Pecado em Jatuba ( para ler )

Contos de Histórias
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Pecado em Jatuba

Em Jatuba, uma pequena cidade marcada por cafezais e segredos, nasce a trama de Cafezal do Pecado.

Amelia, jovem atrevida e falada pela língua do povo, arrasta os homens para o seu “nhaaa!... nhaaa!...” em troca de dinheiro e fama. Mas quando uma suposta aparição de uma santa acontece bem no meio do cafezal, tudo muda na cidade.

Entre fé, pecado e mexerico, Jatuba mergulha numa confusão que mistura devoção, escândalo e humor popular — mostrando que até nos cafezais mais tranquilos podem brotar histórias que viram lenda.

“Pecado em Jatuba é uma dramédia de mistério que revela, com humor e emoção, os segredos e pecados escondidos sob os cafezais de uma cidade do interior.”

História criada escrita por Edivaldo Lima.

Uma história de Minissérie

12 Capítulos

Gênero:dramédia,mistério

personagens principais: Jasmim, Amelia ( atrevida ) ,Cristovão (fotográfo),Josuel ( seminarista) personagens secundários:Antônio ( pai de Amelia)joaquina (empregada) padre Loterio,Almir guarda,Severina fofoqueira,joaquim (prefeito)Beto,Aline,Dona Miranda,Lusia, carmelita,Vicente,Valentim Zenaide (empregada ) Alerrandro.

[Capítulo 1: Provocações de Amelia

O sol de fim de tarde tingia os cafezais de dourado. Amelia caminhava com passos firmes, a saia rodando no vento.

— Ôxe, que calorão danado… bão mesmo era tomar banho de rio peladinha! — resmungou, abanando-se com a mão, o sorriso malicioso escapando.

Do outro lado da estrada, Cristovão ajustava sua câmera. Cli-clac! O som do disparo ecoou.

— Moça, você tem uma presença que pede retrato — disse ele, sorrindo.

Amelia ergueu o queixo, atrevida, os olhos faiscando.

— Só pede retrato , seu moço… será que sua mão boba não se perderia nessa curva do meu corpo não, pense bem.

Cristovão olhou fixo e sorriu.

— Heheheee… minha mão boba se perderia todinha nesse seu corpo.

Amelia se aproximou, voz baixa e provocante.

— Então vai lá amanhã cedo no cafezal… se tu encontrar algo de cor vermelha no pé do café, é o caminho da porta da safadeza! HAHAHA!

Cristovão levantou a câmera e disparou mais uma foto dela sorrindo. Cli-clac!

— Vou logo pela manhã… quero ter a sorte grande, uai.

O pai dela, Antônio, observava da varanda, carrancudo.

— Amelia, num se misture com forasteiro!

Ela riu, provocando, os olhos faiscando de desafio.

— Pai, o senhor num manda no meu coração… quem fizer parte dele vai ter uma mulher mais que fogosa.

Antônio coçou a cabeça, resmungando.

— Para de perder o juízo, Amelia! Não se entrega pra qualquer homem… tu tem é que casar com doutor.

Amelia sorriu, debochada.

— Hahaha! Pare de me arrumar pretendentes, pai… eu mesma escolho quem merece meu fogo.

Na cozinha, Joaquina mexia a panela. Ploc-ploc! O feijão borbulhava.

— Essa menina vai dar trabalho, seu Antônio.

Enquanto isso, Josuel, o seminarista, caminhava pela rua com o terço na mão, o suor escorrendo na testa.

— Deus me dê forças… — murmurava, mas seus olhos não resistiam e buscavam Amelia.

Amelia chegou ao banco da praça, sentou-se com ar atrevido e fez um convite direto.

— Ei, Josuel… larga a batina por uns minuto. Vai amanhã no cafezal comigo colher café.

Josuel engoliu seco, o coração acelerado.

— Senhor, me perdoe das tentações… amanhã tenho que lavar a igreja.

Amelia sorriu, debochada.

— Hahahaha! É só pra num cair no pecado, né?

Josuel olhou pra ela, meio sem jeito.

— Num, moça… seminário é coisa séria, sabe.

Amelia inclinou o rosto e, atrevida, deu um beijo rápido na face dele.

— Uai… mas casamento, construir família, num é coisa séria também?

Josuel sorriu, nervoso, tentando disfarçar.

— Hehehe… é sim. Um dia eu hei de fazer a cerimônia do seu casamento… e até batizar os seus fio

.Nesse instante, Padre Loterio surgiu na esquina, a batina esvoaçando ao vento. Acenou para Josuel e falou alto, com voz firme.

— Josuel, meu fio, lembre-se: a tentação mora perto.

Josuel se virou apressado, levantou-se do banco e se despediu de Amelia, o rosto vermelho de vergonha.

Ao dar o primeiro passo, tropeçou. Pof!

— Aiii… meu dedão! Deve sê castigo, pagar os pecado…

Ele se recompôs, segurando o terço com força.

— Eu sei, padre Loterio… já vou me ajoelhá no milho, rezá cem Ave Maria e cem Pai Nosso.

Amelia riu baixinho, debochada, olhando a cena.

— Hahaha… cuidado, Josuel, que milho arranha mais que pecado!

Severina, a fofoqueira, cochichava com Dona Miranda na praça.

— Eu vi Amelia falando com o fotógrafo… e Josuel olhando! Isso vai dar falatório.

Almir, o guarda, passava batendo o cassetete no chão. Tac-tac!

no centro da cidade:

Almir, o guarda, passou batendo o cassetete no chão. Tac-tac!

— Ordem na cidade, minha gente… vamo pará de fofoca!

Na prefeitura, Joaquim, o prefeito, conversava com Beto, preocupado.

— Esse fotógrafo pode revelá mais do que nóis quer, viu.

na praça da prefeitura:

Cristovão se aproximou de Aline, ajeitando o cabelo.

— Sabia que ocê pode virá um belo retrato?

Aline sorriu, meio tímida.

— Hehehe… esse galanteio é pra conquistá as moça, né, seu moço?

Cristovão riu, coçando a nuca.

— Serve também pra convidá a moça pra tomá um sorvete.

Aline ergueu a saia, atrevida.

— Uai… serve até pra tomá banho de rio a dois.

Cristovão sorriu largo.

— Hehehe… lasqueira, serve também!

Nesse momento, Beto, irmão de Aline, apareceu na janela, bravo.

— Aline, minha irmã, já pra dentro! Ocê é nova demais pra namorá.

Joaquim se virou, mexendo nos arquivos da mesa.

— Fica de olho, Betinho. Ocê é o irmão mais véio… não quero vê Aline mal falada nessa cidade. Como é que eu vou ganhá a próxima eleição com filha mal falada por aí?

Beto olhou pro pai, firme.

— Pode deixá, pai. Eu vou cuidá da Aline. Posso pegá o carro pra ir no baile no Dance hoje?

Joaquim se virou e riu.

— Hehehe… claro que pode, Betinho. Se divirta.

Aline olhou pro pai, esperançosa.

— Pai… e eu posso ir na sorveteria hoje?

Joaquim se ajeitou na cadeira e respondeu com calma.

— Lusia tá pra chegá, fia. Ela vai te acompanhá.

Amelia, na janela de sua casa, ficava olhando pros cafezais que se perdiam no horizonte. O vento da noite batia leve, trazendo cheiro de terra molhada e lembrança de segredos.

Pensava no dia de amanhã, mordendo o lábio, já tramando cada detalhe do que ninguém ainda sabia.

Quem tiver coragem de entrá nesse cafezal… vai sabê que pecado também tem gosto de café picante.

Capítulo 2: Aparição da Virgem do Cafézal

Já era onze da noite. O silêncio de Jatuba pesava como um cobertor grosso.

Almir, o guarda, caminhava devagar, o cassetete batendo no chão. Tac-tac!

A estrada do carreador do café se estendia escura, só o vento soprava entre os pés de café. Fuuu!

De repente, uma luz bruxuleante rompeu a escuridão.

Almir parou, o coração disparando.

Do meio do cafezal, surgiu uma mulher com lampião de vela branca.

O rosto coberto por véu, passos leves, parecia flutuar.

Ela se aproximou, voz suave, mas firme.

— Guarda Almir… eu sou a Virgem do Cafézal.

Almir engoliu seco, o suor escorrendo na nuca.

—Qual!…Qual! … seu nome, Virgem? — gaguejou.

Ela virou o rosto coberto pelo véu e respondeu com voz mansa, mas firme, que parecia vir do próprio vento da noite:

— Me chamo Jasmim… sou a guardiã do cafezal. Tô aqui pra que home e muié num se perca na tentação. O amor só vale quando tem sentimento de verdade… num se entrega um pro outro só por momento de prazer, nhaaaa… nhaaaa… do sexo.

A chama do lampião tremulou, iluminando o véu branco como se fosse sagrado.

— Eu protejo os virge, tanto os home quanto as muié… mas também cuido dos casado, pra que num se esqueça da chama do amor.

Almir arregalou os olhos, o coração batendo forte.

Jasmim deu um passo à frente, a voz mais intensa.

— E se for preciso… eu apimento a relação daqueles que querem vivê um grande amor, porque amor sem fogo é café sem cheiro.

O vento soprou forte, fuuu! como se confirmasse as palavras dela.

Almir engoliu seco, sem saber se estava diante de uma santa ou de uma assombração.

Almir sentiu um arrepio correndo pela espinha, o lampião tremulava na mão dela como se fosse chama viva de outro mundo.

— Vixe… — murmurou ele, engolindo seco — então ocê vigia nóis tudo?

Jasmim inclinou a cabeça, o véu balançando no vento.

— Vigio, sim… e aviso: quem for fraco vai se perdê. Mas quem tiver fé e coragem, vai achá o caminho certo.

O guarda ficou parado, sem saber se acreditava ou se corria. O coração batia forte, como tambor de festa.

E antes que pudesse perguntar mais, Jasmim se afastou, cada passo mais leve, até sumir na escuridão do cafezal. Fuuu… Creeec…

Almir ficou sozinho, com a sensação de que tinha visto assombração ou milagre.

Almir tremeu, sentindo frio na espinha.

— Eu… eu tô suando frio…

Jasmim ergueu o lampião, a chama tremulando.

— Seja forte quando a carne for fraca.

O vento soprou mais forte. Fuuu! As folhas se agitaram como se sussurrassem segredos.

Almir tentou falar, mas a voz não saiu.

Jasmim se afastou caminhando, cada passo mais distante, até sumir na escuridão entre os pés de café. Creeec…

O guarda ficou parado, sem saber se tinha visto milagre ou assombração.

E no silêncio da noite, Jatuba parecia guardá ainda mais segredo.

Almir levantou os olhos pro céu estrelado, a respiração curta. Fez o sinal da cruz, a mão trêmula.

— Ô Deus… num sei se vi santa ou se vi uma guardiã da terra. Só sei que ela apareceu de repente, igual quando a gente acende uma vela no altar… a chama brota e clareia tudo.

O vento soprou forte, fuuu! mexendo nas folhas do cafezal, como se confirmasse suas palavras.

Almir engoliu seco, o coração batendo feito tambor de festa.

— Se for visão, que seja pra me guiá… se for assombração, que seja pra me prová.

E ficou ali parado, no meio da rua escura, sentindo que Jatuba naquela noite tinha ficado ainda mais misteriosa.

Capítulo 3: Segredos do Cafezal

De manhã cedo, o sol mal clareava os pés de café.

Cristovão, o fotógrafo, caminhava pelo carreador.

O orvalho brilhava nas folhas, como pequenas lágrimas.

Ele lembrava das palavras atrevidas de Amelia.

— Disse que tinha cor vermelha no pé do cafezal… — murmurou.

Andou mais um pouco, chutando pedrinhas.

— Andei, andei… e nada de encontrá.

Parou, coçou a cabeça.

— Deve sê safadeza dela… calcinha pendurada, só pode.

De repente, algo brilhou entre os galhos.

Cristovão se abaixou devagar.

Era um rosário, com um bilhete amarrado.

— Oxi… que trem é esse?

Pegou o papel, as mãos tremendo.

Leu em voz baixa:

“Se você encontrou o bilhete da guardiã Virgem do Cafezal, Jasmim, volte pra trás. Se livre do cafezal profano. Só assim terá paz pra encontrá seu verdadeiro amor. Tô vigiando você e todos que querem cometê o pecado. Não se esqueça: volte rezando dez Pai Nosso e dez Ave Maria.”

Cristovão ficou parado, o coração disparado.

Olhou pros pés de café, o silêncio pesando.

— Ave Maria… será aviso ou brincadeira?

Lembrou da mãe, católica fervorosa.

— Minha mãe dizia… pecado num leva ninguém pra frente.

Respirou fundo, apertou o rosário.

— Melhor obedecê…

Virou as costas, começou a rezar.

— Pai Nosso que estais no céu…

Cada passo parecia mais pesado.

— Ave Maria cheia de graça…

O vento soprou forte, fuuu! mexendo as folhas.

Cristovão acelerou o passo, sem olhar pra trás.

Horas se passaram.

O cafezal ficou quieto, guardando segredos.

Amelia saiu do meio das plantas, nua, rindo sozinha.

Olhou pros lados, provocadora.

— Ôxe… cadê esses home? Cadê o Cristovão?

Vicente, o pescador, vinha pela estrada.

Parou, arregalou os olhos.

— A flor do pecado tá bem na minha frente…

Sorriu malicioso.

— Num quer nhaaa… nhaaa… comigo, Amelia?

Amelia se virou, firme, o olhar faiscando no meio do cafezal.

— Vem, Vicente… mas deixa o dinheiro e a chave do carro, seu safado.

Vicente deu uma gargalhada alta, o som ecoando entre os pés de café.

— Hehehe… só se for agora, Amelinha. Vou te ensiná a pescá do meu jeito.

O vento soprou forte, fuuu! como se o próprio cafezal tivesse ouvido a provocação.

As folhas se mexeram, sussurrando segredos que ninguém ousava contar.

Naquele instante, só o céu e os pés de café foram testemunha.

O silêncio da terra guardava o mistério do que Amelia e Vicente aprontaram.

Capítulo 4: Chegada de Lusia

O sol de Jatuba brilhava forte quando a jardineira parou na praça.

Lusia, a bela mulher que chegava de viagem da Espanha, desceu com elegância, o vestido leve balançando no vento.

O prefeito Joaquim já esperava ansioso, tinha preparado um almoço especial na prefeitura.

Aline, curiosa, não parava de perguntar pelas novidades.

— Pai… será que a Lusia vai contá das viagem dela? — cochichava, os olhos brilhando de ansiedade.

Na cozinha da prefeitura, o prefeito Joaquim mexia nas panelas, nervoso.

— Num sei, minha filha… mas se ela voltou, nossa casa é a casa dela.

Aline sorriu, meio tímida, mas atrevida.

— Hehehe… eu sempre quis que ela fosse minha mãe. Eu num ligaria se o senhor casasse outra vez.

Joaquim parou por um instante, olhou pra filha com carinho.

Um sorriso escapou, misturado com lembrança.

— Hehehe… Lusia seria mais que uma companheira. Depois de sua mãe, Cristina… que foi a primeira e sempre será lembrada.

O vento entrou pela janela, mexendo as cortinas, como se trouxesse o cheiro da Espanha junto com a chegada.

Beto, que estava no bar da esquina, largou o copo e correu até a jardineira.

— Ôoooo, Lusia! Quanto tempo, tudo bão? Espera aí que eu te ajudo com as mala.

Lusia se virou, sorridente, reconhecendo o rapaz.

— Mas olha só… Beto! Ocê cresceu, menino.

Ela ia dizer “Desde quando?”, mas Beto se adiantou, rindo alto.

— Hahaha! Desde quando o prefeito se elegeu nessa cidade, uai.

Lusia soltou uma risada leve, o som doce que fez todo mundo na praça virar o rosto.

O povo cochichava, Severina já armava mexerico.

— Vixe, voltou bonita demais… isso vai dá falatório.

Enquanto isso, Joaquim ajeitava os papéis na prefeitura, nervoso.

— Preciso que tudo saia perfeito… Lusia não pode ficá mal falada.

Aline, impaciente, mexia na saia.

— Quero sabê das novidade da Espanha, quero sabê das moda.

Beto carregava as malas, orgulhoso de ser notado.

— Num se preocupe, Lusia, aqui ocê tá em casa.

Ela olhou em volta, respirou fundo.

— Jatuba continua igual… mas sinto que tem segredo escondido nesse lugar.

O vento soprou forte, mexendo as bandeirinhas da praça.

O povo parou, olhando a cena como se fosse chegada de rainha.

E naquele instante, Jatuba ganhou mais um mistério: a volta de Lusia, a mulher que vinha de longe e trazia histórias que podiam mudá o destino da cidade.

Horas depois, na hora do almoço, a porta se abriu e Lusia entrou sorridente.

— Nossa… que cheiro bom tá esse almoço, Joaquim! Deixa eu adivinhá… muqueca de camarão com berinjela?

Aline riu, contente.

— Hehehe… acertou em cheio, Lusia! Mas conta, como foi morá lá na Espanha?

Joaquim ajeitou o avental, orgulhoso.

— Receita da minha mãe, dona Tereza. Senta, sirvam-se… tá bão demais.

Lusia olhou para Aline, mas o sorriso foi sumindo.

— Foi bom, Aline… mas também teve momento triste. E agora… esse cheiro tá me dando enjoo.

Joaquim franziu a testa, preocupado.

Dona Zita, a empregada, largou a colher e falou firme:

— Seu Joaquim, conheço bem isso… isso é coisa de gravidez, homi.

O prefeito arregalou os olhos, surpreso.

— Mas será que ela voltou grávida? Meu Deus… quem foi o crápula que não assumiu?

Lusia baixou a cabeça, as lágrimas escorrendo.

— Joaquim… eu acho que tô grávida. Você não vai me aceitá assim?

O prefeito respirou fundo, se aproximou devagar.

— Por que não aceitaria? Mulher grávida num é crime. O culpado é o homem que te abandonou… esse sim é criminoso.

Aline ficou boquiaberta, o coração acelerado.

O silêncio tomou conta da cozinha, só o vento batendo na janela.

Lusia enxugou as lágrimas, olhando nos olhos de Joaquim.

— Então… ocê ainda me quer por perto?

Joaquim segurou a mão dela, firme.

— Quero, sim. E se for preciso, vou defendê ocê contra toda a cidade.

Dona Zita fez o sinal da cruz, murmurando baixinho.

— Vixe… Jatuba vai fervê com essa novidade.

Capítulo 5: Quem será ela

Josuel rezava baixinho diante do altar da Virgem Maria.

O silêncio da igrejinha só era quebrado pelo estalo das velas.

De repente, a porta bateu forte. Creeec!

Almir entrou correndo, ofegante.

— Josuel! Ô Josuel! Ocê que é quase padre… conhece a tal guardiã do café, a Virgem Jasmim?

Josuel se levantou devagar, fez o sinal da cruz.

— Como assim, Almir? Quem é essa Virgem Jasmim?

Almir tremia, os olhos arregalados.

— Eu vi ela com meus próprios olhos!

Josuel franziu a testa, desconfiado.

— Ocê tem prova disso?

Nesse instante, Cristovão, o fotógrafo, entrou pela porta.

Também se benzeu, nervoso.

— Eu tenho, Josuel… olha só.

Tirou um bilhete amassado do bolso, junto de um rosário.

— Ainda vim rezando dez Pai Nosso e dez Ave Maria, como ela pediu nesse papel.

Josuel pegou o bilhete, leu devagar.

O suor escorria pela testa dele.

— Essa santa… eu não conhecia.

Almir se aproximou, aflito.

— Então, padre… ocê conhece essa tal Virgem Jasmim?

Cristovão completou, firme.

— Ela apareceu pra mim também, lá no cafezal.

O padre Loterio entrou pela sacristia, ouvindo a conversa.

Olhou sério pros três homens.

— Se ela apareceu uma vez, pode ser visão.

Fez o sinal da cruz, pensativo.

— Mas se aparecer mais de duas… aí a cidade toda vai tá abençoada.

Almir engoliu seco, o coração disparado.

— Então é coisa de Deus mesmo?

Padre Loterio suspirou fundo.

— Temos que enviá uma carta pro frei Inácio, contando dos acontecimento aqui em Jatuba.

Cristovão segurou o rosário com força.

— Parece que ela vigia nóis todo tempo.

O vento soprou dentro da igreja, mexendo as velas. Fuuu!

As chamas tremularam, quase apagando.

Josuel se benzeu outra vez, apavorado.

— Vixe… até aqui dentro ela tá presente.

Padre Loterio murmurou baixinho, olhando pro altar iluminado pelas velas.

— Quem será ela? Santa, guardiã… ou uma muié pura que só quer afastá home e muié do pecado?

O silêncio pesou, como se a própria igreja esperasse resposta.

Capítulo 6: Procissão da Santa Virgem Jasmim

A sacristia estava silenciosa, só o cheiro de vela queimando no ar.

De repente, Biata Carolina apareceu carregando uma imagem da santa.

Seus passos ecoaram no chão frio da igreja.

Padre Loterio, cochilando no banco, acordou assustado.

— Vixe, Biata… o que ocê tá fazendo aqui com essa santa?

Carolina ergueu a imagem, os olhos brilhando.

— Padre, eu vi a Virgem Jasmim. Temos que fazê uma procissão, um encontro das muié e dos home de Jatuba.

Josuel, o seminarista, olhou desconfiado.

— Mas sem pedir permissão do frei Daniel, Biata Carolina?

Carolina se benzeu, firme.

— Quando é coisa de fé, num se espera.

Padre Loterio coçou a barba, pensativo.

— Hmmm… mas precisamos de certeza.

Olhou para Josuel, com voz séria.

— Josuel, vai até a biblioteca do seminário de Jatuba.

O seminarista arregalou os olhos.

— Pra quê, padre?

Loterio respirou fundo.

— Traga todos os livros de santos católico. Temos que pesquisá se essa Virgem Jasmim já foi revelada em outro lugar.

Josuel se levantou, decidido.

— Pois vou agora mesmo.

Carolina apertou a imagem contra o peito.

— Padre, eu sinto que ela quer protegê a cidade.

O vento soprou dentro da sacristia, mexendo as cortinas. Fuuu!

A chama das velas tremulou, lançando sombras estranhas.

Padre Loterio se benzeu, arrepiado.

— Se for santa, Jatuba vai recebê bênção.

Carolina completou, emocionada.

— Mas se for guardiã, vai afastá o pecado.

O silêncio pesou, como se a própria igreja esperasse resposta.

Padre Loterio murmurou baixinho.

— Quem será ela? Santa, guardiã… ou uma mulher pura que veio pra afastá home e muié do pecado?

Capítulo 7: Isso está errado mãe

O sol batia forte no terreiro.

Jasmim lavava a roupa dela e da mãe no tanque de pedra.

A água corria, misturada com sabão, formando espuma.

Jasmim ainda era moça virgem, não pensava em casar tão cedo.

Mas guardava no coração um amor escondido por Beto, filho do prefeito Joaquim.

De repente, Biata Carolina apareceu na porta da cozinha.

Carregava nos braços uma imagem da santa Virgem Jasmim.

— Fia do céu… minha loucura foi longe demais. Vai ter até procissão pra Virgem Jasmim!

Jasmim se virou rápido, colocou a mão na cintura.

— Mãe! Bendita hora fui topar aparecê no cafezal por causa das suas crentices. Isso é pecado, mãe!

Carolina baixou os olhos, mas não recuou.

— Se é pecado ou não, fia, o povo já acredita.

Jasmim suspirou, nervosa.

— E agora, mãe? O que nós faz com isso?

Carolina pensou alto, aflita.

— Vai ter até procissão… e se o povo descobrir que foi invenção minha?

Jasmim balançou a cabeça, firme.

— Nós nada, mãe. Ocê vai se confessá com padre Loterio.

Carolina tremeu, apertando a imagem contra o peito.

— Mas se eu confessá, vão dizê que sou mentirosa.

Jasmim olhou pro céu, como quem pedia força.

— Melhor ser chamada de mentirosa do que carregar pecado escondido.

O vento soprou forte, mexendo as roupas no varal. Fuuu!

As peças balançaram como se fossem testemunhas da discussão.

Carolina chorou baixinho, o coração apertado.

— Fia… eu só queria protegê as pessoas de bem dessa cidade.

Jasmim largou a roupa no tanque, a água escorrendo pelos dedos.

— Mãe, mas desse jeito ocê só trouxe confusão. Agora tão achando que eu sou santa!

Carolina apertou a imagem contra o peito, nervosa.

— Eu não queria mentir, Jasmim… só queria afastá o povo do pecado.

Jasmim colocou a mão na cintura, firme.

— Pois agora o povo tá dividido: uns acreditam, outros tão chamando nóis de herege.

O vento soprou forte, balançando as roupas no varal. Fuuu!

Carolina enxugou as lágrimas, aflita.

— Vai ter até procissão, fia… e se descobrirem que foi invenção minha?

Jasmim respirou fundo, olhando pro céu.

— Então ocê vai se confessá com padre Loterio.

Carolina tremeu, o coração disparado.

— Mas se eu confessá, vão dizê que sou mentirosa.

Jasmim se aproximou, firme.

— Melhor ser chamada de mentirosa do que carregá pecado escondido.

Nesse instante, Severina passou pela rua, ouvindo pedaço da conversa.

Arregalou os olhos, correu pra praça.

— Vixe, o povo precisa sabê disso!

Logo a cidade inteira começou a cochichar.

Uns diziam que Jasmim era santa.

Outros afirmavam que era invenção da Biata Carolina.

O padre Loterio recebeu a notícia com espanto.

— Se for verdade, a fé do povo tá em risco.

Cristovão, o fotógrafo, já preparava a câmera.

— Isso vai virá história pra gerações.

E Jasmim, no meio da confusão, pensava baixinho:

— Quem sabe… talvez eu seja mesmo escolhida pra protegê Jatuba.

Capítulo 8: Quem faz imagem de Santa, merece pagamento

O sol já se punha atrás dos cafezais quando Valentino chegou na casa da Biata Carolina.

Bateu palma forte no portão.

Pla! Pla! Pla!

— Ôôô de casa! Vim cobrâ pelo meu trabalho!

Carolina apareceu na porta, ajeitando o véu na cabeça.

— Valentino… aqui tá o dinheiro.

Entregou um embrulho com notas amassadas.

Valentino sorriu, satisfeito.

— Hehehe… obrigado, Biata. Depois que essa santa apareceu, já tem devoto encomendando imagem nova.

Carolina arregalou os olhos, nervosa.

— Vixe, homem… ocê tá fazendo negócio com fé!

Valentino coçou o bigode, debochado.

— Uai, quem faz imagem merece pagamento. Num é pecado, é sustento.

Nesse instante, Jasmim saiu da cozinha, ainda com as mãos molhadas de sabão.

— Mãe, isso tá errado! Fé não é comércio.

Carolina ficou sem jeito, olhando pra filha.

— Fia… eu só queria agradá o povo.

Valentino riu alto, provocador.

— O povo quer é milagre, e milagre precisa de imagem pra rezá.

Jasmim colocou a mão na cintura, firme.

— Pois se essa santa é invenção, vai dá confusão na cidade.

Carolina suspirou, aflita.

— Já tão preparando procissão, fia… e agora?

Valentino deu de ombros, indiferente.

— Procissão dá fama, fama traz dinheiro.

Nesse momento, Severina fofoqueira passou na rua, ouvindo tudo.

Arregalou os olhos e correu pra praça.

— Vixe, o escultor tá cobrando pela santa! Isso vai virá mexerico!

Logo o povo começou a cochichar.

Uns diziam que era milagre verdadeiro.

Outros afirmavam que era comércio disfarçado de fé.

Padre Loterio, ao saber da história, ficou furioso.

— Isso tá errado! Fé não se vende!

Cristovão, o fotógrafo, já preparava a câmera.

— Essa confusão vai virá manchete no jornal da cidade.

E Jasmim, no meio da briga, pensava baixinho:

— Quem sabe… talvez eu seja mesmo escolhida pra pôr ordem nesse pecado.

Capítulo 9: Entrando na sacristia

Josuel estava sentado no banco da sacristia, rodeado de livros antigos.

Virava as páginas com cuidado, o silêncio só quebrado pelo som das velas queimando.

— Livro de Santo Antônio… livro de São Francisco… livro da Padroeira… da Virgem Maria… — murmurava.

Suspirou, intrigado.

— Mas da Virgem Jasmim… até agora nada. Esse vai sê o primeiro. Será ela a santa padroeira de Jatuba?

De repente, Amelia atrevida entrou sorrateira.

Chegou perto, sussurrou no ouvido de Josuel.

— Ei, Josuel… aqui ocê não tem como escapá, não.

Josuel se virou assustado, fez o sinal da cruz.

— Meu Deus, não deixe eu caí em tentação! Amelia… ocê tá só de lingerie dentro da igreja!

Amelia riu, provocadora.

— Vem, Josuel… nhaaaa! Nhaaaa! Mais eu… haaaa!

Josuel tropeçou, derrubou um livro no chão.

Saiu correndo pelo corredor, rezando alto.

— Pai Nosso… Ave Maria… livrai-me do mal!

— Padreeee! Padreeee! — gritava desesperado.

— A tentação do pecado tá dentro da igreja!

Os fiéis que entravam ficaram de boca aberta.

Viraram o rosto e viram Amelia saindo da sacristia, seminua.

— Senhor Deusss! — murmurou uma velha.

— Afastai essa tentação de muié!

De repente, uma luz brilhou no altar.

A santa Jasmim apareceu em encenação teatral, cobrindo o corpo de Amelia com um manto.

Sua voz ecoou pela igreja.

— Se arrependei, filha. Não seja uma mulher devassa, objeto de desejo. Seja uma mulher que se entrega ao amor verdadeiro.

Todos os fiéis se ajoelharam, emocionados.

— Olha! É a santa Jasmim, meu povo!

Josuel caiu de joelhos, chorando.

Padre Loterio se aproximou, também ajoelhado.

Almir, o guarda, fez o sinal da cruz.

Severina fofoqueira já cochichava com Dona Miranda.

Joaquim, o prefeito, olhou sério para Beto, seu filho.

Aline, Lusia, Vicente, Valentim e até Zenaide, a empregada, se juntaram em oração.

Todos murmuravam em uníssono:

— Então é verdade… a santa Jasmim de Jatuba apareceu!

Amelia vendo o povo ajoelhado se ajoelha também.

Amelia, ainda ajoelhada, chorava alto.

— Ô santa… eu só queria nhaaa… nhaaa… mais o Josuel!

O povo continuava em oração, sem levantar os olhos.

A luz improvisada por Valentim e Biata Carolina apagou de repente.

Jasmim aproveitou e saiu pelos fundos, puxando a mãe.

— Mãe, agora ferro de vez. O povo tá todo ajoelhado… mas foi por uma boa causa: salvar o Josuel da tentação dessa Amelia. Ô muié pra ter fogo onde não deve!

Biata Carolina enxugou o suor, nervosa.

— Ocê fez o certo, fia. Salvou Josuel de um enrosco. Ele ainda vai sê padre de Jatuba.

Valentim coçou o bigode, desconfiado.

— Parece até que Amelia tá arrependida… ocê é santa mesmo, Jasmim.

Jasmim segurou o manto, firme.

— Não sou santa não, Valentim. Sou muié pecadora, de carne e osso. Vou acabá com isso agora. Vem comigo, mãe.

As duas voltaram pela porta lateral e apareceram diante da igreja lotada.

Jasmim ergueu a voz, decidida.

— Eiii, pessoar de Jatuba! Essa tal Santa Jasmim sou eu. Minha mãe queria botá ordem nas muié e nos home dessa cidade, fazê o povo tê respeito e não sê tão pecador. Foi ela que me fez virá “Santa Jasmim”.

Todos os olhos se arregalaram, alarmados.

Padre Loterio caminhou até o altar, indignado.

— Biata Carolina! Que maluquice é essa? Transformá a própria filha, de carne e osso, em santa pura?

Valentim entrou no meio da confusão, levantando a voz.

— Ei, pessoar! Mas eu não aceito santa como devolução, não. Quero meu dinheiro de volta!

O padre olhou sério para ele.

— Até ocê, Valentim, tá por trás disso tudo?

Valentim sorriu, debochado.

— Que Deus e a Virgem Maria me perdoe… mas tô sim, padre. Ia até vim caravana de fora pra vê a tal santa. Agora percebo: nem festa da padroeira Jasmim vai ter.

Vicente, lá no fundo, riu alto.

— Hehehe… bem que podia ter uma quermesse das boas da Santa Jasmim!

Jasmim se irritou, levantando as mãos.

— Euuuuu não sou Santa Jasmim! Sou só a Jasmim, filha da Biata Carolina, que fez essa confusão toda. Ô Deus, e Virgem Maria, me perdoem dessa mentira!

O povo ficou em silêncio, dividido entre fé e revolta.

Uns choravam, outros murmuravam, e Severina fofoqueira já cochichava no ouvido de Dona Miranda.

Padre Loterio ergueu o crucifixo, tentando acalmar a multidão.

— Que o Senhor nos dê discernimento… porque Jatuba nunca mais vai sê a mesma depois dessa noite.

Capítulo 10: Lavando escada e orando

Passaram-se dias, semanas e até meses depois da grande confusão da “Santa Jasmim”.

Jasmim, Biata Carolina, Amelia e o escultor Valentim subiam e desciam as escadas da igreja.

Cada um com balde, sabão de soda e escovão na mão.

O padre Loterio ficava de campata, vigiando.

— Quero vê se tão lavando e rezando ao mesmo tempo! Pai Nosso e Ave Maria pra pagá os pecado da mentira e da tentação!

Biata Carolina esfregava com força, suspirando.

— Bendita hora fui inventá isso… só queria protegê o povo de Jatuba.

Amelia ria, debochada.

— Hehehe… se não fosse a santa aparecê, eu e Josuel já tinha nhanhadoooossss!

Jasmim se virou, mão na cintura.

— Para de fogo, muié! Deixa Josuel sê padre. E só lembrando: todo dia nós vai fazê isso, lavá e rezá.

Valentim vinha carregando balde cheio d’água, reclamando.

— Vixe… falta muita escada pra lavá. Lavá escada de igreja dá uma dor na costa que nem reza cura.

O povo que passava na rua olhava curioso.

Uns riam da cena, outros se benziam.

Severina fofoqueira cochichava:

— Olha lá… penitência de santa fajuta!

Dona Miranda completava:

— Mas pelo menos tão limpando a igreja, né?

Padre Loterio levantou o crucifixo, sério.

— Que essa limpeza seja também do coração!

Amelia, cansada, se jogou no degrau.

— Ô padre… se arrependimento lavasse escada, já tava tudo brilhando!

Valentim riu, debochado.

— Hehehe… se arrependimento desse dinheiro, eu já tava rico!

Jasmim suspirou, olhando pro céu.

— Ô Deus, que essa confusão acabe logo.

Biata Carolina enxugou o suor da testa.

— Fia, pelo menos o povo tá mais respeitoso agora.

O padre murmurou baixinho.

— Que seja… mas Jatuba nunca mais vai esquecê dessa história.

Capítulo 11 penúltimo: A chegada de um filho

Na casa da prefeitura, o prefeito Joaquim andava de um lado pro outro na sala.

Contava as horas, ansioso pra ver o rosto do filho — ou filha — que ia criar como se fosse sangue do seu sangue.

No quarto, Lusia gemia de dor, acompanhada pela parteira Zenaide, que também era empregada da casa.

— Força, Lusia, fia! Logo logo seu fio vem ao mundo pra conhecê Jatuba.

Lusia mordia a fronha do travesseiro, fazendo força.

— Harrrr… essa dor do parto é forte, Dona Zenaide!

Aline entrou apressada, trazendo uma imagem da Nossa Senhora do Bom Parto.

— Pai, vamos rezá pra Nossa Senhora do Bom Parto.

Joaquim se virou, emocionado.

— Sim, fia… nesse momento a oração é tudo.

Beto, sentado na sala, murmurava.

— Logo, logo vamos escutá o choro do bebê.

De repente, Severina fofoqueira entrou sem bater, seguida de Dona Miranda com uma bandeja de salgadinho.

Severina olhou pro prefeito, curiosa.

— Será que vai parecê com o senhor, Joaquim, ou com a mãe?

Dona Miranda completou, rindo.

— Eu acho que puxou pra mãe. Agora, se nascer de olho puxado… é de japonês!

Aline se virou, irritada.

— Ocês veio é fofocá, né? Querem sabê de quem é o pai!

Beto resmungou, pegando um salgadinho.

— Essas veia só sabe falá mal dos outros… passa o salgado logo.

Severina não se conteve.

— Fala não, Beto… confirma logo de quem é esse filho!

Joaquim se levantou, firme.

— Isso não dá na mesma, Severina. O filho é meu, e pronto!

Na janela, o povo de Jatuba se aglomerava, cochichando.

— Será que Joaquim é pai mesmo?

De repente, o choro ecoou pelo quarto.

— Nheeeee! Nheeeee!

Zenaide abriu a porta, sorrindo.

— Parabéns, papai Joaquim… é uma menina!

Joaquim correu, feliz.

— Deixa eu vê minha filha! Lusia, ocê tá bem?

Lusia sorriu, cansada mas radiante.

— Tô sim… e como ela vai se chamá, Joaquim?

Joaquim pensou um instante.

— Carmelita… nome da minha tia. Tá bom pra ocê?

Nesse momento, a porta se abriu de novo.

Alerrandro, o espanhol, entrou com sotaque portunhol carregado.

— Mi hija nasceu… ella va se llamar Justina!

Lusia arregalou os olhos, furiosa.

— Que esse entruso de Espanha tá fazendo aqui? O verdadeiro pai é Joaquim! Ocê só fez por fazer!

Alerrandro se ajoelhou, teatral.

— Mi perdón, corazón… fue buena la noche de amore… pero tengo muchas novias en esta vida.

Lusia gritou, brava.

— Vai embora de Jatuba! Volta pra Espanha!

Joaquim se levantou, indignado.

— Seguranças! Levem esse entruso pra fora da minha casa! Eu sou o pai!

O povo na janela murmurava, dividido entre risos e espanto.

Severina cochichou pra Dona Miranda.

— Vixe… até espanhol apareceu nessa história!

Dona Miranda riu, servindo mais salgadinho.

— Essa menina já nasceu famosa, minha fia.

Capítulo 12 final: Fugindo de Jatuba

Depois de dias, semanas e meses de mexerico, Beto resolveu dá uma chance pra Jasmim.

Assim que ela se declarou, ele decidiu: iam fugí juntos de Jatuba.

Jasmim já não aguentava mais as provocações do povo.

Enquanto isso, Amelia, com o carro que ganhou de Vicente pescador, se despedia da cidade.

— Adeus, Jatuba! — gritava. — Vou abri meu próprio bordel, “Amelia Atrevida”! Vai sê o mais nhanhado do Brasil, em cada canto desse país!

Dias antes…

Jasmim estava perto do rio, esperando Beto.

Pensava baixinho:

— Ô Beto… será que ocê aceitaria fugí comigo?

Beto chegou a cavalo, desceu sorrindo.

— Oxe, Jasmim… me chamou pra nadá no rio junto?

Jasmim riu, mão na cintura.

— Seu safado! Não sou oferecida não… mas gosto de ocê de verdade. Quero ir embora de Jatuba. Se ocê for comigo, quem sabe com o tempo nós dá um passo a mais.

Beto sorriu, ajeitando o chapéu.

— Também gosto de ocê, Jasmim. Não tenho nada a perdê. Se ocê aceitá, fugimos essa madrugada. Mas antes… tem que ter um beijo pra selá nossa saída.

Ele segurou a mão dela, acariciou o rosto.

— Posso, Jasmim?

Ela olhou nos olhos dele.

— O que, Beto?

Beto não respondeu com palavras. Apenas beijou Jasmim.

Ela retribuiu, selando a união e o compromisso da fuga.

Na madrugada de Jatuba…

Beto esperava com o carro e as malas prontas.

Aline, sua irmã, se despedia junto com Cristovão, o fotógrafo.

— Tchau, Aline… se cuida. Cristovão, aproveita e pede ela em namoro. O prefeito Joaquim vai deixá, agora que virou pai babão da Carmelita.

Aline sorriu.

— Obrigada, Beto… eu aceito namorá Cristovão.

Cristovão ajeitou a câmera, rindo.

— Pode deixá, vou cuidá dela. Mas antes… uma foto!

Jasmim apareceu correndo.

— Ei, esperem por mim! Quero saí nessa foto também!

Os quatro se juntaram em cima do carro.

A câmera portátil registrou o momento.

“TRRRR-CLIC!”

“FLASH!”

Alguns minutos depois, Beto e Jasmim partiram com o carro, levantando poeira na estrada.

Biata Carolina saiu correndo, segurando um bilhete.

— Thauuuuuu, fia! Vai com Deussssss! Betooo, cuida dela! Manda carta!

Aline e Cristovão abraçaram Biata Carolina, emocionados.

Ao mesmo tempo…

O dia amanhecia. Amelia colocava sua última mala no carro.

Olhou pro pai Antônio.

— Tchau, pai… vou ganhá o mundo. Quem sabe volto casada com homem rico!

Antônio abraçou a filha, resignado.

— Tchau, Amelia… não tem como te segurá. Que Deus te proteja. Tome juízo!

Amelia entrou no carro, buzina ecoando.

“Biiiiiii! Biiiiiii!”

— Juízo eu tenho, pai… eu só quero Nhaaaa! Nhaaaa! nesse mundo! Adeussss!

O carro saiu comendo poeira.

Na sacristia, Josuel rezava ajoelhado.

De repente, uma calcinha vermelha voou pela janela, jogada por Amelia em despedida.

Josuel arregalou os olhos, fez o sinal da cruz.

— Senhor Deusss… até na hora da fuga essa muié não perde o fogo!

Epílogo

A vida toma caminhos diferentes… seja por amor, por fama ou por descobertas.

Nem sempre as pessoas vão tá no mesmo lugar que antes, mas sempre vão ficá guardadas nos corações daquelas que conheceram.

Em Jatuba, cada um seguiu seu rumo:

• Jasmim e Beto fugiram buscando paz e esperança.

• Amelia correu atrás da fama, querendo ser lembrada pelo fogo que carregava.

• Joaquim virou pai babão, cuidando da pequena Carmelita.

• E o povo… ah, o povo de Jatuba, nunca deixou de contá essa história, misturando fé, pecado e mexerico.

Uns juravam que foi milagre.

Outros diziam que foi invenção da Biata Carolina.

Mas todos concordavam numa coisa:

A “Santa Jasmim” virou lenda, e lenda não morre.

Agradeço a todos que acompanharam essa história.]




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