Estimada Fortuna:
No meio do milharal, Leco e Doralice vivem um romance atrapalhado sob a lua e o latido do Lanterna, o cachorro vigia. Fugindo do seu Guilhermino, eles acabam descobrindo um casarão misterioso, onde o mordomo Dorival revela uma herança deixada pela esperta Vó Gertrudes. De namorico escondido à vida de fazendeiro, Leco descobre que o amor, o namoro escondido pode mesmo dar sorte.
História criada escrita por Edivaldo Lima.
Histórias de Contos
Gênero: Conto Caipira, comédia
Personagens: Leco, Doralice, vó Gertrudes, mordomo Dorival, Sr. Guilhermino, Sr.Juventino, Lanterna.
[Já passava da meia-noite, e o milharal da fazenda do seu Guilhermino tava mais quieto que igreja em dia de finados. O céu, limpinho, deixava a lua brilhar feito abajur de motel chique — só que ali era no meio do mato mesmo, com cheiro de terra e milho-verde.
Leco e Doralice, dois namoradinhos mais atrevidos que gato em telhado de zinco quente, se enroscavam no meio dos pés de milho, achando que o amor podia tudo. Só esqueceram de um detalhe: o Lanterna, o cachorro do seu Guilhermino, que cuidava dos milharal e dos cafezais com mais zelo que guarda de banco.
— Doralice: Ô Leco, vamo simbora, meu fio! Daqui a pouco o Lanterna aparece e aí quero ver tu provar que me ama com o rabo entre as perna!
— Leco: Calma, minha flor do campo! Hoje eu trouxe bisteca temperada com alho e carinho. O Lanterna vai lamber os beiço e deixar nóis namorar em paz.
— Doralice: Sei não, viu. Lanterna é enjoado, só come ração das cara. Tu devia era me levar num motel com suíte e piscina, não nesse milharal com cheiro de cocô de vaca.
— Leco: Piscina é frescura, mulher! Aqui tem rio, tem lua, tem milho e tem nóis. Pra quê mais?
De repente, uma coruja pousa na caminhonete. Doralice se arrepia.
— Doralice: Ai, credo! Coruja dá azar! Vamo embora, Leco!
— Leco: Justo agora que eu ia despejar o shampoo do amor, aparece essa ave é brincadeira!
E como se fosse combinado, uma voz ecoa no milharal:
— Seu Guilhermino: Quem tá aí no meu milho?!
Leco, com as calça na mão, pula pra dentro da caminhonete. Tenta ligar. Afoga.
— Seu Guilhermino: Ah, seu Leco! Trouxe a namoradinha de novo? Lanterna, pega ele!
Lanterna sai latindo Au!...Au!...Au!... igual sirene de viatura. Doralice grita:
— Doralice: Liga isso, homem!
— Leco: Tô tentando, minha flor joga a bisteca para o Lanterna!
A caminhonete pega no tranco. Poeira sobe. Lanterna quase morde o para-choque.
— Leco: Ô amor, quase que eu fico sem pardal!
— Doralice: Se meu pai, Juventino, descobre, tu vai perder mais que o pardal, vai perder os dente!
Chegando na cidade, Doralice aponta pra um casarão antigo.
— Doralice: Olha ali, Leco! Que casa antiga bonita!
— Leco: Tu quer namorar mais, é danada!
— Doralice: Para de safadeza! Vai que essa casa vira nossa um dia...
Eles encostam a caminhonete e entram. A porta se fecha sozinha.
— Dorival: Boa noite, sejam bem-vindos.
— Leco: Quem é você, assombração?!
— Doralice: Vou tirar o tamanco e te dar na testa!
— Dorival: Calma, moça! Só tô com creme no rosto. Sou Dorival, o mordomo da vó Gertrudes.
— Leco: Mordomo? E eu nunca imaginei isso?
— Dorival: Vem comigo que cês vão entender.
No porão, Dorival mostra um baú.
— Dorival: Sua vó mandou te mostrar isso.
Leco abre. Dinheiro. Muito dinheiro. Doralice começa a contar, os olhos brilhando.
— Leco: Eita, que é dinheiro que não acaba mais!
— Dorival: Leia a carta, senhor Leco.
“Querido neto Leco Alves, pare de levar Doralice para o milharal do seu Guilhermino. Agora você tem sua própria casa é fazenda. Peça a moça em casamento, seja feliz e pare com a bagunça. Use a riqueza com moderação. Dorival é excelente mordomo. Assinado: estimada Fortuna de Vó Gertrudes.”
— Doralice: Agora nóis pode casar, Leco!
— Leco: Sim vamos com calma, Dora! Vamo ser feliz! Mas tem que reformar, viu? Com piscina!
— Dorival: Vai ser do jeitinho que o senhor quiser.
E assim, do milharal ao casarão, Leco virou fazendeiro, Doralice virou dona, e Lanterna… bem, Lanterna ganhou uma piscina só pra ele, depois que Sr. Guilhermino bateu as botas.

