Valente do Agreste:
No sertão arretado de Pérola do Agreste, a história de Josuel Valente, um homem injustamente preso, ganha vida com emoção, humor e poesia sertaneja. Após oito anos no cárcere, Valente escapa misteriosamente antes de sua soltura oficial, deixando a cidade em alvoroço e o temido prefeito Carmozinho em alerta.
Enquanto busca redenção, o reencontro com o amor perdido Regina e tendo a sua paz de espírito com a ajuda do místico Profeta Tenório, Valente cruza caminhos com figuras carismáticas como o apaixonado Crispim, a destemida irmã enfermeira Paula, o esperto bebado Sabiá, o fiel cunhado Antônio, entre tantos outros.
Nessa jornada entre o certo e o errado, Valente precisa fazer uma escolha: seguir o caminho da vingança ou se arrepender e buscar a paz — e um amor que, desta vez, pode ser correspondido.
História criada escrita por Edivaldo Lima.
História de Minissérie.
Uma história em 6 Capítulos
Gênero: drama, comédia,romance,mistério
Personagens principais: Josuel Valente, Crispim,Regina personagens secundários:Elza, Antônio, Dr.Ari, enfermeira Paula, Mada, Sargento Mouro, subcomandante Edgar, profeta tenório, Mendigo sabiá, Menino Pedro, Zezinho,Menina Susane, prefeito carmosinho, china do agreste,Tereza,Ariosto, padre Marcelo.
[Capítulo 1: O Luau de Pérola do Agreste
A lua cheia iluminava a pequena cidade de Pérola do Agreste, um pedacinho do sertão nordestino que parecia parado no tempo. Era 6 de fevereiro de 1956, e o calor do dia ainda se fazia sentir, mesmo sendo oito horas da noite. O céu estrelado cobria o bairro simples onde Crispim vivia, na sua casinha de barro e telhados de palha. Sentado na varanda de casa, o velho rádio a pilha tocava um xote animado, enquanto ele mordia a ponta de uma rapadura, sentindo o doce derreter devagar na boca.
Crispim, um homem de uns trinta e poucos anos, pele curtida pelo sol e um bigode que parecia ter vida própria, olhava o céu e suspirava:
— Ô, vida boa! Nada melhor que uma noite dessas, o rádio tocando um bom forró, uma rapadura pra adoçar a boca e o silêncio do sertão... Só faltava mesmo uma mulher de boa companhia. — Ele deu uma leve risada e completou, meio sonhador: — Uma prenda feito Regina... A danada tem umas curvas que até Deus parou pra caprichar, ôxe! Quadril daquele jeito só vendo pra acreditar!
Enquanto Crispim viajava em seus pensamentos , o som de uma gaitinha cortou o silêncio da noite. Era Sabiá, o mendigo da região, conhecido por andar sempre com a velha gaita pendurada no pescoço. Ele apareceu devagar, com sua roupa surrada e uma cara de quem já tinha visto mais do que queria na vida. Tocava uma melodia melancólica que parecia carregar toda a aridez do sertão.
— Boa noite, Crispim! — falou Sabiá, guardando a gaita no bolso e ajeitando o chapéu de couro.
Crispim, sem tirar os olhos da lua, respondeu com a calma de quem não tinha pressa pra nada:
— Boa noite, Sabiá. Tá bonito isso aí que ocê tá tocando... Música boa combina com um luau desse. Só falta mesmo um danado dum vento pra espantar o calor.
Sabiá riu, mostrando os poucos dentes que lhe restavam.
— E falta mesmo é ocê tomar coragem, homem de Deus! Tira Regina pra dançar no próximo baile! Eu te digo, Crispim, tá perdendo tempo. A vida é curta e o forró é longo, cabra.
Crispim fez um gesto com a mão, como quem enxota uma preocupação.
— Ocê acha que é fácil, é? A danada só dança com o prefeito Carmosinho! Num tem jeito, Sabiá, ela nem olha pra cabra da roça feito eu.
Sabiá coçou a cabeça e, com o olhar meio desconfiado, perguntou:
— Será que Carmosinho dá uns trocados pra ela? Ou é só doideira minha?
Crispim ficou pensativo, mordendo mais um pedaço da rapadura. Ele olhou pro céu, como quem busca uma resposta nas estrelas, e falou, meio que pensando alto:
— Sei não, Sabiá... Só sei que vale a pena um forró com aquela prenda, viu? Aquela cintura dela parece que foi feita pra rodar no salão. Mas ó, Carmosinho é liso que só pau de sebo, num sei se ele tem dinheiro pra pagar nada, não.
Sabiá riu de novo, agora mais alto.
— É, Crispim, mas ocê é um frouxo, hein? Tá esperando o quê pra chamar a mulher? Se fosse eu, já tava dançando com ela faz tempo. E digo mais: se ela dissesse não, eu chamava outra! O forró não pode parar, homem!
Crispim balançou a cabeça, meio rindo, meio frustrado.
— Ocê fala isso porque nunca viu aquele olhar dela de perto, Sabiá. Parece que fura a alma do cabra. Mas eu vou pensar nisso, viu? Quem sabe no próximo baile eu tiro coragem de algum canto.
Os dois ficaram ali na varanda, conversando e rindo, enquanto o rádio a pilha tocava Luiz Gonzaga. A noite avançava devagar, como tudo no sertão, e o silêncio só era cortado pelo som da gaitinha de Sabiá e pelas histórias engraçadas que ele contava. Entre risadas e suspiros, Crispim olhava a lua e pensava em Regina, na dança que ainda não tinha acontecido e nas possibilidades que o próximo forró poderia trazer.
Capítulo 2: O Encontro à Sombra do Jatobá
O sol do sertão já começava a castigar logo cedo, como era de costume em Pérola do Agreste. Mas naquela manhã, algo diferente estava no ar. Regina, a mulher mais comentada da região, estava sentada na cadeira de balanço da sala, abanando o rosto com um leque e ouvindo a rádio Zabumba FM. O forró de Luiz Gonzaga tocava, e ela cantarolava baixinho, com aquele sorriso que só ela sabia dar.
De repente, seu irmão mais novo, Zezinho, entrou correndo pela porta com uma carta na mão.
— Ôxe, Regina! Chegou uma coisa pra tu! Parece coisa de novela, viu? — disse ele, entregando o papel com um olhar curioso.
— Uma carta? Pra mim? — perguntou Regina, surpresa. Pegou o envelope e abriu com cuidado. Sua expressão foi mudando conforme lia.
Na carta, estava escrito:
Doçura do pé de jatobá,
Um simpático roceiro quer te encontrar.
Às 4:30, aceita passar a tarde na sombra,
Comendo fruto de jatobá e admirando o açude como se fosse o mar.
Assinado: Admirador discreto do Agreste."
Regina leu a carta em voz alta, e quando terminou, soltou uma risadinha, já imaginando quem poderia ser.
— Olha só... "Admirador discreto do Agreste!" — disse ela, com um sorriso maroto no rosto. — Quem será esse cabra? Será que é algum daqueles metidos a poeta lá do mercado?
Zezinho, que não perdia uma chance de fazer graça, já foi logo soltando:
— Num é o prefeito, não, viu? Carmosinho só escreve bilhete pedindo voto!
Regina riu alto e balançou a cabeça.
— Sei não, Zezinho. Mas faz tanto tempo que eu não vou pro açude... Bem que um banho naquele calorão faria um bem danado. Acho que vou, viu? Só pra descobrir quem é esse "admirador discreto".
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Crispim estava sentado embaixo da árvore de umbuzeiro, olhando pro relógio de bolso e pensando na carta que tinha escrito na noite anterior.
— Até que enfim criei coragem... Escrevi pra Regina. Agora é só esperar. Tomara que ela aceite ir nesse encontro, meu Santo Antônio! — disse ele, passando a mão no bigode, nervoso.
Ele já tinha ensaiado o que ia falar, mas, como era de se esperar, só de imaginar Regina na sua frente, o coração já começava a bater mais forte.
— Ô mulher arretada... Será que ela vai? Será que vai rir da minha cara? — Crispim falava sozinho, ajeitando o chapéu de palha. — Ah, meu Deus, que coisa difícil é gostar de uma prenda dessas!
Com o passar das horas, o calor do sertão só aumentava, mas Crispim estava determinado. Perto das 4:30, ele foi até o açude, levando consigo uma cesta com frutas, uma garrafa de água e um punhado de jatobás, fresquinhos do pé. Chegou cedo e ficou ali, ajeitando o lugar debaixo da sombra do jatobazeiro, enquanto olhava o reflexo do sol na água do açude.
Quando deu a hora, Regina apareceu, vestida com um vestido florido que balançava com o vento quente. Seus cabelos estavam presos num coque, e ela carregava um sorriso curioso no rosto. Ao ver Crispim, parou por um instante, surpresa.
— Ué, Crispim? Tu que é o "admirador discreto do Agreste"? — perguntou ela, com as mãos na cintura e uma sobrancelha arqueada.
Crispim levantou de um pulo, tirando o chapéu e passando a mão na testa suada.
— Sou eu mesmo, Regina... Eita, tava achando que era outro, é? — disse ele, com um sorriso tímido e o rosto vermelho.
Regina cruzou os braços, mas o sorriso continuava no rosto.
— Pois confesso que não tava esperando por isso. Mas agora fiquei curiosa... O que foi que te deu pra escrever uma carta assim?
Crispim respirou fundo, juntou toda a coragem que tinha e começou:
— Regina, eu sei que sou só um cabra simples, um roceiro que mora aqui no meio do nada. Mas, desde que te vi dançando no salão com Carmosinho, num teve uma noite que eu não pensasse em tu. Ocê é uma mulher arretada, cheia de graça... E eu queria muito te conhecer melhor. Saber o que tu gosta, o que tu sonha... Essas coisas.
Regina ficou em silêncio por alguns segundos, encarando Crispim. Depois, soltou uma risada gostosa.
— Eita, Crispim, tu me surpreendeu hoje, viu? Nunca imaginei que tu tivesse esse lado tão... Poético! "Doçura do pé de jatobá"? Quem diria!
Crispim sorriu, aliviado.
— Ah, mulher, eu nem sei direito como escrevi aquilo. Só sei que é o que eu sinto.
Regina pegou um jatobá da cesta, sentou-se na sombra e fez sinal pra ele se sentar também.
Pois bem, já que eu vim até aqui, acho que dá pra gente conversar um pouco, não é? Quem sabe esse "admirador discreto" não me surpreende mais um tantinho?
Crispim sentou ao lado dela, ainda meio nervoso, mas com o coração cheio de esperança. Passaram a tarde conversando, rindo e descobrindo mais um sobre o outro. O açude, com suas águas calmas, parecia mesmo um mar, e a sombra do jatobá virou testemunha de um encontro que prometia mudar as vidas dos dois.
Quando o sol começou a se despedir, Crispim olhou para Regina e, com um sorriso tímido, disse:
— Regina, acho que hoje foi o dia mais bonito que já vivi.
Ela sorriu de volta, com aquele olhar que parecia iluminar até o sertão mais seco.
— Pois saiba, Crispim, que tu me surpreendeu. Quem sabe a gente não dança no próximo forró, hein?
Crispim sentiu o coração disparar e, pela primeira vez, teve certeza de que, naquele dia, o sertão estava a seu favor.
Capítulo 3: A Fuga de Valente
Na cadeia de pedra quente da cidade de Pérola do Agreste, o relógio batia seis e meia da tarde. O sol já ia se pondo devagarinho, tingindo o céu com tons de fogo e poeira. Lá dentro da cela número 7, Josuel Valente, cabra conhecido por todo canto como Valente do Agreste, segurava com carinho uma foto amassada de Regina. O olhar dele era misto de saudade e esperança.
— Ocê num imagina, Regina... essa tua beleza arrasta coração de qualquer cabra véi do sertão... Sorriso teu é que nem raio de sol depois de semana de seca. Nunca esqueço o dia que te vi na quermesse... dançava feito vento manso, e eu ali, bobo. Foi só chamar, você aceitou na hora...
Ele deu um suspiro fundo.
— Mas aí... foi virando estrela dos bailes, né? Todo mundo queria dançar contigo. Até o cabra safado do prefeito Carmosinho, aquele lambedor de gravata. Chegou com buquê caro,aqueles chique de cena de novela , e tu virou dama de companhia dele. Até que um dia, eu disse: "Num dá mais não!" Fui lá tirar satisfação...
O olhar dele endureceu.
— Mas os segurança me pegaram, o baile parou, e eu vim parar aqui... oito anos comendo feijão azedo e pão duro. Mas amanhã... amanhã eu vô simbora daqui, e vô pedir teu perdão, Regina. Quem sabe tu ainda guarda um lugar pra mim?
Enquanto a lua subia no céu do sertão, as luzes da cidade começavam a apagar uma por uma. Numa casinha de barro, afastada da praça, reunia-se o grupo da libertação: Elza, Antônio, Sabiá — o mendigo sábio — e a principal peça do plano, Paula, enfermeira do posto de saúde e irmã de Valente.
— Tá tudo certo. Os home do presídio num vão saber de nada. O chá já tá pronto, disse Paula, mostrando uma garrafa coberta com pano de crochê.
— Esse chá é do forte, viu? Minha mãe usava pra fazer meu pai largar de sair pros forró... bebia, dormia que nem pedra no rio, disse Antônio, rindo.
Sabiá, sentado no chão, tirou de um saco um embrulho.
— Tá aqui as roupa de vaqueiro que consegui. Camisa de botão, chapéu e alpercata. Ninguém vai desconfiar.
Elza ajeitava um feixe de cabelo na testa e falou:
— Só precisa agora botar esse chá na mão certa. Paula, tu tem a chave dessa parte.
— Deixa comigo. Eu já arrumei plantão essa noite. Levo o chá disfarçado de “calmante” pro Sargento Mouro, pro Subcomandante Edgar e pros guardas todos. Vai ser um chá de bode que vai fazer até jagunço roncar feito criança.
— Chá do quê, mermo?, perguntou Sabiá.
— Dorm’bode, respondeu Paula. — Esse nome veio da minha avó. Um gole, e o sujeito apaga. Nem galo cantando acorda.
Mais tarde, no presídio, Paula entrou sorrindo.
— Boa noite, sô Sargento... trouxe o chá que ajuda a dormir. É novo lá do posto, feito com erva de passarinho,chocolate de mulata e raiz de dormideira.
Sargento Mouro coçou a barriga.
— Ôxe... esse nome é bom. Tô precisando mesmo dum trem pra pegar no sono. Subcomandante Edgar tá lá resmungando, nem cochila mais.
— Pois tome aqui. Um golim só e o sono vem ligeiro que nem preá em fuga.
Meia hora depois, todos os guardas estavam estirados nas redes, roncando tão alto que parecia coral de porco na lama.
Valente ouviu a chave girar. Paula entrou rápido.
— Vamos logo, cabra! A hora é essa!
Ele vestiu a roupa de vaqueiro, meteu o chapéu até a testa e seguiu com ela por um corredor silencioso. No portão dos fundos, Elza os esperava com uma carroça puxada por uma jumenta chamada Francisquinha.
— Quartos, quartos!
Valente pulou, quase caindo em cima de Sabiá, que já estava disfarçado de padre.
— Ora, meu filho... vamos fugir com fé e coragem!, disse Sabiá, fazendo o sinal da cruz.
Antônio estalou o chicote e a carroça saiu em disparada pela estrada de terra, sumindo na escuridão do mato.
Horas depois, o sol começava a clarear, e um galo cantou bem alto. No presídio, Sargento Mouro acordou babando, com a cara colada na mesa.
— Qu’eu tô fazendo aqui? Cadê o preso? CADÊ O VALENTE?!
Um grito ecoou pela cadeia.
— ELE FUGIU!
Enquanto isso, Valente e o grupo estavam já escondidos no sítio do velho Tenório, o profeta que vivia dizendo que ia chover no dia errado.
— Agora é que começa a segunda parte, meu irmão, disse Paula. — Tu tá livre. Mas pra conquistar Regina de volta... vai ter que ser mais valente ainda.
Valente sorriu.
— O sertão me ensinou a lutar. Agora é com o coração. Mas primeiro... vamo botar Carmosinho pra correr dessa cidade!
E a carroça seguiu pela estrada de terra, com o sol nascendo por trás dos mandacarus, e um novo capítulo da lenda do Valente do Agreste estava começando.
Capítulo 4:Notícia ao Povo
Na Rádio Zabumba FM — 6:02 da manhã
O sol nem tinha esquentado direito e o povo já tava botando água no fogo pra fazer café e cuscuz. No estúdio abafado da Rádio Zabumba FM, o radialista Zezinho da Zabumba, com sua voz forte e carismática, se preparava pra dar uma notícia que ia estremecer o Agreste.
— Bom diaaaa, meu povo sofrido e guerreiro do sertão! Agradeça a Deus por mais um dia de luta! Segura o café, que a notícia é quente!
— Notícia urgente! Não quero atrapalhar o cuscuz de vocês, mas essa aqui vai deixar até o prefeito Carmozinho sem colher na mão...
— Na madrugada de hoje, antes mesmo do galo cantar, Josuel Olívio, conhecido no mato e na cidade como Valente do Agreste, fugiu do presídio! Isso memo que ocês ouviram!
— Nem o Sargento Mouro, nem o Subcomandante Edgar sabe dizer como o cabra sumiu. Mistério grande... porque ele ia sair oficialmente só às dez da manhã de hoje. Agora tão tudo doido fazendo ronda no sertão... mas o Valente? Sumiu no mundo feito vento em tarde seca!
Na Casa do Prefeito Carmozinho
— Esse cabra fugiu antes da hora... tá tramando alguma coisa contra mim, eu tenho certeza!
O prefeito Carmozinho falava cuspindo migalha de pão na toalha bordada, com o bigode pingando manteiga.
— Tereza, ôxe... esse teu cuscuz tá uma bênção de Deus! Ocê tem mão de mulher prendada. Tá contratada, viu?
Tereza, com olhar agradecido, ajeitou o lenço na cabeça.
— Obrigada, seu prefeito. Tava mesmo precisando desse emprego.
— Pode ir pra cozinha agora. Bom dia, viu?
— Bom dia pro senhor também.
Carmosinho, de olho nas pernas da moça, murmurou sozinho:
— Essa Tereza... é um mulherão dos bons...
— Ariosto, tira o carro que eu vou pra prefeitura resolver essa desordem!
— Tô indo, patrão!
No sítio do Velho Tenório
Valente tava estirado na rede, de olho fechado, respirando o ar livre que há oito anos não sentia.
— Esse sítio seu é um pedaço do céu, viu, seu Tenório... aqui tem paz... tem silêncio...
O velho profeta, sentado de perna cruzada, meditando de olhos fechados, falou com calma:
— Encontre a paz onde a paz se esconde... em vez de vingança, pratique o perdão... só assim, jovem, ocê vai ser livre de verdade...
— Ocê fala bonito, Tenório... parece até que leu minha cabeça...
— Ser sábio não é tudo... ser justo, ser do bem, é o que vale no fim. Aproveita esse tempo escondido, Valente... busca tua felicidade... num deixe o ódio se criar dentro de você não.
Tenório se levantou e, com um gesto lento, tirou um livro velho do bolso do colete e entregou ao Valente.
— Esse livro aqui... foi o que me ajudou a sair da escuridão. Depois da Bíblia, foi o mais importante pra minha alma. Pode ser útil pra tua caminhada também.
Valente segurou o livro com respeito e começou a folhear com atenção.
— Obrigado, seu Tenório... talvez eu precise mais disso do que de qualquer vingança...
Na cidade — no bar de Zé de Baixo
O assunto nas mesas era só um: a fuga.
Crispim entrou esbaforido no bar e viu Sabiá, o mendigo poeta, dormindo com a cabeça enfiada no prato vazio.
— Sabiá! Acorda, cabra véi!
— Ôxente! Tô acordado... só dei uma pestana... Tereza num deixou eu entrar em casa bêbado de novo. Dormi na calçada com os gato miando em cima de mim...
Crispim caiu na risada.
— Ocê não toma jeito, homem! Vive atrás de Tereza que nem cachorro atrás de carroça...
Sabiá, com os olhos inchados, murmurou:
— Mulherão que nem a Tereza é pra casar, viu? Que nem você fica abestalhado com a Regina...
— Tá, tá... falando nisso, sobre a fuga... tu acha que o Carmozinho deve tá tremendo nas canela?
— Oxente! Eu tenho certeza! Aquele cabra é mais frouxo que saco de feira furado... se o Valente aparecer na frente dele, se mija todo!
— Vou indo, Sabiá. Se cuida.
— Vá com Deus, Crispim... e com juízo, que é coisa rara por aqui...
Na casa de Paula
— Antônio, depois ocê passa lá no sítio e vê como Valente tá, viu?
— Claro, flor. É meu cunhado, né? Quero ver com meus próprio olho como ele tá.
— Mas cuidado, homem! Não deixa ninguém te seguir. Com o velho Tenório por perto, acho que ele vai se acalmar... largar de ideia besta de vingança.
— É... Tenório pode ser doido, mas é doido sábio. O povo ri dele, mas ele é é luz pra muita gente.
— Vou trabalhar. Se cuida, viu?
— Vai com Deus, Paula. Tô aqui.
Na casa de Regina
Regina olhava pela janela, preocupada.
— Onde será que Valente se escondeu, meu Deus...?
Zezinho, chegando da rádio, limpava o suor da testa.
— Não sei, minha irmã... mas deve tá bem escondido. Hoje eu ia ler as cartas dos ouvintes, mas tive que parar tudo por causa da fuga. Foi o assunto do dia!
— Eu ouvi tudim! Liguei o rádio assim que tu saiu pra rádio. E aí? Tem carta de Crispim pra mim, não?
— Num sei ainda... mas se tiver, eu vou ser o primeiro a ler. Aquele cabra é louco por tu, viu?
Regina riu, meio sem graça.
— É... acho que ele é mesmo...
Ela olhou de novo pra janela. No fundo dos olhos, uma mistura de saudade, medo e esperança.
Capítulo 5 penúltimo: A Descoberta de Valente
Era por volta das três da tarde quando Antônio chegou no sítio com a carroça, sacudindo poeira pela estrada. Foi aí que ele viu uma cena que gelou o sangue: o profeta Tenório, agachado no chão batido, socorria Josuel Valente, caído, suando frio, os olhos fechados, desacordado.
— Profeta Tenôrio, pelo amor de Deus... que foi que aconteceu com Josuel? — perguntou Antônio, pulando da carroça num pulo só.
O velho profeta, sereno feito o tempo, respondeu enquanto ajeitava o corpo de Josuel com cuidado:
— Ele passou mal de repente, mas às vez o mal num tá só no mundo, não... tá é nas coisa que a gente guarda aqui dentro ó... — bateu no peito. — Raiva, ódio, mágoa. Josuel tá carregando tudo isso, e o corpo dele num aguentô mais. Corre lá na cidade, chama o doutor Ari. Enquanto isso, eu cuido dele com as erva do mato. O sertão é remédio puro.
— Pode deixar, profeta. Vou agora mesmo! Aproveito e trago a Paula, a irmã dele! — gritou Antônio, já subindo na carroça de novo.
Tenório, já puxando Josuel com esforço pra dentro do casebre, ainda gritou lá de dentro:
— Vai ligeiro, Antônio! O tempo tá correndo e o coração dele tá fraco demais pra esperar!
Antônio disparou estrada afora com a carroça, o peito apertado, o pensamento voando. Sabia que Josuel não tava só doente. Tava partido por dentro.
Horas depois, já no hospital da cidade, Antônio entrou suado, ofegante. Encontrou Paula na enfermaria.
— Paula, minha flor... teu irmão tá mal! Foi o profeta Tenório quem socorreu ele. Mandou buscar o doutor Ari. A coisa é feia!
— Meu Deus do céu! O que foi que aconteceu com Josuel? — perguntou Paula, já se levantando apressada, o rosto aflito.
— Bora, chama logo o doutor Ari!
— Vou chamar agora! E vou com vocês também! — disse ela, enxugando uma lágrima com o lenço do bolso.
Momentos depois, no consultório, Paula, com a voz embargada, implorou:
— Doutor Ari... socorra meu irmão, pelo amor de Deus!
Dr. Ari ajeitou os óculos, desconfiado:
— Mas onde é que ele tá? E diga uma coisa, moça... você tá metida nessa fuga também, é?
— Tô sim, doutor. Eu, Antônio, o Sabiá e a Elza. Mas agora isso num importa. O que importa é salvar ele!
O médico suspirou fundo, pegou a maleta de couro e respondeu:
— Pois vamo simbora. Agora num é hora de julgar, é hora de socorrer.
Na estrada de volta pro sertão, o sol já começava a se esconder atrás da caatinga. A carroça ia sacolejando com Antônio nas rédeas, Paula ao lado e Dr. Ari firme atrás, segurando a maleta.
— Oxente, ninguém ia imaginar que ele tava escondido nesse fim de mundo... — comentou o médico.
— Pois é, doutor... aqui é longe até do tempo, respondeu Antônio. — Paula, abre a porteira que chegamo!
Ela desceu correndo, abriu a porteira de madeira rangendo. A carroça entrou no terreiro. O profeta Tenório saiu na varanda com os olhos fundos.
— Entrem... Josuel tá em repouso. Podem vê ele.
Quando entraram no quarto, Dr. Ari ficou espantado. Josuel tava deitado, coberto com uma camada grossa de argila. Da argila saía uma fumaça leve, cheirosa, e pedras coloridas estavam ao redor da cama em círculo.
— Mas... que é isso, homem de Deus? — exclamou o médico, arregalando os olhos.
— Isso aqui, doutor... é pra limpar a alma. O barro puxa a raiva, a fumaça leva embora o ódio. E essas pedra, ó... cada uma tem uma energia. É assim que a gente renova o espírito de um homem quebrado por dentro.
— Interessante... nunca vi disso no curso de medicina. Mas posso aplicar os remédio? — perguntou, ainda abismado.
— Pode sim, doutor. Já tá medicado com o que o mato tem de melhor. Mas toda ajuda é bem-vinda.
Antônio olhou tudo e, pra aliviar a tensão, soltou:
— Meu cunhado tá parecendo um boneco de barro... mas se isso fizer ele melhorar, vamo em frente!
Paula, emocionada, segurou a mão do irmão e sussurrou:
— Tu vai ficar bom, meu irmão... eu sei que vai. Esse profeta de doido num tem nada.
Dr. Ari balançou a cabeça, em respeito:
— É... de doido ele num tem nada mesmo. Esse homem é sábio... do jeito dele, mas é.
No silêncio do sertão, só se ouvia o canto de um passarinho distante e o cheiro forte da fumaça de ervas. Josuel dormia. E talvez, pela primeira vez em muito tempo... sonhava em paz.
Horas depois, Dr. Ari voltou pra cidade com Antônio. Paula, a enfermeira e irmã de Josuel, ficou no sítio pra ajudar o profeta Tenório a cuidar dele.
Dias e noites se passaram...
Duas semanas depois, num sábado, Josuel acorda de repente, a voz rouca e assustada:
— Meu Deus... alguém me ajuda! Tô parecendo um boneco de barro! Quero sair daqui!
Profeta Tenório entra no quarto com um sorriso calmo:
— Bom dia, Josuel! Dormiu bem? Como é que tá se sentindo?
— Tô me sentindo leve... parece que renasci.
— Isso é bom sinal. Quer dizer que a energia ruim saiu do teu corpo. Agora vamo quebrar esse barro de uma vez.
Paula entra no quarto, os olhos brilhando:
— Que alegria, meu irmão! Tu acordou!
— O que foi que aconteceu, Paula?
— Tu passou mal. Foi o profeta que te socorreu. Disse que a argila e a fumaça era pra tirar todo o mal que tava dentro de tu: raiva, ódio, vingança... Agora se acalma, que tu já vai sair desse barro.
Paula toca o barro com o dedo:
— Mas tá duro que nem pedra, profeta!
Tenório dá uma risada:
— Tá sim, mas com essa marretinha aqui e a água quente, nós amolece. Agora deixa eu libertar Josuel desse barro, que o rapaz tá novo em folha!
Capítulo 6 final: recomeço de uma vida
Era domingo, sete e vinte da manhã. O silêncio do sítio só era quebrado pelo canto dos pássaros. Ao lado do lago, perto do cazebre, Josuel fazia tai chi chuan, guiado pelo profeta Tenório. A cena era inusitada, quase sagrada. Ali estavam também Crispim, China do Agreste e até o Sabiá, todos aprendendo os movimentos lentos e cheios de paz.
De longe, chegava uma carroça. Regina vinha com Paula — irmã de Josuel — e Antônio, seu marido e cunhado de Josuel. Ao verem aquela cena, pararam.
— Olha, Regina… Josuel tá... tá diferente demais. — comentou Antônio.
— É, esse é o novo Josuel. Depois que saiu do barro, como te contei, nunca mais foi o mesmo. — respondeu Paula.
— Nem parece aquele homem furioso, brabo que era o tal do Valente... — completou Regina.
Josuel viu Regina e sorriu. Caminhou até ela.
— Bom dia, Regina… Que bom que ocê veio.
— Vim sim, Josuel. Pensei muito antes de vim, mas... vim.
— Eu fui um homem errado, Regina. Errado até demais. Quando me achava o Valente, pensava que podia tudo... mas aprendi que a gente só é forte de verdade quando tem paz no coração. Hoje, eu só quero te pedir perdão. Perdão por ter sido um tolo, um bruto... E queria saber se posso te dar um abraço.
Regina olhou fundo nos olhos dele, e respondeu com a voz embargada:
— Pode sim, Josuel. Eu te perdoo. Fico feliz de ver que tu tá virando outro homem. Tu tá no caminho certo agora. Tu merece meu abraço... e meu perdão.
Eles se abraçaram longamente, sob o sol do sertão, com o cheiro de terra molhada ainda no ar.
Na mesa da varanda do sítio, todos se reuniram: Josuel, Regina, Paula, Antônio, Sabiá, China do Agreste, Crispim e o profeta Tenório. Fizeram uma oração de agradecimento pela nova vida de Josuel, pelo alimento, pela paz reencontrada.
Dois dias depois, Josuel se despediu do profeta.
— Obrigado por tudo, profeta Tenório... vou levar aquele livrinho de sabedoria comigo, viu?
— Leve sim, Josuel... E lembra: a raiva é de todo mundo, mas a paz... a paz tem que ser maior que ela. Quem aprende isso, escolhe sempre o caminho certo.
— Esse barro aí que te moldou foi o mesmo que lavou tua alma, Josuel. — completou o profeta. — O barro quebra, mas depois, quando seca de novo, vira vaso forte. E tu tá forte agora.
Na estrada, a carroça ia embora devagar. Profeta Tenório acenava com um sorriso largo, como quem já sabia de tudo.
Três dias depois…
A rádio Zabumba FM estava em silêncio. Todos os ouvintes da região pararam o que faziam. Era o anúncio mais esperado do ano. Ao lado do locutor Zezinho, Josuel estava preparado.
— Pessoal… aqui quem fala é Josuel. Antigamente me chamavam de Valente… e com razão. Fugi do presídio, sim. Me achei no direito. Mas logo o destino me mostrou que eu tava errado… Foi no sítio do profeta Tenório que eu caí, doente, cansado… e lá eu renasci. Aprendi o valor de ser um homem de bem, sem ódio, sem raiva, sem querer se vingar do mundo. Hoje, o Valente morreu. Fica só Josuel. Um cabra arrependido e pronto pra viver em paz.
Os rádios pipocaram pelas vilas, todos emocionados com a humildade de Josuel.
E logo depois, na prefeitura, veio o reencontro com o prefeito Carmozinho.
— Josuel… eu também errei, meu filho. Errei contigo. Fiz vista grossa, alimentei a raiva. Me perdoe.
— Tamo quitado, prefeito. O que passou, ficou. Agora é recomeço.
Se abraçaram como dois irmãos que passaram por muito.
Três meses depois…
Josuel saiu pela porta da frente do presídio. Sem algemas, sem pressa. Esperava por ele Madalena, seu antigo amor, de vestido florido e olhos marejados.
— Vim te buscar, Josuel. Tava na hora da gente viver a nossa história do jeito certo.
Ele sorriu e pegou na mão dela.
— Agora sim, Madalena. Agora eu tô pronto.
No mês seguinte…
Crispim, depois de muito namorar Regina, tomou coragem:
— Regina… tu aceita se casar comigo?
— Ôh, homem... é claro que sim!
O casamento foi na igrejinha de São Raimundo, com padre Marcelo celebrando:
— “Prometem viver em respeito e amor, na saúde e na doença, nas lutas e alegrias do sertão?”
— Prometo! — disseram juntos.
Josuel for padrinho e Madalena madrinha . Sabiá, agora curado da bebida, foi padrinho também, ao lado de sua companheira Tereza madrinha.
A festa? No sítio do profeta Tenório. Mesa farta, tapioca, carne de sol, bolo de milho, arroz-doce,canjica. Sem bebida alcoólica, mas com muita alegria. E no som, só arrastapé, zabumba, triângulo, sanfona. O forró foi até a lua nascer.
Sabiá dançava sorrindo.
— Eu sou outro homem, Tereza. Nunca pensei que viver sem cachaça era viver com gosto!
Tenório observava tudo com um sorriso manso no canto da boca, limpando os óculos devagar, como quem enxergava além do que os olhos podiam ver.
Chamou os dois pequenos que corriam pelo terreiro:
— Ôh menino Pedro… menina Suzane… vem cá um instantim.
Os dois vieram, curiosos. Tenório abaixou devagar, ficou na altura deles e falou, com aquele jeito sereno:
— Tá vendo, meus filhos? Quando o povo se junta, quando tem amor, respeito… a paz reina. E tá em paz é tá com Deus. Mesmo nas hora ruim da vida, quando a tristeza bate, se a gente tiver paz no coração, já é meio caminho andado.
Pedro coçou a cabeça, pensativo.
— Vixe, profeta… é umas palavra sabida danado.
Suzane deu uma risada leve:
— Eita… e agora, profeta? A gente vai comer canjica ou dançar um arrastapé?
Tenório soltou uma gargalhada gostosa e respondeu:
— Só se for agora, minha fia e meu fio! Canjica quente e zabumba no talo! Bora aproveitar que a vida é hoje!

