Defensoras da Capela
Na cidade fictícia do Interior de Itaporati da década de 1940, três biatas — Maria, Rosaria e Franciane — tornam-se as defensoras da Capela de São Bento, símbolo da fé da comunidade de Nova Esperança. Contra a força de Germanio, fazendeiro ateu, e do prefeito Tomasinho, descrente, elas se erguem com coragem e devoção para proteger o templo e manter viva a esperança do povo. Onde há a capela, há fé; onde há fé, há Deus — e onde há Deus, surgem também suas protetoras.
História criada e escrita por Edivaldo Lima.
Uma história de minissérie
5 Capítulos
Gênero: drama,ação,espiritualidade
personagem principais:" Maria,Rosaria,Franciane as três ( Biatas )" personagens secundários:"Germanio fazendeiro ateu,Junior,Euvino (capangas) Doralice mulher de fé,Francisco homem sábio,frei simão,Joven Bento,Cristiane,Juca da pistola,Miro homem de fé,junqueira sertanejo religioso,Amélia mulher valente padre Ramos,prefeito Tomasinho ateu.
[Capítulo 1: O Sino da Capela
O sol se punha devagar sobre a cidade de Itaporati , tingindo de dourado os telhados de barro. O som do sino da Capela de São Bento ecoava pelo arraial: “Tlim… tlom… tlim… tlom…”.
Maria ajeitava o véu branco sobre os cabelos, enquanto Rosaria acendia as velas do altar. Franciane, com voz firme, murmurava:
— “Nóis num pode deixá essa capela cair nas mão desses descrente, não.”
Do lado de fora, Germanio, o fazendeiro ateu, observava com desdém.
— “Essas beatas acham que vão segurá o mundo com vela e reza… Ô bobagem.”
Junior e Euvino, seus capangas, riam alto: “Ha-ha-ha!”.
Doralice, mulher de fé, aproximou-se das três.
— “Minhas irmãs, o povo tá com medo. Germanio anda dizendo que vai fechá a capela.”
Francisco, o homem sábio, entrou devagar, apoiado no cajado. Sua voz soou firme, mas serena:
— “Onde tem fé, tem união e proteção, minhas irmãs. Contra os descrente, a força da oração é escudo.”
Ele respirou fundo, olhando para Maria, Rosaria e Franciane.
— “A fé é mais forte que qualquer ameaça. Mas cuidado… Germanio num brinca.”
De repente, um estrondo ecoou: “PÁÁÁÁ!”. O disparo de Juca da Pistola rasgou o silêncio, intimidando os fiéis que se encolheram no banco da capela.
— “Germanio mandô avisá: quem rezá aqui vai se arrepender.” — gritou ele, com voz áspera.
Juca ergueu o revólver novamente e completou, com olhar frio:
— “E quem num obedecê… vai pará a sete palmo de terra.”
O som metálico da arma ecoou: “CLIC-CLAC!”, enquanto os fiéis se entreolhavam, alguns murmurando preces baixas.
Rosaria, sem se abalar, saiu firme pela porta da Capela e respondeu com voz cheia de coragem:
— “Pois então, que venha! A fé da gente é bala que num se perde. Mas se for preciso defendê essa capela, eu viro pecadora com arma na mão.”
Maria surgiu logo atrás, apontando a espingarda, os olhos faiscando:
— “Se vierem, que venham com fé, não com ódio. Quem tem fé no Deus criador num se curva diante de ameaça.”
Franciane ergueu a Bíblia numa mão e, na outra, segurava a arma. Deu três tiros pro alto: “PÁ! PÁ! PÁ!”. O som ecoou pelo arraial, fazendo os descrentes recuarem.
— “Aqui nessa capela só entra quem realmente busca a Deus! Mas eu atiro até pra matá quem tentar fazê mal ao povo dessa comunidade. Deus há de me perdoá, porque proteger a capela é Bíblia, é oração… e é espingarda na mão!”
Frei Simão surgiu pela porta, levantando a mão.
— “Silêncio! Esta casa é de Deus. Quem ousá profaná vai enfrentá mais que nossas rezas.”
Germanio cuspiu no chão: “Ptuu!”. Seu olhar era de desprezo e desafio.
— “Veremos, frei… veremos.” — disse com voz carregada de rancor.
Ele deu um passo à frente, encarando os fiéis que se encolhiam nos bancos da capela.
— “O recado tá dado. Logo, logo essa capela vai ser derrubada… seja no machado ou no fogaréu.”
O silêncio pesado tomou conta do lugar, quebrado apenas pelo som distante do sino que voltou a ecoar sozinho: “Tlim… tlom… tlim… tlom…”.
Enquanto o conflito se armava, o sino voltou a tocar sozinho, sem ninguém puxar a corda: “Tlim… tlom… tlim… tlom…”.
Os fiéis se entreolharam, assustados, alguns murmurando orações baixas. Maria, com olhar firme, murmurou:
— “É sinal, minhas irmãs… Deus tá com nóis.”
Rosaria ergueu a arma e apontou para fora da capela, a voz carregada de coragem:
— “Vamos entrar. Se Germanio aparecer, vai ser chumbo. Homem que num tem fé em Deus não mete medo em nós.”
Franciane observava Germanio subir no carro de luxo, o motor roncando: “Vruuum!”.
— “Deixa ele vim bravo… vai levá chumbo e ficá mansinho.”
Germanio, pálido, recuou um passo antes de entrar no automóvel. Com expressão dura, fechou a porta e partiu, deixando atrás de si o cheiro de gasolina e ameaça.
Maria, Rosaria e Franciane se entreolharam. Eram biatas de fé, mas também mulheres de guerra, prontas a calar qualquer descrente que ousasse profanar a casa de Deus.
Capítulo 2: O Grito de Socorro
Já era meia-noite. Pela luz fraca do lampião, dentro da capela, as três biata tavam ajoelhada diante do altar da Virge Maria, rezando baixim.
Maria, com os olho marejado, olhou pra santa e murmurô:
— “Ô mãe Virge Santa, perdoa nóis se precisá usá arma pra defendê essa capela.”
Rosaria, firme, completô:
— “Sei que a senhora há de guiá nóis… mas se for preciso, vamo enfrentá esses descrente da fé.”
Franciane, com o coração pesado, encarava a imagem da Virge:
— “Num tá fácil segurá a raiva, minha santa.”
As três, juntas, elevaram a prece:
— “Senhor Deus, Pai criadô, dá paciência pra nóis. Num deixa nóis cultivá violência. Livra nóis do rancor e da maldade. Faze de nóis três mulher de fé, coração puro de verdade. Amém.”
De repente, um grito desesperado rasgô a noite:
— “Socorrrrooo!”
O som ecoô pelas parede da capela, gelando o sangue das biata. Era Cristiane, em desespero.
Cristiane gritava, chorando:
— “Euuuu… só quero rezááá!”
Antes que pudesse gritá de novo, a boca dela foi tampada com pano grosso pelos capanga de Germanio.
Junior, o mais cruel, segurava os braço dela com força.
— “Quietinha, moça, senão vai sofrê mais.”
Euvino, rindo debochado, apertava o pano contra a boca dela:
— “Germanio mandô calá a boca dessa gente que insiste na fé. E nóis vai fazê isso.”
Juca da Pistola, com o revólver na mão, disparô nas vidraça da capela: “PÁÁÁÁ!”
— “Anda, tacá fogo na capela! Aproveita que num tem ninguém aí. Se tiver, vai sê queimado junto.”
Cristiane se debatia, lágrima correndo pelo rosto.
— “Mmmfff!” — o som abafado dela lutando ecoava na noite.
Maria, o coração batendo forte, gritou:
— “Minhas irmã, é Cristiane! Eles tão pegando ela!”
Rosaria ergueu a espingarda, os olho faiscando.
— “Pois então, vamo mostrá que fé é união. Pessoa descrente quer o mal, mas se cala é com bala.”
Franciane levantô com a arma na mão.
— “Deus há de guiá nóis. Mas se for preciso, vai tê chumbo.”
O lampião tremeluziu, lançando sombra nas parede da capela.
— “Crac… crac…” — o som da madeira rangendo sob os passo apressado.
Germanio apareceu ao fundo, dentro do carro de luxo, olhando a cena com frieza.
— “Acaba logo com isso, capanga. Essa capela vai caí, seja no machado ou no fogaréu.”
Junior puxô Cristiane pelo braço, arrastando ela pelo terreiro.
— “Anda, moça, vamo levá ocê pro patrão vê.”
Rosaria saiu pela porta, apontando a arma.
— “Solta ela agora, ou vai tê sangue!”
Euvino riu, zombando:
— “Mulher de fé com arma na mão? Isso é pecado, beata.”
Maria respondeu com firmeza:
— “Pecado é tentá destruí a casa de Deus. E nóis num vai deixá.”
Franciane disparô mirando no carro de luxo: “PÁ! PÁ! PÁ!”. O som ecoô pelo arraial, e os pneu furô, fazendo os capanga recuá por instinto.
Germanio, furioso, gritou:
— “Essas muie num tão pra brincadeira… tão mirano pra matá!”
Cristiane aproveitô o momento e conseguiu se soltá, correndo pras biata.
— “Eles queriam me levá, minhas irmã!”
Rosaria abraçou a moça, protegendo ela atrás de si.
— “Agora ocê tá segura. Aqui ninguém toca em quem tem fé.”
Germanio, pálido, recuô pra carroça com os capanga, deixando o carro de luxo com pneu furado.
— “Isso ainda num acabou. Logo essa capela vai ardê em fogo.”
Germanio e os capanga sumiram na escuridão da noite, levando na carroça galão de querosene.
Maria, Rosaria e Franciane se entreolharam, firmes.
— “Nóis é biata de fé… mas também muie de guerra. Se for preciso, vamo ficá de campana aqui, mostrando que casa de Deus é lugar de fé e num vai sê destruída.”
Capítulo 3: A Vingança de Germanio
A madrugada mal tinha se aquietado quando Germanio e seus capanga voltaro pra fazenda. O carro de luxo, com pneu furado, ficô largado em frente à capela. A carroça rangia carregada de galão de querosene: “Cric… crac… cric…”.
Germanio, com o rosto fechado, falava cheio de raiva:
— “Essas muie tão achano que vão mandá em mim. Mas eu juro, essa capela vai virá cinza.”
Junior, ainda rindo da confusão, respondeu:
— “Patrão, elas num tem medo, não. Atiraro nos pneu do carro como se fosse soldado. Pra atirá em nóis, num vai pensá duas vez.”
Euvino coçou a barba, desconfiado:
— “Mas também… três biata armada é coisa que ninguém esperava. O povo tá começano a ficá do lado delas.”
Juca da Pistola, batendo o revólver na palma da mão, completô:
— “Se o senhor quiser, nóis volta lá hoje mesmo com mais homem, comprado com dinheiro e pinga, e acaba com tudo.”
Germanio levantô a mão, mandando silêncio:
— “Não. Agora é hora de planejá. Se nóis for de supetão, o povo vai se revoltar. Podem se juntá a elas com facão e inchada. Quero pegá essas muie de jeito, sem chance de defesa.”
Enquanto isso, na capela, Maria, Rosaria e Franciane vigiavam em campana. O lampião clareava pouco, mas a fé delas iluminava mais que qualquer luz.
Maria falava baixim:
— “Minhas irmã, Germanio num vai desistí. Ele vai voltá, com mais homem… capaz até de se juntá ao prefeito descrente, o Tomasinho.”
Rosaria, com a espingarda no colo, respondeu, lembrando da Bíblia:
— “Como diz o Salmo 33:20: ‘Nossa esperança tá no Senhor; ele é o nosso auxílio e a nossa proteção.’
__Pois que venha. Aqui é casa de Deus. E nóis num arreda o pé. Se precisá, vai tê chumbo.”
Franciane, segurando a Bíblia, completô:
— “A fé é escudo. Mas se precisá, o chumbo também fala.”
Cristiane, ainda assustada, chorava perto do altar:
— “Eu pensei que ia morrê… eles me arrastaro como se fosse bicho.”
Rosaria abraçou a moça, consolando:
— “Ocê tá segura agora. Aqui ninguém toca em quem tem fé.”
Do lado de fora, o vento soprava forte: “Uuuuuhhh…”. Era como se a própria noite avisasse que a guerra tava só começando.
Na fazenda, Germanio reuniu os capanga em volta da mesa.
— “Amanhã, nóis vai juntá mais homem. Quero fogo, quero machado, quero medo. Essa capela vai caí. Num vai ficá pedra sobre pedra.”
Junior levantô o copo de cachaça:
— “Pois então, patrão. Amanhã é dia de guerra. E quando derrubá a capela, ergue um cabaré no lugar! Hahaha!”
Euvino, meio receoso, murmurô:
— “Mas se o povo se revoltar, vai dá ruim pra nóis.”
Germanio bateu na mesa: “TUM!”
— “Quem manda aqui sou eu! E quem ficá contra mim vai caí junto com a capela.”
Atrás do barracão da fazenda, Junqueira, homem sertanejo e religioso, escutava tudo pela janela.
— “Se precisá confrontá esses cabra, eu me torno soldado ao lado das biata. A capela é casa de Deus, lugar sagrado. Vou avisá o Frei Simão.”
Horas depois:
na capela, Frei Simão chegou de madrugada, trazendo notícia:
— “Minhas filhas, fiquei sabendo por Junqueira que Germanio tá juntando mais capanga. O povo tá com medo. Mas Junqueira falou que, se precisá, se torna soldado ao lado de vocês.”
Maria respondeu com firmeza:
— “Pois então, padre. O povo tem que vê que nóis num tem medo. A fé é mais forte que qualquer ameaça. Se Junqueira quiser se juntá, é uma arma a mais contra os descrente.”
Rosaria completô:
— “Se Germanio vier, vai encontrá nóis de pé, rezando e defendendo nossa capela e nosso povo.”
Franciane ergueu a Bíblia e disse:
— “Aqui é oração e espingarda. Deus há de nos guiá.”
O sino da capela tocô sozinho de novo: “Tlim… tlom… tlim… tlom…”.
Os fiéis que moravam perto acordaram, correndo pra capela. Doralice, mulher de fé, chegou apressada:
— “Minhas irmã, ouvi o sino. É sinal de Deus!”
Francisco, o homem sábio, entrou devagar, apoiado no cajado:
— “Quem tem fé tem proteção. Hoje já sou mais velho, mas ainda sei mirá bem com arma na mão.”
O povo se juntava, formando um círculo de proteção em volta da capela.
— “Temos que ficá junto das biata, armado de Bíblia e de coragem. Se precisá, também de arma de fogo e de facão de corte. Esse fazendeiro Germanio e esses capanga num vão destruí a fé.”
Germanio, de longe, observava com raiva.
— “Essas muie tão levantando o povo contra mim. Mas eu vou quebrá essa união.”
O vento soprou mais forte, como se fosse aviso divino.
Maria olhou pras irmãs e disse:
— “A guerra tá começando, o cerco tá se fechando. Mas Deus tá com nóis.”
Rosaria apertou a espingarda:
— “Pois então, que venha Germanio. Aqui é fé, aqui é união do povo, aqui é Deus no controle.”
Franciane ergueu a Bíblia pro alto:
— “E se for preciso, vai sê fé e fogo.”
Aquele dia se formava o momento decisivo: quem tinha fé e coragem iria combatê o mal e protegê a amada capela.
Capítulo 4 penúltimo: A Emboscada
O sol já se escondia atrás das montanhas quando um silêncio pesado tomou conta do arraial. Dentro da sacristia, padre Ramos e frei Simão cochichavam, preparando o espírito pra guerra que se armava. O cheiro de vela misturava com o da madeira antiga, e cada palavra deles parecia carregar o peso da fé e da coragem.
Do outro lado, Germanio reunia seus capangas: Junior, Euvino, Juca da Pistola e até o prefeito Tomasinho. Além deles, outros homens comprados com pinga e dinheiro fácil se juntavam à tropa. O fazendeiro, com o rosto fechado e os olhos faiscando de ódio, cuspiu no chão e rosnou:
— “Hoje essa capela vai virá cinza! Quero vê o fogo comê até o altar da Virge Maria. Quem ficá contra mim vai caí junto com as pedra dessa igreja.”
Tomasinho, desconfiado, murmurou:
— “Tá muito quieto… cuidado, Germanio. Essas biata são ligeira. Pode sê emboscada.”
Na mata, escondidos, Maria, Rosaria e Franciane vigiavam com o povo da comunidade. Junqueira, sertanejo valente, apontava a espingarda:
— “Esse fazendeiro pensa que manda em tudo… hoje vai aprendê que fé num se derruba.”
Amélia, sobrinha do frei Simão, fez sinal com a mão. O povo se armava com facão, espingarda e coragem. Até Bento, filho do prefeito, olhava de longe, confuso:
— “Meu pai se juntô a Germanio… mas eu sei que tá errado. Vai sê guerra de cristão contra descrente.”
Germanio caminhou até a porta da capela. Deu um chute forte: “CRÁÁÁC!”. A porta se abriu. Ele entrou rindo entrou dentro da capela caminhando :
— “Cadê os pobre fiel? Hoje vão queimá junto com essa casa de Deus!”
Mas, pra surpresa de Germanio, padre Ramos e frei Simão surgiram do altar. O silêncio da capela se quebrou quando padre Ramos deu um passo firme, encarou o fazendeiro de frente e, num gesto inesperado, puxou uma pistola debaixo da batina. Encostou no peito de Germanio e disse com voz carregada de autoridade:
— “Germanio, ajoelha, faz o sinal da cruz e pede bença. Senão, hoje ocê vai conhecê o inferno.”
Germanio engoliu seco, tremendo, tentando disfarçar o medo:
— “Ocê… ocê é padre! Num tem coragem de atirá!”
Padre Ramos respondeu firme, sem desviar o olhar:
— “Sou padre, sim. Sou homem pecador, como todos dessa terra. Mas também sou homem de coragem, que defende a casa de Deus e num se curva pra descrente.”
Frei Simão, rindo de canto, completou:
— “Se ocê tem arma, nós também tem. E se precisá, o céu vai se abrir em fogo.”
Nesse instante, Maria entrou pela porta dos fundos, seguida de Rosaria, Franciane e o povo. As armas se ergueram contra Germanio, formando um cerco. Amélia gritou com voz firme:
— “Se tentá algo, vai ter sangue!”
Maria olhou séria, apontando a espingarda:
— “Se tu ousá profaná essa capela, vai conhecê o inferno ainda hoje.”
Rosaria, sorrindo com ironia, provocou:
— “Tá suando, né, homem? Cadê o valente que achava que padre num puxava gatilho?”
Franciane ergueu a Bíblia numa mão e a arma na outra, sorrindo com firmeza:
— “Assim como o padre e o frei têm coragem de puxá gatilho, nós também temos. Porque o povo unido é fé… e é fogo.”
Germanio recuou, pálido, caminhando devagar para trás, tentando sair da capela. Padre Ramos mantinha a arma firme contra o peito dele, enquanto frei Simão, Maria, Rosaria, Franciane, Amélia e o povo avançavam juntos, apontando suas armas com olhar decidido.
Os capangas se entreolharam, assustados, sem coragem de reagir. O prefeito Tomasinho, incrédulo, murmurou com voz trêmula:
— “Até padre tem arma… isso virou guerra de verdade.”
Juca da Pistola, nervoso, gritou:
— “Avança! Atira!”
Mas Tomasinho, suando frio, retrucou apavorado:
— “Atirá como? Eles têm mais arma que a gente!”
Nesse momento, Maria assobiou forte. O som cortou o silêncio da noite. Do mato, o povo saiu em peso, cercando a capela por todos os lados. Espingardas se ergueram, facões brilharam sob a luz fraca, e o cerco se fechou.
De repente, vários tiros pro alto ecoaram juntos: “PÁ! PÁ! PÁ!”. O estrondo fez o chão tremer e o coração dos descrentes gelar. Germanio, o prefeito Tomasinho e os capangas recuaram correndo, tropeçando na escuridão, como animais acuados.
O povo, firme, não precisou derramar sangue. O som das armas e, sobretudo, a força da união bastaram pra mostrar que a fé não se curva diante de ameaça nenhuma.
Padre Ramos abaixou a pistola devagar e abriu a Bíblia sobre o altar. Sua voz ecoou pela capela:
— “Salmos 133:1 – Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!”
Ele ergueu o olhar e completou:
— “Nós também temos armas, mas atiramos pra assustar, não pra matar. A arma maior é a Palavra de Deus.”
Maria sorriu, aliviada, enxugando o suor da testa:
— “Agora a capela tem paz.”
Rosaria, rindo com ironia, acrescentou:
— “Nem capanga quis ser valente. Até eles tremeram diante da fé.”
Franciane ergueu a Bíblia numa mão e a espingarda na outra, declarando com firmeza:
— “Matar não. O que nóis faz é protegê. A casa de Deus num vai caí nunca.”
De repente, o sino da capela tocou sozinho mais uma vez: “Tlim… tlom… tlim… tlom…”. O som sagrado ecoou pelo arraial, arrepiando até os mais descrentes. O povo se ajoelhou, chorando e rezando, alguns levantando as mãos pro céu.
Naquele instante, todos entenderam: a guerra não era só contra Germanio e seus capangas, mas contra o medo e a descrença. E a vitória já estava escrita, porque a união do povo e a fé em Deus eram armas que nenhum fogo podia destruir.
Capítulo 5 final: Aqui se faz, aqui se paga
Passo os dias, semanas e meses. O arraial de Itaporati voltava ao normal, mas Germanio,autoridade poderoso, agora estava desabilitado na cama, fraco, queimando em febre e dores. Os capanga, cabisbaixo, tiravam o chapéu diante dele, sabiam que o patrão tava partindo.
O prefeito Tomasinho, arrependido, chamou padre Ramos e as três biata — Maria, Rosaria e Franciane. Frei Simão veio junto. Era hora de atender o último pedido de Germanio.
Tossindo, com a voz fraca, Germanio murmurou:
— “Quero pedi perdão… pras três biata, pro padre Ramos, pro frei Simão… e pro povo de Itaporati… pelo mal que eu fiz.”
Ele se engasgava: “Cof… cof…” e olhou pro padre com olhos marejado:
— “Padre… o que eu fiz tem perdão? Ao partí dessa pra melhor… ou pra pior?”
Padre Ramos se aproximou, firme:
— “Germanio, todos nós é pecador. O perdão existe, mas só Deus pode dá. Aqui na terra, cada um presta conta do que fez. Ocê vai ter que se acertá com Ele.”
Germanio fechava os olhos devagar, a voz quase sumindo:
— “Eu tenho medo da morte… vergonha do que cometi…”
Padre Ramos fez o sinal da cruz sobre ele:
__Não tenha medo da morte descanse em paz.
— “Senhor, receba essa alma. Só o Senhor pode perdoá os erro dessa vida.”
As biata se ajoelharam ao lado da cama e começaram a cantar em coro, com voz embargada:
— “Senhor Deus, receba essa alma pecadora, que se arrependeu dos seus erro em vida. Perdoa, ó Deus, perdoa. Que descanse em paz, pois só o Senhor pode perdoá.”
O povo, reunido na porta, chorava baixim. Até Tomasinho, antes aliado de Germanio, deixou cair lágrima de arrependimento.
Germanio respirou fundo pela última vez. O silêncio tomou conta do quarto. O sino da capela, distante, tocou sozinho: “Tlim… tlom… tlim… tlom…”.
Maria olhou pras irmãs e disse:
— “Aqui se faz, aqui se paga. Mas Deus é justo, e só Ele decide o destino da alma.”
Rosaria completou:
— “O homem que tentou destruí a fé agora se rende diante dela.”
Franciane ergueu a Bíblia e falou com firmeza:
— “A capela ficou de pé. O povo se uniu. E a fé venceu.”
O povo de Itaporati se ajoelhou, rezando junto. A guerra tinha acabado. A paz voltava ao arraial, e a história das três biata ficava marcada como exemplo de coragem, união e fé.

