O silêncio
Na pacata vila onde o silêncio só reina quando São Pedro faz faxina no céu, personagens caricatos vivem o caos cotidiano com humor, fé e um toque de loucura. Jó Manoel, o violeiro paciente, dedilha sua viola enquanto observa a vida passar com serenidade. Ao seu redor, a vila ferve: motoqueiros empinam, cachorros latem, as casas das primas abrem com pole dance, e o funknejo estoura no bar de Dona Adlaide.
Entre fofocas atualizadas por Dona Magnória, dancinhas suspeitas no TikTok de Augusto, e os sermões da freira Abigail que lava a imagem da Virgem Maria pra fazer chover, o conto revela o contraste entre o silêncio espiritual e o barulho da vida mundana. Com humor afiado e crítica social embutida, a história mostra que, na vila, o silêncio é raro — e só Deus mesmo pra botar juízo nesse povo.
História criada escrita por Edivaldo Lima.
História de Contos
Gênero: comédia,dramédia
personagem principal: Jó Manoel personagens secundários:Florzinha,Amanda,Augusto,Solange ,Jamil,Alfabio e Nilo,Freira Abigail,padre Afonso, Dona Magnória ,Dona Adlaide,Edneia,Seu Tomé.
[A chuva caía lá fora. Mesmo assim, quando se trata de paz espiritual e harmonia, o canto dos pássaros não atrapalha. Afinal, o privilégio de ter o silêncio entrelaçado com os cantos dos pássaros é como ouvir uma suave harmonia de blues e jazz.
Dona Magnória, por sua vez, estava inquieta. Não gostava do silêncio. Abriu e fechou a janela de sua casa umas cinco vezes, só para tentar ver uma viva alma na rua — quem sabe pudesse atualizar seu blog com as fofocas fresquinhas do dia.
Jamil, o síndico do prédio da esquina, roncava com os olhos abertos. Seu ronco era tão alto que seu cachorro, o Soneca, fazia xixi no próprio pé e saía em busca de outro canto para dormir.
Josemir, o bêbado da esquina, permanecia na porta do bar com um guarda-chuva em mãos, esperando Dona Adlaide abrir o estabelecimento e tocar o pancadão.
A paz reinava na vila. O padre da comunidade, Afonso, agradecia a São Pedro por ter feito uma verdadeira faxina naquele dia.
Abigail, a freira, lavava a imagem da Santa Virgem Maria para que chovesse ainda mais. Seus sobrinhos da perdição, Alfabio e Nilo, se aventuravam a provar o "cachimbo da paz", desanimados com o silêncio que tomava conta da vila.
— Pô, tia Freira Abigail, para de lavar! Assim não vai parar de chover nunca! — reclamava Alfabio, impaciente.
Mas Abigail apenas sorria e cantava:
— Lava, lava, Virgem Maria, pra chover uma semana, dois meses, todos os dias... Faz chover, São Pedro, nesse mundo mais encardido que o Tietê!
Ela dizia que só com chuva o mal não entraria na vida dos seus sobrinhos, que estavam imundos com as coisas do mundo.
—Os sobrinhos da perdição... — murmurava ela, com fé e firmeza.
Alfabio e Nilo tentavam ficar em silêncio, mas não conseguiam. O mal sussurrava, inquieto, querendo que eles praticassem os velhos hábitos de todos os dias.
Enquanto isso, o sábio Tomé observava tudo da varanda e sorria. O silêncio o satisfazia profundamente.
— Que coisa boa, meu Deus... esse silêncio! — dizia ele. — Não tem funknejo de paredão, pode chover mais de um mês!
“Já dizia uma visão da vida: “O barulho é o começo de tudo que dá errado, pois o mal gosta do barulho. O silêncio é a melhor parte para tudo dar certo. Quem tem paz de espírito está tranquilo; quem não tem, procura o barulho para preencher o que lhe falta.”
O violeiro Jó Manoel dedilhava sua viola com gosto. Do lado dele, o café preto fumegava, e Florzinha já chegava com a língua solta:
— Ô Jó Manoel, hoje tá excelente pra ocê trabalhá nas suas canção original! Eu vou sê sua ouvinte!
Ela olhou em volta, estranhando:
— Que silêncio é esse, sô? Nem as casa das prima abriu!
Jó Manoel levantou os olhos e respondeu, com aquele jeito manso:
— Uai, mulher... como é que vai abrí, se num tem freguês na porta?
Florzinha coçou a cabeça, pensativa. E completou:
— Edneia, lá da casa das prima, falou pra mim que os zomi tão tudo sumido...
Jó Manoel deu uma risadinha e soltou:
— É muie... esse é o contraste social da sociedade. Sem dinheiro na mão, as coisa cara é vendaval!
Augusto, por sua vez, assistia aos vídeos do TikTok enquanto seus dois filhos, Brino e Breno, dormiam sossegados. Amanda, sua esposa, ficava de olho pela janela da sala, tentando descobrir se Augusto estava mesmo entretido com as dancinhas ou se aproveitava pra conversar com Solange, a vizinha da minissaia curta.
— Essas dancinhas fazem o homem perder o juízo! — dizia Augusto, rindo.
— E também fazem o homem dormir na chuva, fora de casa, seu safado! — retrucava Amanda. — Toma jeito, homem!
As horas foram passando. São Pedro terminou a faxina lá no céu, limpou tudo. E o silêncio... ah, o silêncio virou bagunça: motoqueiro acelerando, moto empinando, cachorro correndo atrás e latindo, as casas das primas abrindo com as mulheres já se exibindo no pole dance, Dona Adlaide escancarando o bar com o funknejo nas alturas, enquanto Jamil virava suas doses de cachaça.
Alfabio e Nilo acendiam o cachimbo na esquina, Seu Tomé entrava pra dentro de casa, fugindo da confusão, e Dona Magnória sorria, feliz da vida, atualizando seu blog de fofoca.
É a vida. A vida segue normal, cada um no seu rumo. E o bom do silêncio? Só quando chove de novo ou quando a energia das casas cai. Até lá, só Deus mesmo pra botar juízo nesse povo.

