História Proibido ser Elvira

Contos de Histórias
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Proibido ser Elvira

Em 1937, um grupo teatral estava se preparando para encenar a peça "Glamour de Elvira". O personagem principal, Elvis, estava se esforçando para interpretar o papel de uma mulher da forma mais autêntica possível, mesmo sabendo que naquela época isso seria visto com preconceito.

O grupo teatral queria quebrar barreiras, mostrando que uma mulher, como a futura esposa de Elvis, Carolina, poderia atuar como um homem, e vice-versa.

Porém, com a chegada da censura no Brasil, decretada por Getúlio Vargas, o grupo, composto por Elvis, Carolina, Felipe, Flora, Regina e Vanderson, em especial o amigo Edgar Murie, tiveram que lutar para sobreviver de suas artes em tempos difíceis.

Eles enfrentaram desafios para manter sua peça em cartaz e expressar sua visão artística em um ambiente cada vez mais restritivo.

A história retrata as lutas desse grupo teatral para superar os desafios impostos pela censura e afirmar sua identidade artística em um período de repressão cultural no Brasil.

História criada escrita por Edivaldo Lima.

Contos de histórias.

Gênero: drama, teatral, ficção, histórico

Personagens principais: Elvis,Carolina personagens secundários: Flora,Regina,Felipe,Vanderson,Edgar Murie,Tonho,Senhor Armando,Alessandra,Getúlio Vargas,policiais,soldados.

📖 História a Contar

[O dia amanhecia. Era 3 de março de 1937. Os cantos dos pássaros na cidade de Piracicaba soavam como uma orquestra musical, embalando o grupo teatral que se preparava para apresentar o espetáculo Glamour de Elvira.

Flora estava sentada em uma cadeira velha, diante de uma mesa de estudante, escrevendo o roteiro da peça teatral. Elvis, por sua vez, ensaiava em frente ao espelho, interpretando a personagem Elvira. Felipe estava animado, focado na construção dos cenários que dariam vida ao ambiente da peça. Regina, em sua máquina de costura, trabalhava nos figurinos, enquanto Vanderson rabiscava alguns croquis de última hora.

— Acredito que a Elvira vai arrancar risadas do público — comentou Elvis, ainda com a voz cheia de entusiasmo. — Mas, por outro lado, haverá preconceito.

— Vai rolar tomate e abacaxi, pode apostar — respondeu Regina, sem tirar os olhos da costura.

Flora olhou para todos e deu um sorriso.

— Mas essa ideia de colocar o Elvis para ser a Elvira… um homem de vestido, salto alto e maquiagem… foi extraordinária!

— A ideia foi do Vanderson — disse Felipe, apontando para o amigo.

Vanderson sorriu, orgulhoso.

— Eu dei a ideia. Vocês queriam algo inusitado para a peça, e assim nasceu Glamour de Elvira.

Naquele momento, Carolina entrou no local com um sorriso.

— Elvis, meu amor, como está a sua personagem?

— Está supimpa! — respondeu Elvis, rindo. — Mas, olha, não é mole andar de salto alto, Carolina.

Carolina olhou para Regina e Flora com um sorriso irônico.

— Pra você ver o que nós, mulheres, passamos, meu amor.

De repente, Tonho, o dono do bar da esquina, chegou com seu rádio de pilha nas mãos.

— Pessoal, escutem isso!

Ele ligou o rádio na Alvorada FM. A voz do locutor Sérgio ecoou pelo ambiente:

— Alô, alô, meus queridos ouvintes da Rádio Alvorada FM! Escutem o que Getúlio Vargas tem a dizer!

Logo, a voz de Getúlio Vargas tomou conta da transmissão:

— Bom dia a todos. Eu, Getúlio Vargas, estou declarando uma nova lei de censura no Brasil. Policiais e soldados competentes estarão verificando o que os artistas estão produzindo. Se houver algo que a sociedade não permita, estaremos proibindo que peças teatrais, músicas, livros e desenhos sejam divulgados. Agradeço a atenção de todos. Tenham um bom dia.

Sérgio voltou à transmissão:

— Logo mais traremos atualizações sobre o que Getúlio Vargas declarou. Fiquem ligados na Rádio Alvorada FM. Um abraço a todos e até mais!

O silêncio tomou conta do recinto por alguns segundos. Elvis foi o primeiro a quebrar o clima pesado.

— Isso não está acontecendo... Mas eu não vou desistir de apresentar a Elvira ao público!

Felipe suspirou.

— Agora ficou complicado...

— Complicado ou não, não podemos desistir! — declarou Regina, com firmeza.

— Desistir, nunca! — exclamou Flora. — Vamos apresentar nossa peça teatral em várias cidades!

Glamour de Elvira vai ser um escândalo por onde passar! — completou Vanderson, com um sorriso confiante.

Carolina olhou para todos com determinação.

— Isso mesmo, pessoal. Vamos continuar firmes com nosso espetáculo teatral!

Tonho, mais cauteloso, deu um conselho:

— Só tomem cuidado com os policiais e guardas fazendo ronda pela cidade.

— Pode deixar, meu amigo! — garantiu Elvis.

Mais tarde, durante o café da manhã preparado por Carolina, todos estavam sentados à mesa, conversando e fazendo planos. De repente, uma voz familiar chamou da porta:

— Bom dia, pessoal! Posso entrar? Preciso me esconder das polícias e dos soldados.

Todos se viraram, surpresos. Regina foi a primeira a reagir:

— Edgar Murie! Quanto tempo! Senta aí!

Edgar entrou, com um sorriso no rosto.

— É bom ver todos vocês de novo.

Elvis o encarou, curioso.

— Edgar, por onde você esteve esse tempo todo?

— Estava em Minas Gerais, retratando as paisagens — respondeu Edgar, com tranquilidade.

Vanderson perguntou:

— Você ficou sabendo da notícia na Rádio Alvorada?

— Sim, por isso estou me escondendo — disse Edgar.

Carolina balançou a cabeça, preocupada.

— Agora complicou, Edgar. Suas ilustrações de modelos pin-up, e também sendo ousadas e sensuais, são consideradas crime, sabia?

Felipe concordou.

— É melhor você tomar cuidado, meu amigo.

Edgar suspirou.

— Vou tomar. Talvez eu comece a fazer charges para jornais, algo mais discreto.

Flora, curiosa, perguntou com um sorriso:

— E sua vida amorosa, Edgar Murie? Como anda?

Edgar a olhou nos olhos e respondeu, sorrindo:

— Voltei para te ver, Flora. Quem sabe a gente se aqueça nos dias chuvosos?

Todos caíram na risada, e Flora brincou:

— Você não vale nada, Edgar! Acabou de chegar e já está me cortejando?

— Faz parte da minha vida cortejar — retrucou Edgar, rindo com os outros.

Felipe mudou o rumo da conversa:

— Edgar Murie, que tal me ajudar a construir os cenários? Algumas cores e desenhos artísticos seus seriam incríveis.

— Claro, ajudo sim! — respondeu Edgar. — Aliás, tem lugar na pousada para eu ficar?

Flora, com um sorriso acolhedor, respondeu:

— Tem sim, Edgar. Como você recebeu nossa carta sobre o espetáculo?

— Estava no bar do Almir quando o correio entregou — respondeu Edgar. — Assim que li, vim para cá. Quero rever os amigos e ajudar no que for preciso.

— Você é bem-vindo! — disse Elvis, com entusiasmo.

Carolina, curiosa, perguntou:

— Edgar Murie, você não tem um ateliê fixo, não é?

— Não, Carolina — respondeu Edgar. — Conforme vou de cidade em cidade, alugo um espaço por um tempo. Não fico muito tempo parado em um lugar.

O dia foi passando com todos concentrados na preparação. Edgar Murie, ao lado de Flora, trabalhava em uma ilustração para o espetáculo Glamour de Elvira. Ele desenhava um cartaz impactante: metade do rosto de Elvis sem maquiagem e a outra metade transformada, com batom, sombras marcantes e um olhar cativante e atraente. Edgar queria criar uma peça visual que chamasse a atenção do público, despertando a curiosidade para assistir ao espetáculo até o fim.

Por horas, Edgar coloriu e aperfeiçoou o desenho. Quando terminou, todos se reuniram ao redor do cartaz, admirados.

— O que acharam? — perguntou Edgar, observando as reações.

Elvis foi o primeiro a falar:

— Fantástico! Regina, você capturou Elvira na arte!

— Concordo — disse Carolina, impressionada. — Esse cartaz vai atrair o público!

— Agora sim, temos um cartaz digno para o teatro — completou Flora, radiante.

Vanderson, com um sorriso, disse:

— Edgar Murie, que talento!

— Gostei também — falou Edgar, orgulhoso. — Que bom que gostaram. Fico feliz.

Flora perguntou, curiosa:

— E quanto custou sua arte, Edgar?

Ele sorriu e respondeu:

— Uma cadeira VIP para assistir à peça já paga. Mas, na verdade, a amizade de vocês já é o meu pagamento.

Todos riram e, emocionados, abraçaram Edgar.

Já eram 6h30 da tarde. A noite estava chegando, e o grupo começou a se organizar para encerrar o dia. De repente, Edgar olhou pela janela e alertou:

— Olhem... viaturas policiais estão chegando.

Elvis arregalou os olhos e exclamou:

— Vou correndo tirar a maquiagem, esse vestido e o salto!

Carolina, em tom de brincadeira, disse:

— Já imaginou, meu amor, passar a noite na cadeia como Elvira?

Regina respondeu, enquanto cobria os figurinos com tecidos:

— Já pensou? Melhor prevenir.

Vanderson, apressado, disse:

— Vou esconder esses esboços de croquis!

Flora, com uma risada nervosa, brincou:

— Os presos iam perguntar: "Quem é essa moça entre nós?"

— E eu responderia: "Me chamo Elvis!" — retrucou Elvis, arrancando risadas.

Edgar, tentando manter o clima mais leve, comentou:

— E eu levaria flores para você na cadeia.

Por fim, ele pegou o cartaz e disse:

— Vou esconder isso aqui. Não podemos correr riscos.

Nesse instante, os policiais Tomas e Alves entraram no salão e foram direto ao grupo.

— Boa noite a todos — disse Tomas, sério. — Vocês são um grupo teatral? Que peça estão preparando?

Elvis, pensando rápido, respondeu:

Amores Perdidos de Murie.

Edgar, entrando na história, completou:

— Sabe, seu guarda, são meus amigos. Eles quiseram me homenagear na peça teatral.

Tomas olhou para todos, desconfiado.

— Quem está escrevendo a peça?

— Eu estou tentando escrever — disse Flora, tentando parecer tranquila. — Mas estou com um bloqueio criativo.

O outro policial, Alves, advertiu:

— Fiquem atentos com a nova lei de censura imposta por Getúlio Vargas.

— Pode deixar — respondeu Regina, tentando manter a compostura.

— Boa noite a todos — disse Tomas. — Podemos voltar a qualquer momento.

Assim que os policiais saíram, Edgar suspirou aliviado.

— Todo cuidado é pouco.

— Isso é verdade — concordou Flora. — Mas Amores Perdidos de Murie daria uma boa história.

— Teria que ter muitas mulheres em cena — brincou Regina.

— Isso é verdade! — disse Carolina, rindo.

Felipe, olhando para o relógio, sugeriu:

— Já está tarde. Vamos fechar o salão por hoje.

— Chega de ensaio por hoje — concordou Elvis, exausto.

— Verdade! — disse Carolina.

Edgar, se alongando, falou:

— A cama da pensão me espera. Estou cansado.

Flora sorriu para ele.

— Vamos todos descansar.

Aquele dia, com a notícia da nova lei de censura de Getúlio Vargas, havia pego o grupo de surpresa. Mas, apesar do medo e das dificuldades, eles estavam determinados a não desistir de apresentar o espetáculo. Glamour de Elvira ainda viveria, custasse o que custasse.

Após o jantar na pensão, todos estavam reunidos na sala, conversando e relaxando. De repente, Elvis se levantou, ajeitou a postura e, em um gesto inesperado, se ajoelhou diante de Carolina. Ele pegou delicadamente a mão dela, olhou nos olhos da amada e disse:

— Carolina, meu amor, aceita se casar comigo?

O ambiente ficou em completo silêncio. Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para o casal. Carolina, surpresa, abriu um sorriso e respondeu:

— Aceito sim, Elvis! Mas com uma condição... Nada de você estar de peruca e maquiagem no altar!

A sala explodiu em risadas. Edgar Murie foi o primeiro a se manifestar:

— Parabéns ao casal! Quero ser o padrinho!

Flora, entusiasmada, completou:

— E eu quero ser a madrinha, é claro!

Regina, já imaginando os preparativos, disse:

— Eu preparo o bolo!

Felipe, com um sorriso divertido, falou:

— E eu levo a noiva na minha Kombi!

Vanderson, sempre criativo, acrescentou:

— E eu faço o vestido da noiva... e o paletó do noivo!

Elvis riu, levantou-se e olhou para todos.

— Pessoal, calma! Primeiro vem o espetáculo teatral. Depois a gente pensa no casamento, combinado?

Todos riram e concordaram, voltando à conversa descontraída.

Mais tarde, na sala, Elvis e Carolina estavam a sós, desfrutando de um raro momento a dois.
O som da chuva lá fora criava um ambiente acolhedor e íntimo.
Elvis segurou novamente as mãos de Carolina e falou com ternura:

— Agora temos um futuro pela frente... um caminho para trilhar juntos.

Carolina sorriu e respondeu:

— É verdade. Mas quando juntarmos as escovas de dentes, só espero que você não demore para se arrumar, hein?

Elvis riu e respondeu, com bom humor:

— Fique tranquila, meu amor. Não vou estar de maquiagem e muito menos de peruca. Vou ter paciência para esperar você se arrumar.

Carolina deu uma risada leve.

— Que bom saber disso.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, ouvindo o som da chuva, antes de Carolina mudar o tom da conversa.

— Não acredito que meus pais se separaram...

Elvis a olhou com empatia.

— Nem eu acredito. Dona Ofélia e seu João? Depois de tanto tempo juntos...

Carolina suspirou, pensativa.

— Pois é. E ainda tem o senhor Rodrigues... Ele continua bebendo muito.

Elvis balançou a cabeça, preocupado.

— Mais do que o normal. O vício é complicado.

Carolina sorriu, mas com um ar triste.

— Quando ele souber que Elvis é a Elvira, aí ele se embriaga de vez!

Os dois caíram na risada, apesar do peso do assunto.

— Depois que minha mãe, Dona Lúcia, partiu, ele ficou assim... — disse Elvis, com a voz mais séria.

Carolina apertou a mão dele, demonstrando apoio.

— É difícil, meu amor. Perder alguém tão importante deixa marcas.

Aquela noite chuvosa foi um momento de reflexão para o casal. Conversaram sobre a vida, o passado e os desafios que enfrentariam juntos. Apesar das dificuldades, havia no ar uma sensação de esperança e cumplicidade.

Assim que o dia amanhece, todos estão à mesa tomando café. Edgar Murie, com um sorriso no rosto, olha para Flora e diz:

— Flora, você aceita?

Flora, confusa, pergunta:

— Aceito o quê, Edgar?

Ele sorri e responde:

— Passar o requeijão para mim.

Todos na mesa caem na risada. Vanderson comenta:

— Pensei que o Edgar Murie ia pedir a Flora em casamento.

Elvis brinca:

— Iria casar todos no mesmo dia?

Flora, tímida, responde:

— Edgar não se casa só com uma...

Felipe entra na brincadeira:

— É verdade, ele se casa com todas!

Carolina, segurando sua xícara de café, comenta:

— Edgar, você não toma jeito mesmo.

Regina ri e acrescenta:

— No dia que o Edgar Murie se casar, vai chover por um mês, dois, ou quem sabe mais!

Nesse momento, Alessandra entra na sala e cumprimenta a todos:

— Bom dia a todos! Me chamo Alessandra. Fiquei sabendo que aqui é o pessoal do grupo teatral Glamour de Elvira.

Todos respondem em coro:

— Bom dia! Prazer em conhecê-la.

Elvis pergunta, curioso:

— Quem te falou sobre a gente?

Alessandra explica:

— O senhor Tonho, ele é amigo do meu pai, Armando. Meu pai é um grande admirador de peças teatrais. Nós temos um espaço para alugar, com palco e tudo. Talvez vocês possam se mudar para lá e fazer os preparativos para um espetáculo para amigos e conhecidos.

Regina comenta, preocupada:

— E se os policiais ou soldados descobrirem?

Flora pondera:

— Não, se nos mudarmos de madrugada para o novo estabelecimento.

Edgar concorda:

— Isso poderia dar certo.

Vanderson anima-se:

— Vamos fechar o negócio!

Felipe pergunta ao grupo:

— O que vocês acham, pessoal?

Carolina reflete e diz:

— Pode ser bom para o espetáculo.

Alessandra sorri e acrescenta:

— O espaço fica em uma chácara.

Elvis comenta, interessado:

— Interessante.

Todos concordam em uníssono:

— Vamos nos mudar hoje mesmo!

Alessandra fica feliz e finaliza:

— Que bom poder ajudar o grupo de teatro!

O grupo de teatro Glamour de Elvira decidiu não abrir o salão hoje. Eles haviam percebido policiais e soldados fazendo rondas nas redondezas. A tensão era evidente. Edgar, preocupado, comentou:

— Eles estão em cima de todos os artistas.

Regina suspirou, nervosa:

— Eles querem censurar qualquer forma de expressão.

Elvis olhou pela janela e apontou:

— Olhem na esquina! Manifestantes! Eles estão protestando contra a lei da censura.

Flora se levantou, decidida:

— Vamos nos juntar a eles!

Felipe concordou:

— Sim, é importante nós todos unirmos esse momento.

Não podemos ficar parados.

Vanderson olhou para os outros e incentivou:

— Então, o que estamos esperando?

Carolina, com determinação, disse:

— Vamos! Não podemos ficar de braços cruzados.

O grupo se juntou à multidão de manifestantes, que incluía artistas de várias áreas: músicos, atores, desenhistas, pintores e escritores. Todos seguravam cartazes e gritavam em coro:

— Liberdade para a nossa arte!

A rua estava cheia de vozes clamando por justiça. Policiais e soldados caminhavam ao redor, observando cada movimento da manifestação, com olhares atentos e ameaçadores. No meio da confusão, um grupo de jovens pichadores começou a atirar pedras nas vitrines das lojas próximas.

Edgar olhou para o caos e alertou:

— Pessoal, é melhor nos afastarmos. Isso está deixando de ser pacífico.

Flora concordou, aflita:

— É verdade. Vamos voltar para a pensão antes que algo pior aconteça.

Vanderson olhou ao redor, preocupado:

— O perigo está no ar. Precisamos sair daqui antes que seja tarde.

Carolina chamou os outros:

— Elvis, Felipe, vamos logo!

Mas, de repente, no meio da confusão, Felipe foi atingido por uma pedrada na cabeça. Ele caiu no chão, atordoado. Regina gritou em desespero:

Pessoal!... Alguém... ajude o Felipe!... Ele está caído no chão!"

Sem pensar duas vezes, Edgar Murie pegou Felipe nos braços e o carregou com urgência até a Kombi que estava estacionada perto da pensão. Elvis abriu a porta, e o grupo entrou apressado. Todos estavam visivelmente assustados, temendo pelo amigo.

Ao chegarem ao hospital, Felipe foi levado às pressas para atendimento. O grupo aguardava na sala de espera, ansioso e em silêncio, com a tensão pairando no ar. Depois de longas horas de espera, finalmente receberam a notícia.

— Ele está bem — informou o médico. — Foi apenas um ferimento superficial. Ele precisará de repouso, mas ficará completamente recuperado.

O alívio tomou conta de todos. Apesar do susto, eles sabiam que o perigo ainda não havia passado. A luta pela liberdade artística continuava, mas, por ora, estavam gratos por Felipe estar salvo.

Tensão na Madrugada:

Felipe permanecia no hospital, ainda em recuperação, com Regina como sua acompanhante. Enquanto isso, Edgar Murie ajudava Elvis, Vanderson, Flora e Carolina a colocarem as mudanças do espetáculo na Kombi. O grupo estava determinado a levar tudo para a nova chácara, mas a tensão era palpável.

Elvis, olhando ao redor, comentou em tom baixo:

— Tem policiais por toda parte da cidade. Precisamos encontrar, pelo mapa, um jeito de sair sem que nenhum policial ou soldado nos siga.

Carolina sugeriu:

— Amor, vamos pela estrada da cachoeira. É mais isolada.

Edgar Murie assentiu:

— Vamos conseguir. Temos que ser rápidos e cuidadosos.

Vanderson concordou, analisando o plano:

— Sim, essa estrada é bem distante dos bairros da cidade. É a melhor opção.

Flora, inquieta, completou:

— Então, vamos. Não podemos perder tempo.

Com tudo pronto, os amigos entraram na Kombi e seguiram em direção à chácara. O caminho parecia tranquilo. A paisagem da estrada da cachoeira era silenciosa, e por um momento, o grupo sentiu-se aliviado. Porém, a calmaria não durou muito. Pelo retrovisor, Elvis avistou uma viatura policial.

— Temos que sair rápido dessa estrada! — exclamou Elvis, mantendo a voz firme, mas tensa. — Tem uma viatura policial ao longe, e eles estão se aproximando.

Edgar Murie olhou para frente, tentando pensar rápido:

— Assim que encontrarmos uma estrada secundária, esconda a Kombi. Não podemos ser vistos.

Vanderson apontou para o mapa:

— Ali! Escondam a Kombi perto do canavial. É um bom lugar para despistá-los.

Flora, olhando para trás, alarmou:

— Eles estão se aproximando! Temos que ser rápidos!

Carolina notou uma entrada estreita e gritou:

— Esconde ali, naquela estrada!

Por sorte, o grupo encontrou uma pequena estrada secundária. Elvis desligou os faróis da Kombi e a estacionou atrás de um canavial espesso. Todos permaneceram em silêncio, prendendo a respiração enquanto a viatura passava lentamente. Felizmente, os policiais não perceberam nada e seguiram em frente, desaparecendo na estrada principal.

Algumas horas depois, quando tiveram certeza de que estavam seguros, o grupo retomou o caminho. A tensão ainda pairava no ar, mas o alívio de não terem sido descobertos os impulsionava a continuar. Após mais algum tempo de viagem, finalmente chegaram à chácara "Encanto do Pomar", o local onde planejavam começar uma nova fase para os ensaios teatrais.

O ambiente era tranquilo e acolhedor, com um espaço perfeito para o grupo se reunir e preparar o espetáculo. Apesar do perigo e da perseguição, o grupo sabia que a luta pela arte e pela liberdade continuava. Eles estavam prontos para recomeçar.

Dia especial:

Depois de se acomodarem na chácara, no dia seguinte, Alessandra abriu as portas do salão cultural. Edgar Murie, Elvis, Flora, Vanderson e Carolina ficaram impressionados com o lugar. O espaço era amplo, iluminado e perfeito para o espetáculo. Aos poucos, todos começaram a ajeitar as coisas e a organizar o local.

Edgar Murie, com entusiasmo, sentou-se em uma mesa improvisada e começou a desenhar os panfletos do espetáculo, enquanto explicava com orgulho:

— A peça vai se chamar Glamour de Elvira: Edição Especial. Vai ser um sucesso!

Enquanto isso, Elvis, já mergulhado em seu papel como Elvira, estava em frente a um espelho. Ele vestia um longo vestido brilhante, uma peruca exuberante, batom vermelho e maquiagem impecável. Fazia poses dramáticas e recitava falas com uma voz exagerada. Alessandra ficou boquiaberta ao vê-lo:

— Elvis... você é incrível! Parece mesmo a Elvira! — exclamou, aplaudindo.

Elvis virou-se para ela com um olhar teatral, colocou uma das mãos na cintura e respondeu, em tom dramático:

— Meu bem, Elvira não é só um personagem. É uma experiência!

Todos explodiram em risadas. Vanderson, que estava no canto terminando de desenhar o croqui para a edição especial, olhou para Elvis e provocou:

— Se der errado no teatro, já sabemos que você tem futuro na moda!

Carolina, que estava no lugar de Regina, costurava o vestido que Elvis usaria na peça. Ela balançava a cabeça e ria:

— É sério, tem horas que eu não aguento. Ver o Elvis como Elvira me faz chorar de tanto rir!

Elvis, fingindo indignação, respondeu enquanto ajeitava a peruca:

— Querida, não ria. Você está na presença de uma diva. Este teatro vai dar o que falar!

Nesse momento, Senhor Armando, pai de Alessandra, entrou no salão, aplaudindo.

— Bravo! Bravo! Que energia maravilhosa! É um privilégio receber vocês aqui. O teatro é uma arte inspiradora!

Vanderson, animado, respondeu prontamente:

— Eu concordo com o senhor. Inspirador e transformador!

Flora, que estava empolgada com o progresso do grupo, completou:

— Em breve, o senhor vai assistir à peça de camarote. Prometemos que será inesquecível!

Elvis, com sua pose exagerada como Elvira, fez uma reverência teatral e disse:

— Em nome de todos nós, muito obrigado por ceder este espaço tão especial, Senhor Armando.

Armando sorriu com satisfação e respondeu:

— Vocês são sempre bem-vindos. É um prazer ver um grupo tão dedicado à arte.

Aquele dia foi especial para Senhor Armando e sua filha Alessandra. A energia criativa e o bom humor do grupo contagiaram a todos, e o salão cultural da chácara "Encanto do Pomar" começava a ganhar vida com o espetáculo que prometia ser um grande sucesso.

Bem-vindo nosso amigo

Passados alguns dias, Felipe e Regina chegaram à chácara. Na varanda, uma mesa estava preparada com um banquete especial, recheada de comidas deliciosas, para comemorar a recuperação de Felipe e a amizade que unia todos. Antes de começarem a refeição, uma oração foi feita em agradecimento por estarem juntos e por tudo que haviam enfrentado.

Felipe, emocionado, olhou para todos e disse:

— Obrigado, pessoal, por essa surpresa. Vocês não sabem como isso significa para mim.

Elvis, sempre animado, respondeu com um sorriso:

— Você merece, Felipe! Estamos felizes por você estar de volta.

Edgar Murie, apontando para o bolo no centro da mesa, disse:

— Foi a Flora quem fez o bolo. Ela caprichou.

Regina, já comendo um pedaço, comentou:

— Está uma delícia! Flora, você arrasou.

Flora, um pouco tímida, agradeceu:

— Ah, obrigada. Fiz com muito carinho para todos.

Vanderson, olhando para o grupo, lembrou:

— Amanhã é o grande dia! Nossa estreia teatral: Glamour de Elvira.

Carolina assentiu, sorrindo:

— É verdade! Os dias passaram tão rápido. Nem acredito que já chegou o momento.

Felipe, com esperança no olhar, disse:

— Vai dar tudo certo. Estamos prontos para brilhar.

Nesse momento, Senhor Armando entrou na varanda com um sorriso caloroso.

— Seja bem-vindo de volta, Felipe. É bom ver você recuperado.

Felipe sorriu e respondeu:

— Obrigado, Senhor Armando. Obrigado também a você, Alessandra, por todo apoio.

Alessandra retribuiu o sorriso, e o clima de amizade e gratidão tomou conta do grupo. Naquele dia, Felipe percebeu o quanto era sortudo por ter amigos tão especiais e raros. A união deles era algo especial por trás de tudo que estavam prestes a alcançar.

Grande espetáculo:

O espaço teatral estava lotado, repleto de pessoas ansiosas para assistir à tão comentada peça Glamour de Elvira: Edição Especial. Edgar Murie, com um sorriso de orelha a orelha, corria pelo salão tirando fotos enquanto organizava os últimos detalhes. Ele estava visivelmente orgulhoso de ver seu grupo conquistando o público.

No palco, Elvis, deslumbrante como Elvira, arrancava aplausos e gargalhadas com sua performance cheia de trejeitos e poses exageradas. Carolina, por sua vez, interpretava o Major Luís, um militar grosseirão, porém intensamente apaixonado por Elvira. O público estava encantado, não apenas pela história, mas também pela forma como os papéis desafiavam e brincavam com os estereótipos. Mulheres admiravam como Elvis conseguia interpretar tão bem uma mulher sofisticada, enquanto os homens ficavam impressionados com a postura firme e convincente de Carolina como o Major.

Em uma das cenas mais marcantes, Elvira caminhava pelo palco com um vestido extravagante e um olhar de superioridade, enquanto o Major Luís a seguia, tropeçando e visivelmente bêbado. Elvira parou no centro do palco, colocou as mãos na cintura e declarou, com um tom dramático:

— Eu não sou uma mulher qualquer, Major Luís!

O Major, cambaleando, respondeu com um sorriso bobo:

— Sei disso, Elvira... Você é única.

Elvira, com caras e bocas, revirou os olhos e continuou:

— Para ter glamour, é preciso mais do que beleza. É preciso atitude, postura, e principalmente ter paz! E como eu vou ter glamour com um homem bêbado dentro de casa?

O público explodiu em risadas. Carolina, no papel do Major, fingiu um tropeço e respondeu com um tom exageradamente apaixonado:

— Sei que sou um bêbado, Elvira, mas sou um bêbado apaixonado... apaixonado por uma mulher de glamour como você!

Elvira, sem perder o ritmo, rebateu:

— Ah, é? E o que você carrega com esse "amor" por mim, Major Luís?

Carolina levantou uma garrafa cenográfica debaixo do casaco militar e gritou, arrancando gargalhadas da plateia:

— Um alambique, Elvira! Porque sem um bom gole de cachaça, não consigo lidar com tanto glamour!

A plateia foi à loucura, rindo e aplaudindo a química e o humor dos atores no palco. A cena seguinte trouxe um momento inesperado: Elvira e o Major sentaram-se lado a lado no palco, em um tom mais reflexivo. Elvis, como Elvira, olhou para o público e disse:

— Sabe, glamour não é só o que a gente veste. Não é só maquiagem ou pose. Glamour é saber quem você é, mesmo que o mundo tente te dizer o contrário.

O Major concordou, olhando para Elvira com admiração:

— E às vezes, o glamour está na simplicidade. No amor, na amizade, e em não desistir, mesmo quando tudo parece difícil.

O silêncio tomou conta do teatro, e o público refletiu por um momento. Mas, antes que a emoção tomasse conta, Elvira se levantou de repente, deu um giro dramático e declarou:

— E agora, com licença! Porque uma mulher de glamour como eu não tem tempo para filosofar muito... Tenho uma vida para brilhar!

O público se levantou em aplausos, ovacionando o elenco. Atrás das cortinas, o grupo estava emocionado. Felipe, ainda com um curativo na cabeça, ajudava Vanderson a organizar o cenário, enquanto Flora sorria, visivelmente orgulhosa.

Após o espetáculo, Senhor Armando subiu ao palco para parabenizar o grupo.

— Vocês não apenas fizeram rir e emocionar, mas também tocaram os corações das pessoas. O teatro é isso: uma mistura de humor, emoção e reflexão. Vocês são verdadeiros artistas!

Elvis, ainda vestido como Elvira, pegou o microfone e disse em tom brincalhão:

— Obrigado, Senhor Armando! E se precisar de glamour na sua vida, sabe com quem falar!

Todos riram, e o clima de celebração tomou conta do espaço. Naquela noite, Felipe, Edgar, Flora, Vanderson, Carolina, Elvis, Alessandra e o Senhor Armando perceberam que o sucesso não estava apenas no espetáculo, mas na amizade e união que haviam construído. Afinal, a vida, como o teatro, é feita de momentos que nos fazem rir, chorar e, principalmente, compartilhar.

O Glamour Venceu

Na manhã seguinte ao espetáculo, o jornal da cidade estampava na capa:
"GLAMOUR DE ELVIRA ENCANTA E RESISTE: ARTE TRIUNFA SOBRE A CENSURA".

A repercussão foi tão intensa que chegou até os corredores de Brasília. Getúlio Vargas, já exausto pelas investidas fracassadas contra o grupo, soltou um suspiro ao receber o relatório:

— Eles venceram pelo cansaço... — murmurou, largando o jornal na mesa. — Que façam sua turnê na Europa. O Brasil não segura mais esses malucos geniais.

Enquanto isso, na vila, a comemoração ainda ecoava. Senhor Rodrigues, pai de Elvis, apareceu de forma inesperada no galpão que agora servia como a sede oficial do grupo teatral.

Ao vê-lo, Elvis parou, ainda com traços de maquiagem no rosto e os sapatos de salto pendurados no ombro.

— Pai...? — disse, surpreso.

Senhor Rodrigues observou o filho por um instante, depois olhou para um pôster com Elvira em pose dramática. Sua expressão endureceu… até que explodiu numa gargalhada.

— Então era você o tempo todo? Eu sabia! Aqueles olhos... são os mesmos da sua mãe! — disse ele, com uma lágrima no canto do olho. — E vou te contar: eu nunca imaginei que teria tanto orgulho do meu filho por se transformar na mulher mais falada do país!

O abraço que se seguiu foi mais do que reconciliação — foi libertação. Senhor Rodrigues, tocado pelo espetáculo, confessou:

— Sabe, ver você no palco me fez enxergar muita coisa. Talvez seja hora de eu deixar a bebida. Se você teve coragem pra ser Elvira… eu posso ter coragem pra mudar.

Casamento de Palco, Amor Real

Dias depois, no teatro onde tudo começou, o grupo montou uma cerimônia simbólica para celebrar o amor entre Elvis e Carolina. Flores brilhantes, tecidos dourados e um cenário inspirado em Paris criaram o clima perfeito. Flora tocava piano, Felipe dedilhava um violino emocionado.

Elvis, ainda com um toque de Elvira no olhar, declarou:

— O amor é o maior espetáculo da vida.

— E o nosso é com plateia cheia! — completou Carolina, rindo.

A plateia foi ao delírio quando Vanderson ergueu um copo e anunciou:

— Brindemos com cachaça... sem álcool! Por respeito ao sogro do noivo!

Chegada na Europa

Meses depois, o grupo desembarcava em Paris. Na escadaria do avião, sob os flashes de fotógrafos e o burburinho da imprensa internacional, Elvis, vestido como Elvira, usava um sobretudo de veludo roxo e óculos escuros que escondiam, mas não apagavam, o brilho nos olhos.

Edgar organizava a foto com todos os membros do grupo, alinhados em frente à Torre Eiffel. Senhor Rodrigues segurava uma pequena bandeira do Brasil. Carolina estava ao lado de Elvis, sorrindo com orgulho.

Antes do clique final, Elvis tirou os óculos, olhou diretamente para a lente da câmera e declarou:

O teatro é a arte da vida.
Onde há um ator, uma atriz, há uma alma que traduz o mundo em sentimento.
Diziam que eu não podia ser Elvira. Pois agora, eu sou Elvira para o Brasil... e para o mundo.

O clique veio em seguida. Um flash eterno.

A imagem estampou capas de revistas internacionais com a manchete:
“Do subúrbio ao estrelato: o glamour brasileiro conquista a Europa.”

Na plateia europeia, o público se levantava em aplausos após cada apresentação. A história de amor, coragem, humor e resistência do grupo ecoava pelos teatros, provando que a arte sempre encontra seu caminho.

Porque, no fim das contas, o glamour não era apenas uma questão de figurino ou maquiagem. Era atitude. Era voz. Era viver, amar e resistir... no palco e fora dele.

E a última frase da peça, dita por Elvira diante de uma plateia em Berlim, resumiu tudo:

— O mundo pode tentar apagar a luz da arte... mas enquanto houver palco, a gente brilha.

O glamour venceu.
E continuará vencendo pelos palcos teatral da vida.

Agradeço a todos que leram  essa história.]

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