vida... mas por todas que vierem.

Ela sorriu, como quem já sabia a resposta antes da pergunta existir.

— Claro que quero, Eduart. Sempre quis. Só estava esperando você lembrar.

E então, como se o universo conspirasse para eternizar aquele instante, se beijaram sob a chuva — com intensidade, com entrega. A paixão tomou forma e se fez carne entre suspiros e toque. Em meio às cortinas da madrugada, risadas explodiram como trovões discretos... e até uivos ecoaram pela rua deserta, misturando sensualidade e ancestralidade.

Horas depois, já entre lençóis de linho escuro, Chirle se levantava vagarosamente, envolta no perfume adocicado de rosas. Na frente do espelho, enquanto ajeitava a lingerie com graça e malícia, sussurrou sorrindo:

— Encontrou... mesmo.

Lá da cama, Eduart a observava com olhos rendidos.

— Encontrei. Minha alma gêmea. A mulher que cruzou séculos pra me fazer voltar a sentir.

Capítulo 10 — Visitante à Meia-Noite

A felicidade entre Eduart e Chirle florescia entre risadas, olhares cúmplices e promessas silenciosas. Mas o amor, quando eterno, raramente caminha sem turbulências.

Naquela noite, enquanto Chirle tocava piano suavemente no salão principal, uma figura encapuzada surgiu à porta do casarão. Clenilson abriu, já em alerta.

— Boa noite... estou procurando Eduart — disse o homem, sua voz marcada por um sotaque do leste europeu.

Silvio, ao ouvir o tom, correu para a entrada. O homem retirou o capuz e revelou um rosto pálido e esculpido pelo tempo: era Niclav, antigo amigo de Eduart — e emissário dos conselhos vampíricos da região.

— Niclav? — disse Eduart ao descer a escadaria. — Pensei que nunca mais cruzaria seu caminho.

— Vim avisar — respondeu o visitante. — Seu relacionamento está sendo observado. Os humanos não aceitarão. E os ancestrais... também não.

Chirle parou de tocar. A vibração da música deu lugar a tensão.

— Por que não aceitariam? — retrucou ela. — Nosso amor é puro.

Niclav olhou para Chirle com curiosidade:

— Você... você é da linhagem de Albaneth. Evoluída. Mais forte que muitos de nós. Mas mesmo assim... unida a um vampiro como Eduart, desperta temores antigos.

Eduart passou o braço pela cintura de Chirle.

— Eles podem temer. Mas não podem impedir. Já perdemos séculos por causa de regras. Não perderemos este.

Niclav se aproximou e entregou um envelope marcado com um selo de sangue:

— Este é o convite. Uma audiência do Conselho será convocada. Vocês devem comparecer. Ou serão caçados.

A figura desapareceu na neblina da madrugada, deixando o casal em silêncio. Clenilson fechou a porta com calma e disse:

— Parece que o amor de vocês terá que dançar... sob julgamento.

Silvio, com olhar preocupado, murmurou:

— Eles que se preparem. Já vi o brilho nos olhos de vocês. Isso é mais forte do que qualquer tradição.

Eduart segurou a mão de Chirle com firmeza.

— Então enfrentaremos juntos. Porque amar você... já me salvou.

Capítulo 11 — Modernidade e Imortalidade

Eduart caminhava lentamente pelo salão, refletindo entre sombras e memórias. O som da chuva distante misturava-se ao perfume leve de jasmim que ainda pairava no ar. Desde que se unira a Chirle, algo dentro dele havia mudado. Não era apenas desejo — era força. Propósito. O amor deles se tornara um escudo contra o destino e uma ponte entre mundos.

— Ela me faz forte... mais do que mil batalhas — disse em pensamento, enquanto observava o retrato de sua família pendurado na parede. — Em meio a tantas mulheres em Copacabana... só vejo Chirle. Quero uma família. Nossa. Mesmo que a eternidade seja o terreno.

Chirle apareceu no vão da porta, linda como o nascer da noite.

— Está se sentindo bem, minha vampira preferida? — brincou Silvio, enquanto ajustava tecidos sobre o sofá.

— Melhor que nunca — disse Chirle, sorrindo com aquele brilho ancestral nos olhos. — Você poderia me ajudar com uns looks novos? Vamos ao shopping mais tarde. Quero um visual moderno... mas com alma.

Silvio assentiu com empolgação artística:

— Será um desfile noturno. Alta vampiraria.

Enquanto isso, Clenilson surgia com a bandeja, servindo a bebida especial de Eduart: vinho tinto encorpado, aromatizado com sangue de porco e folhas de hortelã colhidas em hora lunar.

— Aqui está, senhor. Para evitar mordidas desnecessárias... já que no shopping, pescoços estarão em abundância — disse com leve ironia.

Eduart ergueu a taça com um sorriso divertido:

— Não queremos o mal... Precisamos evoluir. Viver em sociedade. Ser vampiro e gentil. Um novo capítulo.

Chirle se aproximou, tocando o braço dele com suavidade.

— E nele, vamos escrever juntos.

Capítulo 12 — Vampiros no Shopping

A limusine parou suavemente na entrada principal do shopping. O vidro fumê baixou com elegância e desceram Eduart e Chirle, envoltos em charme e mistério. Os seguranças se entreolharam, como se algo ali ultrapassasse o simples luxo: era uma presença, um magnetismo antigo.

Eduart olhou para o alto, encantado com a fachada de vidro e os nomes reluzentes das lojas.

— Shopping... — murmurou, com um sorriso de fascínio nos lábios. — A sorte é que aquela taça de vinho que tomei faz efeito. Se fosse outra noite... estaríamos em ruínas vampirescas. Esse lugar inteiro já teria virado vampiro.

Chirle soltou uma risada divertida e passou o braço pelo dele:

— Não te falei, meu amor? Somos como qualquer outra pessoa. Vivendo em sociedade. Aprendemos. Evoluímos.

Eduart olhou para ela com carinho e surpresa:

— Meu avô Asfrônio... se tivesse descoberto essa receita, talvez tivesse dançado no meio dos humanos também.

— Pois saiba — disse Chirle, ajeitando os óculos escuros e guiando-o para dentro do shopping — que meu avô Alavi descobriu esse segredo. Quando morou na França. Ele estudou com um vampiro cientista chamado Ranvel. Um gênio com gosto por crônicas e Cabernet Sauvignon.

Os dois riram, caminhando entre vitrines brilhantes e luzes artificiais. O mundo moderno os recebia... e eles, por escolha e amor, se tornavam parte dele.

Capítulo 13 — Ecos de Sangue e Ciência

O corredor da loja "Eclat Noir", com iluminação suave e móveis vintage, parecia mais um salão francês perdido no tempo. Foi lá que Chirle, guiada por memórias e instinto, avistou o rosto que a transportou décadas atrás.

— Senhor Ranvel...? — disse com doçura e surpresa.

O homem se virou, confuso por um instante, mas gentil.

— Desculpe, senhorita... Meu avô já faleceu. Sou Anvel, seu neto.

Chirle cobriu os lábios, levemente envergonhada.

— Nossa... até me esqueci que estamos em 1950. Você... você lembra muito ele jovem.

Anvel sorriu, ajeitando o relógio de bolso que herdara do avô.

— Ouço isso o tempo todo. Ele era um cientista brilhante. Falava de vampiros com respeito e... afeto.

Eduart, que havia ficado mais atrás observando os perfumes, aproximou-se com curiosidade.

— Então você é o neto de Ranvel, o criador da mistura que nos permitiu viver em sociedade...

— Meu avô não acreditava em monstros — disse Anvel com serenidade. — Ele acreditava em evolução. Na coexistência. Disse que o amor entre seres eternos seria o catalisador da paz.

Chirle olhou para Eduart e apertou sua mão com firmeza.

— Ele estava certo.

Eduart riu baixinho.

— Acho que vamos precisar de mais taças daquela mistura… e talvez um modelo novo de sociedade.

Anvel piscou com discrição, entregando-lhes um pequeno frasco dourado:

— A fórmula, com um toque moderno. Para os tempos que pedem reinvenção.

Capítulo 14 — Rumores ao Amanhecer

A manhã em Copacabana começou com manchetes intrigantes. Um jovem fotógrafo, curioso pelas figuras elegantes que frequentavam o shopping, havia capturado uma imagem peculiar: um homem entregando uma taça vermelha ao outro, envoltos em expressões misteriosas.

No banco da praça, o grupo de moradores folheava o jornal com os olhos arregalados.

— Olha isso... é o seu Eduart e a Chirle! — exclamou Vitorugo, já meio desconfiado.

— Será que são vampiros evoluídos? — comentou Ric, mordendo a ponta do jornal como quem sentia o drama se formar.

Dona Esperança, de olhos vivos e tom pragmático, balançou a cabeça:

— Que isso, gente... se fossem vampiros já tinham mordido meio mundo por aqui.

Elsebio, sentado com seu café forte e boné de crochê, resmungou:

— Cadê minha espingarda? Vou espantar esses morcegos! Se aparecerem voando, já sei que são coisa do mal !

Vitorugo revirou os olhos, já conhecendo bem o teatro do avô:

— Vô... não espanta nem pombo. Deixa de história.

Enquanto isso, Eduart e Chirle, do alto da varanda do casarão, observavam discretamente o burburinho da cidade.

— Amor... estão nos notando — disse Chirle, com um sorriso travesso.

Eduart ergueu sua taça de vinho com toque de sangue suíno e murmurou:

— Que venham os olhares... mas que nunca nos separem. Se há algo que precisa ser revelado, que seja pela força do nosso amor — não pelo medo das nossas sombras.

Capítulo 15 — Entre Luzes e Verdades

No salão comunitário, as cadeiras estavam todas ocupadas. A vizinhança compareceu em peso — curiosos, cautelosos, alguns com olhos brilhando de especulação e outros com braços cruzados e sobrancelhas arqueadas. O zunido das conversas pairava no ar como prenúncio de um capítulo delicado.

Nos bastidores do casarão, Clenilson se aproximou de Eduart, oferecendo-lhe o frasco dourado recém-desenvolvido por Anvel.

— Senhor, apareça sem medo — disse com voz firme. — Este novo frasco vai segurar as pontas. O efeito é seguro, o autocontrole estará no auge. Eles verão que somos dignos.

Eduart ergueu a taça com solenidade, bebeu com calma e respirou fundo. Ao lado dele, Chirle ajeitava seu vestido escuro e passava o batom com a confiança de uma dama milenar.

— É verdade, amor — disse ela, encarando os próprios olhos no espelho. — Vamos tomar... e aparecer sem medo. Precisamos mostrar que vampiros podem viver em harmonia com humanos. Sem temor, sem segredos.

Os dois caminharam até o salão de mãos dadas, como se estivessem atravessando séculos para aquele instante. Ao entrarem, os olhares se voltaram em silêncio. Elsebio segurava sua espingarda com mais estilo que ameaça. Dona Esperança ajeitava o lenço no pescoço, como quem se prevenia e confiava ao mesmo tempo.

Ric cochichou para Vitorugo:

— Eles vieram. Vamos ver do que são feitos.

E Eduart, ao subir no pequeno palco, olhou para todos e disse:

— Boa noite, vizinhos. Somos vampiros evoluídos... mas somos, acima de tudo, como vocês. Sentimos, amamos, e queremos viver em paz. Hoje, escolhemos contar a verdade. Porque nada é mais poderoso que o respeito — e o amor.

Um silêncio respeitoso se instaurou. A noite, antes marcada pelo receio, começava a desenhar novos contornos.

Capítulo 16 — Guerra Sob a Lua

Os ventos mudaram em Copacabana. O som dos pneus cortando o asfalto ecoava pelo bairro como prenúncio de caos. Os caçadores de vampiros haviam sido convocados — rostos rudes, roupas camufladas e armas que não pertenciam ao cotidiano da cidade. Chegaram em comboio, seus jipes marcados com símbolos sagrados e olhares prontos para atacar.

Do alto da varanda, Eduart observava em silêncio. Quando viu os veículos estacionarem diante da praça central, murmurou com gravidade:

— São eles... Os Caçadores. Se aproximam como tempestade. Se começarem... isso vira guerra. E guerra é o que menos queremos.

Chirle, ao lado dele, já reunia objetos essenciais. Seu olhar firme indicava experiência:

— Vamos para outro lugar. Por um tempo. A cidade não está pronta. E nosso amor... ainda precisa florescer longe do sangue e da ira.

Eduart fechou os olhos e assentiu:

— O antigo sítio. Escondido entre montes e vinhedos. Lá onde meu avô Asfrônio construiu sua biblioteca secreta. Podemos ficar... e pensar. Recomeçar.

Silvio e Clenilson já preparavam a limusine com discreta urgência. Bela embrulhava frascos e taças. A legião de vampiros lendários — aliados silenciosos que guardavam os descendentes evoluídos — já se espalhava pela cidade em camuflagem.

E então, no silêncio da noite, o casal partiu. Não como fugitivos... mas como estrategistas de um novo futuro.

Capítulo 17 — Entre Milharais e Revelações

A estrada era longa, serpenteando por entre montanhas e campos silenciosos, enquanto o carro escuro cortava a madrugada. A lua cheia pairava como um vigia silencioso, testemunha de promessas e antigos pactos. Dentro da limusine, o clima mudava de misterioso para inquietante.

Chirle recostou a cabeça sobre o ombro de Eduart, o semblante mais pálido que o habitual.

— Amor... estou sentindo um enjoo estranho — disse ela, com voz delicada.

Silvio, sentado à frente, girou o corpo num gesto rápido.

— Pode ser gravidez, senhorita — disse, com tom neutro e olhar atento. — O sintoma é clássico.

Eduart arregalou os olhos, encarando a lua pela janela.

— Aquela lua... sabe tudo sobre nós. Testemunha daquela noite quente de amor. — Sorriu, como se a eternidade subitamente fizesse sentido. — Será o herdeiro vampiro mais evoluído?

Chirle, entre suspiros e mistério, tocou o próprio ventre.

— Será, meu bem. Um novo começo...

Silvio sorriu com respeito, quase emocionado.

— Sim, senhorita. E estamos quase chegando ao sítio. Lá, tudo será mais seguro... ou ao menos, mais nosso.

Mas nada na eternidade vem sem desafio. Clenilson, observando os retrovisores, franziu a testa.

— Senhor Eduart... tem um jipe nos seguindo. Desde a curva da estrada velha.

Eduart estreitou os olhos, o instinto aguçado despertando.

— Caçadores?

— Não sabemos ainda, mas não vamos arriscar — respondeu Clenilson. — Preparem-se. Vamos despistar no milharal à frente.

Com um giro ágil, o carro desviou da estrada e avançou para o campo de milho alto e escuro. As folhas roçavam a lataria como mãos sussurrantes. A lua acima parecia acompanhar cada movimento. E dentro do carro, dois vampiros apaixonados protegiam não apenas seu amor... mas agora, talvez, um novo legado.

Capítulo 18 — Vozes na Calmaria

O sítio era envolto por milharais altos e trilhas escondidas. O ar parecia mais leve ali, como se o tempo desacelerasse e desse ao casal alguns minutos preciosos de paz. Bela já acendia as velas no casarão antigo, e Clenilson fazia a ronda silenciosa pelo perímetro. Tudo parecia seguro... até os sussurros cortarem a brisa.

De trás do campo, vozes abafadas chegavam — primeiro confusas, depois cada vez mais nítidas.

— O alvo está aqui. O vampiro evoluído e a mulher — dizia uma voz firme, calculada.

Clenilson se aproximou com passos felinos, ouvindo sem ser visto. Três homens, armados com estacas e equipamentos térmicos, estavam reunidos perto da mata.

Entre eles, dois eram figuras temidas entre caçadores: Avereque, um atirador com precisão lendária, e Jordan, conhecido por caçar sombras desde os 40 anos. Mas havia um terceiro — mais quieto, mais pensativo. Seu nome era Alfre.

— Não precisamos matá-los. Se viveram em paz até agora, talvez possam continuar — disse Alfre, com olhar sincero.

Jordan franziu a testa.

— Paz com vampiros? Não seja ingênuo.

Avereque manteve os olhos nos binóculos, mas Alfre prosseguiu:

— Tenho minhas razões. Já vi o amor deles. Não atacaram ninguém. Não criaram perigo. E se fugiram... foi pra proteger, não pra ferir.

No casarão, Eduart escutava com os sentidos aguçados. Segurou a mão de Chirle com força.

— Eles chegaram... e trouxeram a guerra que não pedimos.

— Então vamos embora, como planejado — disse Chirle. — Pelo menos até sabermos quem é Alfre... esse nome... parece familiar.

Eduart encarou o céu sem estrelas.

— Talvez seja mais um sinal. Nosso legado está mais perto de mudar do que nunca.

Capítulo 19 — O Protetor Entre Sombras

Na calada da noite, o sítio estava mergulhado em silêncio denso, quebrado apenas pelo canto distante de uma coruja. Eduart repousava em uma poltrona antiga, sentindo o peso dos dias recentes e os rumores da guerra iminente. Sobre a mesa, uma folha dobrada repousava — sem que ninguém soubesse quem a havia deixado ali.

Ele a desdobrou, e ali estava, em caligrafia firme e elegante:

“Não temas o perigo. Sou seu protetor.
— Alfre.”

Eduart se levantou lentamente. Aquela assinatura... o nome ressoava com uma energia ancestral. Minutos depois, do lado de fora, próximo ao milharal ainda úmido da noite, uma figura surgiu das sombras.

— Não fuja. Não tenha medo — disse Alfre, com voz baixa e serena. — Estou aqui para proteger vocês... me passando por caçador.

Eduart permaneceu em silêncio, analisando cada gesto.

— Você... é um vampiro?

— Sim — respondeu Alfre, revelando seus olhos profundos e o medalhão que trazia no pescoço, símbolo dos vampiros mais evoluídos. — Perdi meus pais para caçadores cruéis. Desde então, infiltrei-me entre eles. Para impedir que outros sofram como eu.

Eduart baixou a guarda lentamente.

— Por que nós?

— Porque vocês representam o que vem depois — disse Alfre. — Um amor que desarma. Uma promessa de futuro entre mundos. Eu vi... vocês não são ameaça. São esperança.

Chirle apareceu atrás de Eduart, envolta em uma manta vermelha.

— Você parece saber mais de nós do que nós mesmos... — disse ela, com um olhar firme.

Alfre sorriu com tristeza contida.

— Eu sou a ponte. E esta batalha... talvez não precise ser vencida pela força. Mas pela verdade.

Capítulo 20 — Vinho, Verdades e Vontade

Sob o telhado rústico do antigo sítio, a luz das velas dançava sobre paredes centenárias. Alfre, sentado diante da lareira apagada, girava lentamente sua taça de vinho escuro — um blend raro misturado ao sangue de porco aromatizado com hortelã, desenvolvido para controlar impulsos vampíricos e preservar a harmonia.

— Podemos ser vampiros e viver em sociedade — disse com convicção, encarando o líquido rubro como se fosse um espelho de sua alma. — Sem fazer o mal. Simplesmente sendo o bem. Melhorando... evoluindo.

Chirle, ao lado de Eduart, assentiu com os olhos cheios de brilho.

— É isso que eu penso — disse ela, com voz suave e determinada. — Já não somos mais as criaturas escondidas das lendas. Somos parte do mundo. E temos o direito de amar, criar e viver.

Eduart sorriu, pousando sua taça sobre o apoio entalhado à mão por seu avô Asfrônio décadas antes.

— Você vai conseguir impedir essa guerra, Alfre? Vai mesmo convencer os caçadores, o Conselho... todos?

Alfre fitou o casal com firmeza. Um vento leve atravessou a janela aberta, trazendo o som distante dos grilos e o cheiro suave da noite.

— Vou sim — disse com serenidade. — Porque vocês dois me fizeram lembrar por que vale a pena lutar. Vocês são a prova de que há futuro. E pela primeira vez em séculos... eu acredito.

Eduart apertou a mão de Chirle. O momento não era apenas o de esperança — era o marco de uma nova era. E ali, naquela casa cercada por milharais e mistérios, três vampiros brindavam não à sobrevivência… mas à possibilidade de redenção.

Capítulo 21 — O Herdeiro da Alvorada

A luz suave da manhã invadia as cortinas do antigo casarão com delicadeza rara. O aroma de hortelã pairava no ar, mas havia algo diferente: o silêncio de esperança. Chirle, sentada na poltrona de veludo bordô, repousava a mão sobre o ventre, já mais consciente do milagre que ali crescia.

Eduart, ao seu lado, a observava com olhos que misturavam fascínio e fragilidade. Os enjoos se tornaram mais constantes, os sinais mais evidentes — e no fundo de seu coração, ele sabia: o novo herdeiro estava a caminho.

Silvio, sempre atento ao estilo e aos detalhes que marcam eras, entrou com um bloco de ideias nas mãos:

— Senhores, acho que vamos precisar preparar alguns looks de enxoval… seja menino ou menina, será o bebê mais elegante que este mundo vampírico já viu.

Chirle sorriu suavemente.

— Sim, Silvio… e ficarei grata pela sua ajuda. Quero que cada peça conte uma história, como nossos retratos e manuscritos.

Clenilson passou com sua postura leal e voz calorosa:

— Patrão… seu filho logo vem aí. Mais que um descendente… será o símbolo do novo tempo.

Eduart suspirou, observando a paisagem que se desenhava na janela — milharais calmos, pássaros sutis… e um mundo que ainda não entendia o que estava prestes a nascer.

— Só espero que até lá… o mundo aceite ele melhor — disse com voz firme, porém envolta em ternura. — Que seja recebido não com medo, mas com amor.

Chirle segurou sua mão, e naquele toque, estava a promessa silenciosa de que juntos, iriam moldar esse mundo — mesmo que fosse preciso desafiar cada regra escrita em pergaminho antigo.

Capítulo 22 — O Medo na Frequência

O silêncio da manhã foi quebrado pelo som metálico da rádio local. A voz do radialista Rubens ecoava pelos cantos da cidade, nervosa e alarmante:

— Neste momento, caçadores e moradores do Rio de Janeiro estão nas ruas. Estacas nas mãos, alhos pendurados no pescoço, tochas de fogo acesas… há tensão, meus amigos. Um dos entrevistados afirmou: “Temos que tirar esses vampiros da nossa cidade. Eles são um perigo. Não quero ver minha família virar vampiros.”

Aquela declaração atingiu Eduart como uma lança invisível. No casarão, com as cortinas fechadas e os relógios parados, ele encarou sua taça com amargura.

— A sociedade não entende que vampiros evoluídos não irão fazer mal algum… — disse em tom contido. — A prova está nas taças criadas. Elas domam, controlam… educam o lado vampiro.

Chirle, sentada ao seu lado, segurou sua mão com firmeza:

— Sim, meu amor… mas ainda vão entender. A evolução requer paciência. E coragem.

A rádio continuou transmitindo o caos urbano. A voz do presidente Carlos Aumorim entrou no ar, preocupada:

— Pedimos cautela. A todos os cidadãos: recolham-se antes do escurecer. A situação exige prudência.

Clenilson, ouvindo da cozinha enquanto cuidava dos frascos especiais, murmurou com pesar:

— Eles realmente não entendem. Julgam o que não conhecem. Sempre foi assim.

Silvio apareceu no corredor com um catálogo de enxoval entre os dedos e um dilema no olhar:

— E como vou à cidade vizinha comprar tudo isso para o bebê? Não posso entrar cercado de tochas e teorias da conspiração…

Eduart aproximou-se e pousou a mão em seu ombro:

— Vamos dar um jeito, amigo. Nem a luz mais agressiva nos impede de cuidar de quem amamos. O futuro será vestido com esperança… costurada com coragem.

Capítulo 23 — O Sopro da Esperança

A noite caía serena sobre o sítio, com o céu estrelado testemunhando mais um capítulo inesperado na vida do casal imortal. O som suave de palmas à porta trouxe atenção à sala. Eduart se levantou com elegância e foi até a entrada, onde uma mulher sorridente, de cabelos grisalhos presos com fita de cetim, aguardava com postura amistosa.

— Olá, senhora. Posso ajudar? — disse Eduart, já sentindo que aquela visita não seria comum.

— Me chamo Noemia — disse ela com voz firme e gentil. — Sou sua vizinha, do sítio ao lado. Sei que vocês são vampiros... mas não tenho nada contra. E percebi que sua esposa está grávida. Sou parteira. Se precisarem de ajuda, estou por perto.

Eduart sorriu, emocionado com a sensibilidade da visitante.

— Prazer, Noemia. Me chamo Eduart. Fico verdadeiramente grato por sua maneira respeitosa. Sim... iremos precisar de uma parteira, sim.

Chirle apareceu ao fundo, envolta em uma manta bordada com jasmins, os olhos marejados com emoção. Silvio, sempre atento ao estilo e ao futuro, surgiu segurando um tecido lavanda.

— Senhora Noemia, além da parteira… vamos precisar de looks. Enxoval completo. Estilo vampiro-elegante, mas com praticidade.

Noemia riu, com aquele riso que só o interior guarda.

— Quanto a isso, podemos ir à loja da cidade amanhã. É tranquila. As pessoas cuidam mais das próprias vidas do que da vida dos outros. Terão discrição e simpatia.

Chirle se aproximou e segurou a mão da nova amiga.

— Senhora... a senhora é uma luz em nossa vida. Obrigada, do fundo do meu coração.

Noemia sorriu com o olhar sábio e pousou os olhos sobre o ventre de Chirle, observando seu formato com experiência.

— Esse aí... vai ser um menino, pelo jeito da barriga. Pode confiar.

Eduart e Chirle se entreolharam, como se o mundo, mesmo temido, começasse a fazer as pazes com o amor.

Capítulo 24 — Fé, Fios e Fraternidade

A manhã se ergueu com leveza sobre os campos que cercavam o sítio, e com ela vieram passos firmes e acolhedores. Dona Noemia, com seu chapéu de palha e olhos atentos, e seu marido Lázaro, de alma generosa e sorriso sincero, surgiram no portão com planos práticos e propósito nobre.

— Silvio, hoje é seu dia de compras! — disse Noemia, enquanto abria a porta da caminhonete. — Não tenha medo. Vamos caprichar no enxoval do bebê que está a caminho. Essa criança é bênção, independente do sangue que corre nas veias.

Silvio ajeitou seus óculos e subiu com leve hesitação.

— Agradeço tanto por vocês estarem nos ajudando, Dona Noemia, Senhor Lázaro… nem sei como retribuir.

Lázaro ligou o motor e falou com aquela fé simples que atravessa montanhas:

— Deus ajuda todos, meu filho. Até quem não acredita. O mundo pode parecer duro, mas há luz onde há amor.

Silvio sorriu com ternura, observando os dois com admiração:

— Percebo que vocês são bem de igreja...

— Sim — respondeu Lázaro. — Mas não é sobre dogma. É sobre paz. Com Deus... mal algum acontece. Podemos enfrentar o mundão juntos. E não precisa ter medo dos crucifixos. Eles não ferem — só protegem.

A estrada de terra se abriu como um corredor entre destinos e diálogos profundos. Enquanto o enxoval se desenhava em tecidos suaves e ideias de carinho, uma amizade se fortalecia entre espécies. Não por sangue... mas por respeito.

Capítulo 25 — Tons de Cuidado

A loja humilde, de chão antigo e ar de acolhimento, recebeu o trio com a simpatia de quem entende que a moda, ali, não é sobre luxo — é sobre carinho. Rosana, atendente de olhos atentos e sorriso educado, mal viu a porta abrir e já perguntava:

— Pois não, o que vão querer?

Noemia sorriu e apontou com leveza:

— Isso é com o estilista… ele entende de tudo.

Silvio ajeitou seu lenço e estendeu uma lista bordada de ideias.

— Quero algo que tenha essas referências aqui. São para o enxoval do bebê que está por vir — disse com entusiasmo criativo.

Rosana, já empolgada, folheou as peças novas.

— Ah, cores interessantes… sei que você é estilista, então olha só essas tonalidades que chegaram. Tem lavanda pálido, azul inverno e um bege com lilás que está encantando as grávidas.

Noemia sorriu com brilho nos olhos:

— Bonito para um vestido… será que devo?

— Escolha um vestido, Noemia — disse Silvio com firmeza carinhosa. — Você merece. Muda o padrão para estação de inverno: bege com lilás. Elegante, acolhedor… do jeito que você é.

— Posso mesmo?

— Pode até quatro! — brincou Silvio.

Lázaro, observando a esposa e o estilista se divertirem entre tecidos e babados, parecia parte de uma cena de novela interiorana.

Silvio, com sua delicadeza habitual, se virou:

— Seu Lázaro, vai querer algo pro senhor?

— Uma calça jeans e uma blusa boa… algo que dure.

Silvio sorriu e entregou um conjunto casual com toque moderno.

— Experimente esse look. Vai sair daqui igual modelo de revista.

Depois da compra recheada de carinho e tecidos suaves, seguiram juntos ao mercadinho. Cestas cheias: frutas, queijos, farinha fina, e até velas especiais para o casarão. Dona Noemia e seu Lázaro também fizeram sua compra — a pedido do próprio Eduart.

E ali, entre sacolas e sorrisos, a comunidade se costurava. Laços que não vinham do sangue — mas do respeito, da fé e da gentileza.

Capítulo 26 — Laços e Lembranças à Mesa

O casarão, agora mais vivo do que nunca, recebia pela primeira vez um almoço preparado especialmente para humanos — um gesto de agradecimento e acolhimento. A mesa de madeira centenária, ornamentada com louças antigas, estava repleta de aromas italianos: massas artesanais, lasanha de berinjela e risoto de cogumelos. Sobre a toalha bordada por Bela, descansavam jarras com suco de uva e gengibre — uma mistura refinada, aprovada tanto por vampiros quanto por convidados especiais.

Lázaro e Noemia se acomodaram com naturalidade. O clima era leve, quase festivo.

— Vocês caíram do céu… — disse Eduart, tocado pela generosidade do casal. — Não só por ajudarem, mas por enxergarem além do nosso sangue.

Lázaro sorriu enquanto saboreava o risoto:

— Deus é mais, meu filho. E esse almoço… é espetacular. Tem amor, tem sabor e tem respeito.

Na sala ao lado, Chirle guardava com carinho cada peça do enxoval. Seus olhos brilhavam ao dobrar os tecidos, enquanto aguardava a chegada do berço na semana seguinte. Era como preparar o mundo para uma nova esperança — uma criança entre espécies.

Enquanto isso, surgiu Cloves, o filho do casal. Cabelos escuros, botas pesadas e expressão serena. O jovem, com espírito gótico e respeito herdado dos pais, se aproximou com calma:

— Se quiserem… posso ajudar com segurança aqui no sítio. Conheço as trilhas, os sons da noite… e acredito que vocês merecem viver sem medo.

Chirle o cumprimentou com um sorriso gentil. Eduart ergueu a taça com gratidão:

— E você, Cloves… parece que também caiu do céu.

Capítulo 27 — Vinho, Versos e Revelações

O sol se escondia atrás das colinas quando Eduart e Cloves se acomodaram na biblioteca secreta do sítio — um cômodo silencioso, repleto de livros encadernados em couro, fragrância de pergaminhos e uma luminária com luz âmbar que dava ao ambiente um charme quase teatral.

Taças de vinho repousavam sobre a mesa de carvalho enquanto os dois folheavam os livros da Transilvânia. Cloves, com os olhos arregalados de curiosidade, parecia absorver cada página como se estivesse desvendando sua própria ancestralidade.

— Senhor Eduart… esse colégio que o senhor estudou é enorme! — exclamou, apontando uma foto em preto e branco de uma construção gótica com torres e janelas ogivais.

— Foi lá que aprendi tudo que sei, Cloves — respondeu Eduart, com orgulho tranquilo. — Magia, história, códigos antigos… e os mistérios do amor eterno.

Cloves riu e confidenciou com sinceridade:

— Eu e Telma, minha namorada, vivemos o mundo gótico de forma intensa. Nossos encontros são no cemitério… ela toca violão e eu escrevo. É como se o silêncio fosse mais profundo lá.

Eduart sorriu com cumplicidade.

— Isso faz parte da essência gótica: transformar o sombrio em poesia. Ver beleza onde outros enxergam medo.

Cloves então apontou para uma foto entre as páginas de um álbum familiar.

— E essa? Quem é?

— Doce, bela Catrina — disse Eduart, com voz serena. — Minha prima. Uma vampira de alma delicada e olhar encantador.

Cloves arregalou os olhos:

— Ela é linda…

Eduart deu uma risada envolvente, completando:

— E... é solteira.

Ambos riram, brindando à amizade inesperada que crescia entre páginas e vinho, onde o passado gótico e o presente evoluído se encontravam.

Capítulo 28 — Encontros na Bruma de Copacabana

Em meio ao caos urbano, Catrina surgia como uma brisa elegante entre a tempestade. Copacabana estava tomada por tensão: caçadores por toda parte, olhares suspeitos, estacas em punho — mas ela caminhava com classe, de olhos atentos e passos silenciosos. Seu destino era claro: o sítio, o refúgio. O lugar onde o amor de sua família pulsava longe do medo.

Antes de entrar no táxi, Catrina retirou de sua bolsa um pequeno frasco com líquido rubro e perfumado. O elixir dos vampiros evoluídos — controle, calma e dignidade.

— Senhor, poderia me levar até este endereço? — perguntou com gentileza ao motorista.

— Claro, senhorita... — disse Vanderson, o taxista carioca de sorriso fácil. — Você é... vampira, estou certo?

Catrina sorriu com leveza, sem fugir da verdade:

— Sim, senhor. Mas mais evoluída que a lenda sugere.

Vanderson olhou pelo espelho retrovisor e soltou, como quem fala mais com o coração do que com os lábios:

— Percebi. Mas... é muito atraente, você. Se eu não fosse casado, colocava uma aliança no seu dedo.

— Me chamo Catrina — disse ela, divertida. — Viraria vampiro pra azarar comigo?

— Quem sabe… — brincou Vanderson, lançando um olhar galante e cúmplice. — Você é a cereja do bolo de um homem, quer encontrar sua cereja isso sim.

Os dois riram suavemente. A estrada era longa, mas cheia de leveza. Aos poucos, o horizonte mostrava a entrada do sítio.

Ao chegar, Vanderson estacionou com cuidado e virou-se para ela:

— Está entregue, senhorita Catrina.

Ela abriu a porta, saltou com graça e sorriu com sinceridade:

— Muito obrigada, Vanderson. E vê se toma jeito...

Ele riu, acenou com charme, e partiu. Talvez, com um toque de saudade de um encanto que passara pelo seu banco de trás.

Capítulo 29 — Encontro à Porta, Encanto à Primeira Vista

O crepúsculo envolvia o casarão como uma capa de mistério quando a batida na porta ecoou pelo salão. Cloves atendeu curioso, e ao abrir... ali estava Catrina, envolta em charme ancestral e perfume de jasmim noturno.

Ela o olhou com ousadia e brincadeira:

— Olá… já se apaixonou? Sou Catrina. E você?

— Prazer, Cloves. Você é ainda mais linda pessoalmente — respondeu ele, com um tom tímido e encantado.

Catrina soltou uma risada leve:

— Quanto homem galanteador. Mas aviso logo: só namoro homem solteiro.

Nesse momento, Eduart apareceu, rindo com cumplicidade:

— Catrina, minha prima... esse é Cloves, um verdadeiro amante do mundo gótico.

— Já percebi... — disse ela, observando o estilo sombrio e autêntico de Cloves. — Muito bom estar perto de vocês.

— Cadê a mamãe vampira? — perguntou, entrando no casarão com olhar curioso.

Chirle, vindo do corredor com sua leveza radiante, respondeu:

— Prazer, Catrina. Que bom finalmente conhecê-la.

— O prazer é meu, prima por parte de eternidade — respondeu Catrina com um sorriso afetuoso.

Eduart olhou de canto, brincando com a situação:

— Cloves está encantado…

Cloves respondeu rápido, ainda com um brilho no olhar:

— Digo sim... mas tenho Telma.

Na varanda, a conversa entre Cloves e Catrina se aprofunda. Ele confessa com entusiasmo:

— Gosto muito do mundo gótico. Tem algo nele que me faz sentir... inteiro.

Catrina o olha com simpatia, tirando uma foto dobrada do bolso:

— Muito bom saber disso. Olhe esta foto… e leia este livro. Acho que vai te marcar.

Cloves lê a capa:

— Último exemplar dos Vampiros da Meia-Noite… isso existe mesmo?

— Existe sim — diz Catrina. — E talvez você seja parte dessa história sem saber.

Capítulo 30 — Laços Quebrados, Laços Que Nasciam

O coração de Cloves batia rápido como se tentasse ultrapassar a dor. Na cidade, sob as luzes pálidas dos postes, ele vira o que jamais esperava: Telma aos beijos com Rubens, o radialista. E pior — uma mordida, rápida e marcada no pescoço dela.

Cloves sentiu o mundo gótico desmoronar em sua mente.

— Telma me traiu... e agora virou vampira — disse ao chegar ofegante ao casarão, mostrando uma foto feita às pressas com a câmera fotográfica. — Veja, senhor Eduart!

Eduart analisou com olhos atentos.

— Isso é preocupante... esse rapaz Rubens violou as regras dos vampiros evoluídos. Transformar alguém por impulso e desejo é proibido. Não é evolução — é desvio.

Catrina, sentada perto da lareira, se aproximou e tocou levemente o ombro de Cloves.

— Calma, Cloves. Ela não te merecia. Esse vampirão galanteador a seduziu... e ela caiu. Mas você... você é luz gótica de outro nível.

Cloves suspirou, sentindo o conforto sincero naquelas palavras.

— Obrigado, Catrina... pelo consolo. Nem sabia que ouvir isso podia aliviar.

Ela sorriu com doçura e disse:

— Por nada. Estou aqui para conversar. Inclusive... que tal fazermos algo juntos à meia-noite? Um momento só nosso. Talvez música... ou leitura sob a lua.

Cloves olhou para ela como quem finalmente enxergava beleza em recomeçar.

— Sim, Catrina. Por que não? Meia-noite parece perfeita... para virar a página.

Capítulo 31 — Sob a Lua, Além da Pele

O cemitério antigo, cercado de ciprestes e histórias esquecidas, era o palco ideal para o encontro gótico à meia-noite. A lua cheia brilhava como um olho silencioso sobre o mundo, trazendo mistério e magnetismo ao ar. Entre lápides ornamentadas, Cloves preparara um pequeno piquenique com vinho escuro, velas aromáticas e rosas negras — tudo pensado para impressionar a mulher que roubava sua atenção desde o primeiro olhar.

Catrina, com seu vestido vermelho cabelos ruivo rendado, parecia parte da noite — sensual, enigmática, ancestral. Ao se sentarem sobre uma manta escura bordada à mão, os dois trocaram olhares que diziam mais do que palavras.

— Estar ao seu lado me faz sentir diferente — murmurou Cloves, com a voz embargada de fascínio.

— Também sinto isso, Cloves… parece que já te conheço há muito tempo — respondeu Catrina, tocando sua mão suavemente.

Cloves a olhou nos olhos, levou sua mão ao rosto e sentiu o perfume que o envolvia como uma dança noturna.

— Que perfume é esse? Tem algo de encantamento nele.

— É o meu gosto, Cloves. Gosto de estar perfumada para todos momentos esclusivo como da meia-noite.

Entre suspiros e promessas não ditas, o beijo aconteceu: longo, intenso, cheio de ancestralidade e desejo. As velas tremularam, os corvos silenciaram, e o tempo pareceu parar.

Aquela mulher ruiva e vampira fez Cloves se apaixonar com uma entrega fulminante. Entre carícias, sussurros e entrega de almas, com o corpo quente pelo desejo um do outro, Catrina o encarou com os olhos vermelhos de emoção. Os dois se amaram.

— Cloves... esqueci o antídoto. O que faremos?

Ele sorriu com resignação e confiança:

— Agora... vou ser um também. E serei seu.

Com delicadeza, ela se aproximou e mordeu seu pescoço. Não com violência, mas com devoção. Ele aceitou a transição, não como punição… mas como evolução. A lua cheia foi testemunha de um amor que ultrapassou fronteiras. E naquela madrugada, dois corações góticos tornaram-se eternos.

Capítulo 32 — Entre Taças e Transformações

A madrugada envolvia o cemitério com seu véu silencioso, guardando ecos de uma noite intensa e reveladora de amor. Cloves, recém-transformado em vampiro, despertava com os sentidos ampliados — o som dos grilos parecia música, a brisa noturna, uma escrita. Catrina, envolta em sua lingerie preta, ajeitava-a no corpo após a noite de amor.
Ela se virou com um sorriso marcante:

— Fizemos amor… — disse com doçura e desejo entrelaçados.

Cloves a olhou, tomando um gole do vinho escuro aromatizado com especiarias lunares:

— Sim, querida Catrina. E foi além do toque... foi alma.

Ela caminhou até ele, tocando seu peito levemente:

— Como você vai contar aos seus pais que agora é um vampiro?

Ele riu com sutileza, beijando sua mão com reverência:

— Ainda não sei. Só sei que vou precisar daquele antídoto para manter o equilíbrio… o controle.

— Eu vou te ensinar a evoluir, Cloves — disse ela, com olhar de guia e amante. — Porque você tem coração para isso.

— Ficarei grato, Catrina. De verdade — disse ele, envolvendo-a em abraço sereno.

O luar banhava os lençóis e as almas, e Catrina sussurrou com ternura:

— Precisamos fazer mais encontro como esses. Dois vampiros... apaixonados... sem medo de serem o que são.

— Sim — respondeu Cloves, com os olhos fixos nela. — Porque tudo que é sombrio... também pode florescer.

Capítulo 33 —Último encontro de Telma e Cloves

O dia havia amanhecido,serena quase melancólica, quando Telma surgiu nos arredores do sítio, envolta em um manto escuro e seus olhos agora rubros pela eternidade. Seu encontro com Cloves era inevitável — não por drama, mas por encerramento.

— Cloves… agora sou uma vampira — disse ela com sinceridade, deixando que a verdade fosse sua única armadura.

Cloves, com postura firme e olhar maduro, assentiu lentamente:

— Também sou. E vim para viver com responsabilidade. Mas antes… preciso mostrar algo.

Ele retirou do bolso uma fotografia revelada: Rubens, mordendo Telma sob os postes da cidade.

Telma encarou a imagem com calma — talvez resignação.

— Sim… ele me transformou. Mas foi minha escolha. Que você tenha uma vida incrível ao lado de Catrina. Bem-vindo ao mundo dos vampiros. Lembra quando falávamos sobre isso… no cemitério?

Cloves se aproximou e a beijou suavemente — o último beijo, sem mágoa. Um adeus entre quem já compartilhou versos, sonhos e cemitérios góticos.

— Tenha consciência, Telma. Não saia por aí mordendo pessoas. Aprenda a evoluir. Foi o que Catrina me ensinou… e o que eu escolhi ser.

À distância, Catrina observava com seu manto vermelho e olhos serenos, sussurrando para si:

— Eles precisavam desse encontro. Para seguir com leveza.

Telma se despediu com um gesto gentil, acenando para ambos:

— Tchai, Cloves. Tchai, Catrina.

E sumiu na neblina noturna, como uma lembrança que decidiu não virar ferida.

Capítulo 34 — A Mentira Salva, a Verdade Se Prepara

O sítio respirava tensão. O barulho dos jipes, o farfalhar das botas no milharal… os caçadores haviam chegado. Luzes cortavam a noite, e vozes brutas ecoavam:

— Saiam daí! Sabemos que estão aí dentro!

Cloves, já transformado, puxou Eduart de lado:

— São eles, senhor Eduart. Agora sou um de vocês… mas eles não sabem. Vou sair e dizer que não tem ninguém. Fiquem em silêncio.

Eduart olhou fixo, sentindo o peso daquela coragem:

— Como assim você é um? Telma te mordeu?

Antes que pudesse concluir, Catrina se aproximou, cabisbaixa.

— Desculpe, primo. Foi comigo. Eu e Cloves tivemos uma noite de carinho… e eu esqueci o antídoto.

Eduart cerrou os olhos, suspirando. Aquele sítio guardava mais segredos do que as estacas poderiam farejar.

Cloves saiu, respirando fundo e andando com tranquilidade até a entrada. Do lado de fora, estavam Jordan e Avereque, prontos para invadir.

— Boa noite, senhores. — disse Cloves com naturalidade. — Este sítio foi alugado por mim e minha namorada. Viemos passar as férias. Não há mais ninguém aqui.

Antes que os caçadores questionassem, Telma apareceu repentinamente, elegante e com expressão confiante:

— Isso mesmo! — disse ela, entre risos. — Estamos só nós dois. Meu namorado alugou esse lugar maravilhoso. Vamos pintar quadros e beber vinho. Férias românticas.

Ela piscou discretamente para Cloves, e ele entendeu o jogo.

Alfre, sempre o elo invisível, apareceu atrás dos caçadores, dizendo com firmeza:

— Eu avisei. Os vampiros se foram das cidades vizinhas. Devemos parar de caçar sem causa.

Jordan e Avereque se entreolharam, hesitantes. O clima, antes fervente, começava a esfriar.

Cloves retornou ao casarão, onde Eduart murmurou:

— Essa mentira nos salvou. Mas a verdade… está crescendo dentro deste sítio.

Catrina pousou a mão no ombro de Cloves.

— Agora, precisamos preparar o mundo. Para o que está por vir.

Capítulo 35 — Sob a Luz da Lua, O Herdeiro Chega

A tensão era como névoa sobre o sítio. O tempo passava em silêncio, com olhos atentos e corações acelerados. Chirle, sentada na poltrona rústica de veludo escuro, soltava suspiros entre dores cada vez mais fortes.

— Eduart... — disse, entre gemidos. — Acho que vai nascer nosso filho...

Eduart se levantou, o semblante misturado entre esperança e preocupação:

— A lua... só quando a lua cheia estiver no céu. É ela quem trará o nosso herdeiro, com a bênção do ruivo ancestral do lobo da mata.

Cloves, agora parte da linhagem vampírica, correu pelo campo até encontrar Dona Noemia , sua mãe e parteira experiente.

— Mãe! É agora. Preciso de você no casarão. Urgente.

Chegando à sala, Dona Erminia manteve a calma que atravessava gerações:

— Preciso de uma bacia com água, panos limpos, luz discreta.

Clenilson já estava pronto:

— Está tudo aqui, senhora. Como a senhora pediu.

Enquanto isso, Silvio murmurava, tentando aliviar a tensão:

— Senhor Eduart, fica tranquilo. O berço está pronto, os frascos organizados. O resto... pertence à lua.

Do lado de fora, os caçadores ainda rondavam pela mata, inquietos.

— Eles estão escondidos em algum lugar — resmungava Jordan, farejando com desconfiança.

— Será? — dizia Avereque, ajustando sua estaca de prata.

— Não se preocupem — interrompeu Alfre. — Não há perigo. Eles querem paz. Podem confiar.

Então, um silêncio mágico tomou conta da noite.

A lua começou a subir. Primeiro tímida... depois radiante. Um círculo perfeito e dourado no céu escuro. Era a lua cheia, a esperada. No instante em que seu brilho tocou as paredes do casarão... um choro suave e poderoso ecoou pelo campo.

Ao mesmo tempo, um lobo ruivo uivou no alto da colina, como se anunciando: "Ele chegou."

Dona Noemia , entre lágrimas de alegria, segurava o pequeno nos braços:

— Nasceu... um menino. Forte. Silencioso. Com o olhar ancestral de quem veio para unir mundos.

Na mata, os caçadores se entreolharam.

— Esse choro… é de criança? — disse Jordan.

— Alguma mãe deu à luz… perto daqui. — acrescentou Avereque.

Alfre sorriu com calma:

— Verdade. E talvez o som não seja ameaça… mas promessa.

Capítulo 36 — Felício, o Menino da Lua Cheia

No casarão envolto em silêncio mágico, Eduart e Chirle seguravam nos braços o símbolo do novo tempo: Felício, o filho tão aguardado, nascido sob a luz intensa da lua cheia e o uivo protetor do lobo da mata. O nome, escolhido com emoção e ancestralidade, carregava o destino de união e sabedoria.

— Um menino esperto… — disse Chirle, emocionada, enquanto enxugava lágrimas de amor.

Catrina, com o olhar suave e travesso, sorria ao lado de Cloves:

— O próximo será o nosso…

Cloves, tomado por um carinho respeitoso, beijou a vampira ruiva como se selasse um pacto eterno.

— Sim… e onde vamos praticar? No quarto? No cemitério?

— Onde quiser — disse Catrina com um brilho encantador. — Nosso ritual será poesia.

Enquanto isso, Silvio tomava a frente com sua habitual elegância prática, preparando os cuidados essenciais: banho com ervas, cortes delicados, e o curativo no umbigo do recém-nascido.

— Não faça esforço, Dona Chirle — dizia com gentileza, ajustando os panos bordados e os frascos perfumados.

Eduart, entre alívio e celebração, abriu seu charuto cubano com estilo e saudade, brindando à nova era.

— Felício… meu filho. Bem-vindo ao mundo, pequeno herdeiro.

Cloves, agora vampiro por escolha e amor, se aproximou sorridente:

— Parabéns, papai. Felício é um menino esperto mesmo. Já tem o olhar de quem vai mudar muita coisa.

E ali, entre lençóis, taças, e o uivo distante que ainda ecoava nas colinas, uma nova geração começava a caminhar entre o mistério e a esperança.

Capítulo 37 penúltimo capítulo— Confissões à Luz do Vínculo

Meses haviam se passado desde o nascimento de Felício. O sítio agora respirava mais do que silêncio: abrigava histórias entrelaçadas de amor, legado e evolução. E no crepúsculo de um domingo sem pressa, Cloves sabia que a verdade precisava ser dita.

Reunido na varanda do casarão, ao lado de Catrina, ele chamou seus pais com a voz firme de quem carrega em si um novo destino.

— Pai, mãe… pode parecer assustador, mas não posso mais esconder.

Seu Lázaro franziu a testa.

— Esconder o quê, fio?

Dona Noemia , já com o olhar desconfiado, cruzou os braços:

— O que você está escondendo, menino?

Cloves respirou fundo, segurando a mão de Catrina com carinho.

— Eu... virei vampiro. Tive um envolvimento com Catrina… numa noite de amor, ela esqueceu o antídoto.

Noemia levou a mão à boca, instintivamente se benzeu.

— Misericórdia… vamos ter neto vampiro?

Lázaro, mais calmo, olhou para Catrina com atenção. Ela, com a postura respeitosa e serena, encarou os dois sem medo.

— Verdade, munhe — disse Lázaro, balançando a cabeça. — Mas essa vampira… é encantadora. E agora que é parte da vida do nosso filho…

Ele se levantou e abriu os braços.

— Seja bem-vinda à nossa família. Só peço… que sejam vampiros evoluídos. Respeitosos. Sábios.

Catrina sorriu com os olhos marejados.

— É tudo o que desejamos, senhor Lázaro. Amor, consciência… e legado.

Cloves se emocionou. A aceitação não era fácil — mas era real.

Capítulo 38 final— A União Selada sob a Lua

O sítio, outrora refúgio de segredos e silêncios, agora respirava festa e redenção. Famílias reunidas — vampiros e humanos — celebravam o impossível: um casamento que uniria não apenas dois amantes, mas mundos inteiros.

Lázaro, elegante em seu terno escuro com flor de jasmim preso à lapela, olhou curioso:

— E quem vai fazer o casamento, meu fio?

Cloves, com sorriso contido, respondeu com reverência:

— Será celebrado por ninguém menos que… Conde Drácula Elvere.

Dona Noemia levou a mão ao coração com emoção:

— Nosso filho… agora é um vampiro. Meu Deus…

Lázaro balançou a cabeça, orgulhoso:

— Já imaginava. O gosto dele por coisa gótica… não era só fase. Mas essa vampira… essa moça… é encantadora.

O altar, decorado com rosas negras, velas e uma tapeçaria do século XIX, aguardava o casal. Sob a lua cheia, o Conde tomou a palavra:

— No destino traçado pela meia-noite, sob o brilho ancestral da lua, Cloves, você aceita Catrina como sua legítima esposa?

— Aceito. Com o sangue e o coração.

— E você, Catrina, aceita Cloves como seu legítimo esposo?

— Aceito. Para sempre e além.

— Então… — disse o Conde, com autoridade poética — que se beijem. Que esta união traga bons frutos, e que o mundo aprenda a amar o que antes temia.

Sob aplausos e uivos de alegria, o beijo selou promessas eternas.

Eduart soltou seu charuto cubano:

— Acho que o rapaz realizou o sonho dele…

Silvio, segurando uma taça bordada, concordou:

— Verdade absoluta.

Chirle, emocionada, tocou o ombro de Cloves:

— Bem-vindo à nossa família, vampiro gótico e apaixonado.

— Obrigado — disse ele, com emoção visível.

Lázaro, osempre firme:

— Agora respeita a moça, hein!

— Pode deixar, pai.

Dona Erminia sorriu:

— Vocês vão morar aqui, filho?

— Não, mãe. Vamos partir para São Paulo. Um novo começo nos espera.

E assim, em uma limusine de estilo vitoriano, Cloves e Catrina partiram sob a lua para sua lua de mel. Eduart, Chirle e Felício retornaram ao Rio de Janeiro, onde novos mistérios os esperavam. Os funcionários do sítio,como parte da grande família, celebravam com vinho e versos.

Quanto a Lázaro e Dona Noemia … ficaram ricos. Um presente generoso de Catrina em gratidão por tanto respeito.

Já os caçadores?
Desapareceram na mata. Uns dizem que foi armadilha. Outros, que a floresta os engoliu como castigo por suas ações. Mas ninguém sabe ao certo. E talvez... nem seja preciso saber.

A única certeza?
Cloves encontrou sua felicidade ao lado de Catrina.

Agradeço a todos que leram essa história.]

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